quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um punho cerrado

Gare de Sta. Apolónia, acabava de chegar de Coimbra. Um dos mendigos, dos muitos que passam por ali a noite, aproximou-se de mim com aquela cara miserável que convém a alguém que vive daquilo que se julga sem direito: o meu dinheiro. Teria uns cinquenta anos, camisa desabotoada, calças às riscas, casaco castanho às nódoas; arrastava uma perna retorcida. Pediu-me 100 paus, dei-lhos e como estava nos meus dias comecei com filosofias, e lares, e Seguranças Sociais e reabilitações. De repente agitou-se, abriu a camisa apontou-me o lado esquerdo do peito e disse naquela voz entaramelada pela manhã de um bêbado:

— Vê este punho fechado, com dois elos inteiros e um partido?
Acenei com a cabeça.
— Vi-o pela primeira vez à mais de 20 anos numa viagem por aí, pelo mundo. Olhe, dessa vez voltava da Suiça, da fruta. Umas horas antes um qualquer desgraçado tinha-me roubado a mochila na praia de Torremolinos, tinha ficado sem nada, nem umas cuecas tinha, foi com uma toalha à volta do cu que fui ao comissariado da Guardia Civil. “ Las hermanitas de los pobres” vestiram e deram-me de comer (dinheiro é que não, não fosse eu gastá-lo em droga ou vinho). Sabe o que fiz quando percebi que estava sem dinheiro, sem passaporte, sem roupa? Ri, fartei-me de rir! Só parei de rir quando uns dias depois, em Lisboa, pedi dinheiro emprestado ao meu irmão.
— Onde é que viu o desenho, o punho?
— Era um daqueles desenhos que estão em álbuns nas lojas onde fazem tatuagens. Acho que a loja se chama “O império del tatoo” e fica no centro de Torremolinos, ao pé da praça.
— Fez a tatuagem?
— Não, dessa vez não tinha dinheiro. Mas voltei lá, nunca mais esqueci o desenho. Voltei até várias vezes mas nunca o fazia; ou porque a casa estava fechada ou por causa do sol e do mar nunca fiz a tatuagem. Finalmente numa Primavera, uns 10 anos depois, fiz aqui o boneco que você viu. Fi-lo com a promessa de acrescentar um elo à cadeia a cada compromisso que aceitasse da vida. Um casamento, um filho, uma casa, sei lá uma prisão qualquer, pumba, mais um elo, até que não houvesse corpo para tatuar elos!
— Mas... tem poucos elos, disse eu, titubeante, perante a sofreguidão verbal do homem.
- ...Nos primeiros dias do Verão desse ano.
As lágrimas afloraram-lhe aos olhos, os desgraçados também choram.
— Nos primeiros dias do Verão desse ano, num acidente de carro, desfiz o meu corpo e a minha vida d’homem livre. A promessa de poucas semanas antes já não fazia sentido. Era agora eu que corria atrás dos compromissos, é que sabe, a liberdade não ajuda a viver e menos ainda ajuda a um desgraçado, tinha-me tornado um peso para a Segurança Social. E não pense que já sabe o resto porque a vida é para homens e não p'ra meninos!
— Eu, eu não penso nada.
— É melhor que continue assim. E por acaso não tem aí mais uma moedinha?
Não, não tinha mas acabei por dar-lhe uma nota de 500. No fundo devia ser pelo dinheiro que contava a história da tatuagem.
A conversa em Sta. Apolónia haveria um dia de me deixar maldisposto, só que naquela altura não tinha forma do saber; afastei-me por isso, satisfeito e com a sensação de dever cumprido: ouvira um pobre coitado e sustentara um vício. Tocavam já as trompetas no paraíso anunciando a minha chegada.
Enquanto me afastava pareceu-me ouvir entremeado por um riso meio demente meio jocoso:
— Pois é “menino”, o punho, esse continua com dois elos e meio. Se estivese no teu peito tinhas elos até ao cu.

domingo, 19 de abril de 2009

Philip Roth

"quando fazemos amor com uma mulher, tudo aquilo de que não gostamos na vida e tudo aquilo que nela nos derrota é, momentaneamente, vingado!"
Philip Roth in "O animal moribundo"

("O animal moribundo" foi talvez o melhor romance que li nos últimos anos)

Cabeçalho


Escrevo um diário há mais de 20 anos. De cada vez que abro um dos 120 cadernos A4 que se amontoam na estante é como se reencontrasse um velho conhecido, alguém em que reconheço uma profunda dedicação a este espinhoso "... mestiere di vivere".
Sei que só “… aprendemos a viver quando a vida já passou”. Preciso ler-me para que o meu respeito por mim próprio seja inabalável: entender as circunstâncias que me levaram aos fracassos e relativizar os sucessos. Encontro esse outro eu que já não é, e previno a pior das doenças da alma: " ... entre as nossas doenças, a mais selvagem é a de desprezarmos o nosso ser".
Num tempo novo, com novos meios, escrevo, ou transcrevo aqui, uma parte pública desse diário.