terça-feira, 19 de maio de 2009

A morte de Deus


estou a ler "Tratado de Ateologia" de Michel Onfray.
as aulas de Michel Onfray na Université populaire de Caen podem ser ouvidas na France Culture em http://sites.radiofrance.fr/chaines/france-culture2/emissions_ete/caen ou no blog http://michel-onfray.over-blog.com, em francês.

pouca gente lê, ou leu, este autor (como é costume Portugal é um país de escritores semi-analfabetos, escrevem como loucos mas ler isso é que era bom, dá trabalho!):

o mundo nunca será predominante ateu, "a fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as ideias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa."

por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, excepto um”. Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.
Onfray propõe o que chama de “projeto hedonista ético”, em que defende o direito do ser humano ao prazer.

"Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso libertar-me. A liberdade nunca é dada. Ela constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem."

"É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças."

"O famoso sexto mandamento da Torá ensina: “Não matarás”. Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: “Não vim trazer a paz, e sim a espada”. O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que “quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade” (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis (”Matai-os onde quer que os encontreis”, segunda sura, versículo 191), os judeus (”Que Deus os combata”, nona sura, versículo 30), os ateus (”Deus amaldiçoou os descrentes”, 33ª sura, versículo 64) e os politeístas (”Matai os idólatras, onde quer que os acheis”, nona sura, versículo 5)."

"O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A ideia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo."



"A morte de Deus supõe a domesticação do nada. Estamos a anos -luz de tal progresso ontológico..."

mas ele há deuses e deuses e:

"Os três monoteísmos, animados pela mesma pulsão de morte genealógica, partilham uma série de desprezos idênticos: ódio à razão e à inteligência; ódio à liberdade; ódio a todos os livros em nome de um só; ódio à vida; ódio à sexualidade, às mulheres, ao prazer; ódio ao feminino; ódio aos corpos, aos desejos, às pulsões. Em vez de tudo isso, o judaísmo, o cristianismo e o islão defendem: a fé e a crença, a obediência e a submissão, o gosto pela morte e a paixão do além, o anjo assexuado e a castidade, a virgindade e a fidelidade monogâmica, a esposa e a mãe, a alma e o espírito. O mesmo é dizer, a vida crucificada e a celebração do nada..."

as aulas de Michel Onfray na Université populaire de Caen podem ser ouvidas naFrance Culture em http://sites.radiofrance.fr/chaines/france-culture2/emissions_ete/caen.
"No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia - ateia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista."

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Kama Sutra

Quem chega aos 30 anos sem ter lido o Kama Sutra de Vatsyayana não merece o pão que come!
Mas aqui a coisa complica-se; em geral nas livrarias o que há é textos, ao gosto do público, e vagamente inspirados no Kama Sutra de Vatsyayana.
Para começar o Kama Sutra é um livro de sutras sagrados sobre o Kama (http://en.wikipedia.org/wiki/Kama) por isso não esperem posições sexuais ou imagens de moçoilas de perna aberta. O Kama Sutra não tem imagens nem posições sexuais (*)!, se o vosso tinha dessas maxmanzices/mulhermodernices, lixo com ele!
Por puro deleite intelectual aqui ficam algumas passagens que me surpreendem, incomodam, comovem ou deliciam, começo pela introdução.


INTRODUÇÃO:
Na literatura de todos os países encontrar-se-ão um certo número de obras que versam especialmente sobre o amor. Em todas elas, este tema é analisado de maneira diferente e de diversos pontos de Vista. A presente obra tem como propósito dar uma tradução completa daquela que é considerada a obra-padrão sobre o amor na literatura sanscrítica e que tem por título Vatsyayana Kama Sutra, ou Aforismos sobre o Amor, de Vatsyayana.
A introdução apresentará os dados relativos à data em que a obra foi escrita e incluirá os comentários que lhe dizem respeito; os capítulos seguintes incluirão uma tradução da própria obra. Toma-se, contudo, conveniente fazer aqui uma breve análise de outras obras do mesmo género, compostas por autores que viveram e escreveram anos depois do desaparecimento de Vatsyayana, mas que o consideravam ainda a grande autoridade e sempre o citaram como o principal guia para a literatura erótica hindu.
Além do tratado de Vatsyayana, são as seguintes as obras sobre o mesmo tema que ainda se podem encontrar actualmente na Índia:
Ratirahasya, ou Segredos do Amor;
Panchasakya, ou As Cinco Setas;
Smara Pradipa, ou A luz, do Amor;
Ratimanjari, ou A Grinâldado Amor:
Rasnanjari; ou o Rebento do Amor;
Anulga Runga, ou o Palco do Amor, também chamada Kamaledhiplava, ou Um Barco no Oceano do Amor.

NÃO SE DEVERÃO DESFRUTAR AS SEGUINTES MULHERES:
As leprosas;
As dementes;
As mulheres que foram expulsas da sua casta;
As mulheres que revelam segredos;
As mulheres que expressam publicamente desejo de ter relações sexuais;
As mulheres extremamente brancas;
As mulheres extremamente escuras;
As mulheres que cheiram mal;
As mulheres que sejam parentes próximas;
As mulheres com quem se tenham laços de amizade;
As mulheres que vivam asceticamente;
Finalmente, as esposas de um parente, de um amigo, de um brâmane erudito ou do rei.

Os discípulos de Babhravya dizem que toda a mulher que tenha sido gozada por cinco homens pode ser justa e adequadamente desfrutada por outros. Todavia, Gonikaputra é de opinião que, mesmo neste caso, deverão exceptuar-se as mulheres de um parente, de um brâmane erudito ou de um rei.


DO MODO DE INICIAR E ACABAR A UNIÃO SEXUAL.
DIFERENTES TIPOS DE UNIÃO SEXUAL
E DE DISPUTAS AMOROSAS
Na sala do prazer, decorada com flores e aromatizada com fragrâncias, o cidadão, na companhia dos seus amigos e criados, receberá a mulher, que se apresentará adequadamente vestida e ainda fresca do banho, e convidá-la-á a descansar e a beber livremente. Fá-la-á sentar-se à sua esquerda e, tomando-lhe os cabelos e tocando-lhe também a extremidade e o laço do vestido, abraçá-la-á delicadamente com o braço direito. Ambos entabularão seguidamente uma conversa agradável sobre vários tópicos, podendo também conversar dissimuladamente acerca de coisas consideradas grosseiras ou que não deveriam, em princípio, ser mencionadas em sociedade. Poderão ainda cantar, com ou sem gestos, tocar instrumentos musicais, conversar sobre as artes e instigar-se mutuamente a beber. Finalmente, quando a mulher já não puder reter por mais tempo o seu amor e o seu desejo, o cidadão despedirá as pessoas que possam estar com ele, dando-lhes flores, unguentos e folhas de bétel; então, quando os dois ficarem sós; deverão proceder conforme o exposto nos capítulos precedentes.
Tal é o começo da união sexual. No fim da união, os amantes, com pudor e sem olharem um para o outro, deverão ir separadamente à sala de banho. Seguidamente, sentados nos lugares que ocupavam, deverão comer algumas folhas de bétel, e o cidadão, com a sua própria mão, aplicará no corpo da mulher um unguento puro de sândalo onde qualquer outra espécie. Ele enlaçá-la-á então com abraço esquerdo e, com palavras agradáveis, deve dar-lhe de beber de uma taça que segura na sua própria mão; ou poderá oferecer-lhe simplesmente água. Poderão depois comer doçarias ou qualquer outra coisa, de acordo com os seus gostos e beber sumos frescos, sopa, tisana, extractos de carne, sorvetes, sumo de manga, sumo de cidra açucarado ou qualquer coisa que seja apreciada nas diferentes regiões e conhecida por ser doce, agradável e pura. Os amantes podem também sentar-se no terraço do palácio ou da casa e apreciar o luar, entabulando uma conversa agradável. Nesta altura, enquanto a mulher se reclina no seu colo, com o rosto , virado para a Lua, o cidadão deve mostrar-lhe os diferentes planetas, a estrela de alva, a Estrela Polar e as sete Rishis, ou Ursa Maior.
Assim termina a união sexual.

São os seguintes os tipos de união sexual:
União de amor;
União de amor subsequente;
União de amor artificial;
União de amor transferido;
União à semelhança dos eunucos;
União enganosa;
União de amor espontâneo,

Quando um homem e uma mulher que se amam há algum tempo conseguem estar juntos, apesar de grandes dificuldades, ou quando um deles regressa de uma viagem, ou se reconciliam depois de uma desavença, então a união chama-se a união de amor. Os dois amantes praticam-na segundo os ditames da fantasia e durante o tempo que lhes aprouver.
Quando duas pessoas se unem enquanto o seu amor está ainda na infância, a esta união dá-se o nome de união de amor subsequente.
Quando O homem se entrega ao acto sexual excitando-se por meio das sessenta e quatro formas possíveis, como o beijo; etc., ou quando um homem e uma mulher praticam o acto carnal, conquanto na realidade estejam vinculados a pessoas diferentes, dá-se a união de amor artificial. Devem utilizar-se neste caso todos os procedimentos e meios mencionados na Kama Sutra.
Quando o homem, do principio ao fim da união carnal com uma mulher, não deixe de pensar que está gozando uma outra a quem realmente ama chama-se união de amor transferido.
A união sexual entre um homem e uma aguadeira ou uma criada de casta inferior à sua que dure até à satisfação do desejo denomina-se união à semelhança dos eunucos. Não deverão empregar-se nestas circunstâncias as carícias, os beijos e a manipulação.
A união sexual entre uma cortesã e um camponês, ou entre cidadãos e mulheres das aldeias ou de regiões limítrofes, dá-se o nome de união enganosa.
Ao acto sexual praticado por duas pessoas que se sentem mutuamente atraídas e de acordo com os seus próprios gostos chama-se união espontânea.
Assim terminam os tipos de união sexual.

Falemos agora das disputas de amor.
A mulher que ame apaixonadamente um homem não suporta que pronunciem na sua presença o nome da rival, que tenham uma conversa a seu respeito, ou ainda chamem pelo nome daquela. Se tal acontece, desencadeia-se uma grande desavença; a mulher solta gritos, encoleriza-se, desgrenha-se, bate no amante, deixa-se cair da cama ou do assento e, lançando por terra as suas grinaldas e ornamentos, jorra-se ao chão.
Nesta altura, o amante tentará aplacá-la com palavras conciliatórias, levantá-la com delicadeza e pô-la na cama. Mas ela, ignorando as perguntas dele e dominada por uma ira crescente, curvar-lhe-á a cabeça, puxando-lhe o cabelo, e, depois de lhe ter dado pontapés repetidos nos braços, na cabeça, no peito ou nas costas, dirigir-se-á para a porta do aposento. Dattaka afirma que ela deve então sentar-se com ar colérico junto da porta e derramar lágrimas; não deverá, porém, sair para não prevaricar ela própria. Algum tempo depois, quando considerar que o amante mais não pode dizer ou fazer para a conciliar, deve então abraçá-lo, falando-lhe com palavras severas e recriminatórias; mas, deixando ao mesmo tempo transparecer um vivo desejo de ter relações sexuais com, ele.
Quando a mulher se encontra na sua própria casa e discutiu com o amante, deverá procurá-lo, mostrar-lhe toda a sua cólera e deixá-lo. Depois de o cidadão haver enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a apaziguar, ela deverá acompanhá-los de volta a casa e passar a noite com o ,amante.
Assim terminam as querelas de amor.

DA CONFIANÇA A INSPIRAR À JOVEM:
Durante os primeiros três dias a seguir ao casamento, marido e mulher devem dormir no chão, abster-se de prazeres sexuais e comer os seus alimentos sem os temperar, seja com álcali, seja com sal. Durante os sete dias seguintes, devem banhar-se ao som harmonioso de instrumentos musicais, adornar-se, jantar juntos e dar atenção aos seus parentes, bem como àquelas pessoas que tenham vindo assistir ao casamento. Estes conselhos destinam-se às pessoas de todas as castas. Na noite do décimo dia, o homem deve começar a falar à jovem esposa com palavras meigas, num local solitário, procurando assim inspirar-lhe confiança. Alguns autores opinam que, para a conquistar, não deve falar-lhe durante três dias, mas os discípulos de Babhravya são de opinião que, se o homem não lhe dirigir a palavra durante esse tempo, a jovem poderá sentir-se desanimada ao vê-lo inerte como uma estátua e que, desiludida, poderá desprezá-lo como a um eunuco. Vatsyayana afirma que o homem deve começar por conquistá-la e inspirar-lhe confiança, abstendo-se no entanto, a princípio, dos prazeres sexuais. As mulheres,precisamente porque são de natureza tema, precisam de prelúdios ternos; por outro lado, quando são violentadas por homens com quem ainda não se sentem muito familiarizadas, começarão a odiar subitamente as relações sexuais e por vezes mesmo o sexo masculino. O homem deverá, por conseguinte, abordar a jovem segundo as preferências dela e adoptar os procedimentos que lhe possibilitem insinuar-se cada vez mais na sua confiança. São os seguintes esses procedimentos:
Deve começar por abraçá-la da forma que ela prefira, já que isso não dura muito tempo.
Deve abraçá-la com a parte superior do corpo, porque isso é mais fácil e natural. Se a jovem já atingiu a maturidade, ou se o homem a conhece há algum tempo, pode abraçá-la à luz de um candeeiro; contudo, se não se sente muito à vontade com ela, ou se ela é muito jovem, deve então abraçá-la às escuras.
Quando a rapariga aceitar o abraço, o homem deve meter-lhe na boca uma tambula, ou uma porção de nozes e folhas de bétel; se ela o recusar, deve convencê-la a fazê-lo com palavras conciliadoras, súplicas e juramentos; finalmente deve ajoelhar-se a seus pés, já que constitui regra universal o facto de uma mulher, por mais acanhada ou zangada que possa estar, nunca deixar de ar atenção ao homem que ajoelhe a seus pés. No momento em que e esta tambula, ele deve beijar-lhe a boca terna e delicadamente, sem emitir nenhum som. Quando ela se mostrar dócil aos seus beijos, ele deve induzi-la a falar; para tanto, deve fazer-lhe perguntas sobre coisas a respeito das quais ele não saiba ou finja não saber nada e que exijam uma resposta lacónica. Se ela se conservar muda, não deve assustá-la; deve, sim, perguntar-lhe a mesma coisa muitas vezes e em tom conciliador. Se ela persistir no seu mutismo, ele deve pedir-lhe insistentemente que lhe responda, porque, como diz Ghotakamukha, «as raparigas ouvem tudo o que os homens lhes dizem, embora eles próprios não digam por vezes uma única palavra». Instigada deste modo, a jovem deve responder com acenos de cabeça; porém, se se tiver alterado com o homem, não deve sequer fazer isso. Quando o homem lhe perguntar se ela o deseja e se gosta dele, ela deve conservar-se silenciosa durante muito tempo; finalmente, instigada a responder, deverá fazê-lo favoravelmente com um aceno de cabeça. Se o homem conhecer a jovem desde antes do casamento, deve conversar com ela por intermédio de uma amiga que se lhe mostre favorável e, sendo da confiança de ambos, mantenha urna conversa entre eles. Nessas ocasiões, a rapariga deve sorrir com a cabeça baixa e, caso a amiga disser mais pela sua parte do que ela desejava que dissesse, deve censurá-la e discutir com ela. A amiga deve dizer, por brincadeira, mesmo o que a rapariga não deseja que ela diga e acrescentar: «Ela disse isso!»; ao que a rapariga replicará em tom precipitado mas cativante: «Oh, não! Eu não disse isso»; e deve então sorrir e lançar uma olhadela ocasional na direcção do homem.
Se a jovem conhecer bem o homem, deve colocar perto dele, sem nada dizer, a tambula, o unguento ou a grinalda que ele possa ter pedido, ou poderá prendê-los à parte superior das suas vestes.
O homem deve, entretanto, tocar os jovens seios da esposa, fazendo sobre eles pressão com as unhas, e, se ela o impedir, deve dizer-lhe: «Não volto a fazê-lo se me abraçares», levando-a deste modo a abraçá-lo. Enquanto ela o abraça, ele deve passar-lhe repetidamente a mão por todo o corpo. Então, suavemente, deve sentá-la no colo e tentar cada vez mais obter o seu consentimento; se ela se lhe entregar, deve assustá-la com as seguintes palavras: «Imprimirei marcas dos meus dentes e unhas nos teus lábios e seios e farei marcas idênticas no meu próprio corpo; direi os meus amigos que foste tu que as fizeste. Que dirás então?» Desta ou de outra maneira, tal como o medo e a confiança se infundem no espírito das crianças, deve o homem submetê-la aos seus desejos.
Na segunda e na terceira noite, depois de a confiança dela ter aumentado ainda mais, ele deve afagar-lhe todo o corpo com as mãos e beijá-la por toda a parte; deve também pôr as mãos sobre as coxas dela e massajá-las e, se for bem sucedido, deve então massajar-lhe a junção das coxas. Se ela tentar impedi-lo, deve indagar-lhe: «Que mal há nisso?», e persuadi-la a deixá-lo continuar. Depois de conseguir este objectivo, ele deve tocar-lhe as partes íntimas, desapertar-lhe o cinto e o laço do vestido e, levantando as suas roupas de baixo, afagar-lhe as junções das coxas desnudadas.
O homem deve fazer todas estas coisas sobre pretextos, mas não deve nessa altura iniciar a união sexual propriamente dita. Deve, a partir desse momento, ensinar-lhe as sessenta e quatro artes, dizer-lhe quanto a ama e descrever-lhe as esperanças que anteriormente alimentava em relação a ela. Deve também prometer-lhe ser fiel no futuro e dissipar todos os seus receios com respeito a mulheres rivais; por fim, depois de ter vencido a sua timidez, deve começar a gozá-la de maneira que não a amedronte. Tal é a forma de inspirar confiança a uma rapariga. Existem, além disso, alguns versículos sobre este tema, que transcrevemos:
«O homem que proceda de acordo com as inclinações da jovem deve procurar conquistá-la para que ela possa amá-lo e depositar nele a sua confiança. O homem não é bem sucedido nem seguindo cegamente a inclinação da jovem, nem opondo-se-lhe completamente; deve, por conseguinte, adoptar um meio-termo. Aquele que sabe fazer-se amar pelas mulheres, assim como contribuir para a sua dignidade e criar confiança nelas, tem assegurado o seu amor. Porém, aquele que não devota a sua atenção à jovem, pensando que ela é demasiado tímida, é desprezado por ela por não compreender o espírito feminino. Além disso, a jovem desfrutada à força por um homem que não compreenda os corações femininos toma-se nervosa, inquieta e abatida e, repentinamente, começa a detestar o homem que se aproveitou dela. Então, como o seu amor não é compreendido nem retribuído, ela desespera e abomina o sexo masculino em geral ou, odiando o seu próprio homem, recorre a outros homens.»

VATSYAYANA
E agora algumas palavras a respeito do autor desta obra, o bom e velho sábio Vatsyayana. Muito há a lamentar que a sua vida se mantenha envolta em completo mistério. No fim da parte VII, ele próprio declara que compôs a obra quando levava a vida de estudante religioso (provavelmente em Benares), inteiramente entregue à contemplação da divindade. Já deveria; portanto, ter atingido uma certa idade por essa altura, uma vez que ao longo de toda a obra ele coloca à nossa disposição os frutos da sua experiência, as suas opiniões, as quais trazem consigo mais um cunho de maturidade do que de juventude. Na verdade, é muito pouco provável que a obra tenha sido escrita por um jovem.
Num belo versículo dos Vedas dos cristãos fala-se dos defuntos, que repousam em paz e cujas obras os julguem. Na realidade, assim é; as obras dos homens de génio seguem-nos e permanecem como um tesouro perene e, embora possa haver controvérsias e discussões acerca da imortalidade do corpo ou da alma, ninguém poderá negar a imortalidade do génio, que permanece como uma brilhante estrela orientadora para a esforçada humanidade de épocas posteriores. Esta obra, que resistiu à provação dos séculos, colocou Vatsyayana entre os imortais e não poderá escrever-se melhor elegia ou elogio sobre Isto e sobre Ele do que os seguintes versos:

“Enquanto os lábios puderem beijar e os olhos ver,
Assim viverá Isto e Isto dar-te-á vida.”

Kama Sutra

Quem chega aos 30 anos sem ter lido o Kama Sutra de Vatsyayana não merece o pão que come!
Mas aqui a coisa complica-se; em geral nas livrarias o que há é textos, ao gosto do público, e vagamente inspirados no Kama Sutra de Vatsyayana.
Para começar o Kama Sutra é um livro de sutras sagrados sobre o Kama (http://en.wikipedia.org/wiki/Kama) por isso não esperem posições sexuais ou imagens de moçoilas de perna aberta. O Kama Sutra não tem imagens nem posições sexuais (*)!, se o vosso tinha dessas maxmanzices/mulhermodernices, lixo com ele!
Por puro deleite intelectual aqui ficam algumas passagens que me surpreendem, incomodam, comovem ou deliciam, começo pela introdução.


INTRODUÇÃO:
Na literatura de todos os países encontrar-se-ão um certo número de obras que versam especialmente sobre o amor. Em todas elas, este tema é analisado de maneira diferente e de diversos pontos de Vista. A presente obra tem como propósito dar uma tradução completa daquela que é considerada a obra-padrão sobre o amor na literatura sanscrítica e que tem por título Vatsyayana Kama Sutra, ou Aforismos sobre o Amor, de Vatsyayana.
A introdução apresentará os dados relativos à data em que a obra foi escrita e incluirá os comentários que lhe dizem respeito; os capítulos seguintes incluirão uma tradução da própria obra. Toma-se, contudo, conveniente fazer aqui uma breve análise de outras obras do mesmo género, compostas por autores que viveram e escreveram anos depois do desaparecimento de Vatsyayana, mas que o consideravam ainda a grande autoridade e sempre o citaram como o principal guia para a literatura erótica hindu.
Além do tratado de Vatsyayana, são as seguintes as obras sobre o mesmo tema que ainda se podem encontrar actualmente na Índia:
Ratirahasya, ou Segredos do Amor;
Panchasakya, ou As Cinco Setas;
Smara Pradipa, ou A luz, do Amor;
Ratimanjari, ou A Grinâldado Amor:
Rasnanjari; ou o Rebento do Amor;
Anulga Runga, ou o Palco do Amor, também chamada Kamaledhiplava, ou Um Barco no Oceano do Amor.

NÃO SE DEVERÃO DESFRUTAR AS SEGUINTES MULHERES:
As leprosas;
As dementes;
As mulheres que foram expulsas da sua casta;
As mulheres que revelam segredos;
As mulheres que expressam publicamente desejo de ter relações sexuais;
As mulheres extremamente brancas;
As mulheres extremamente escuras;
As mulheres que cheiram mal;
As mulheres que sejam parentes próximas;
As mulheres com quem se tenham laços de amizade;
As mulheres que vivam asceticamente;
Finalmente, as esposas de um parente, de um amigo, de um brâmane erudito ou do rei.

Os discípulos de Babhravya dizem que toda a mulher que tenha sido gozada por cinco homens pode ser justa e adequadamente desfrutada por outros. Todavia, Gonikaputra é de opinião que, mesmo neste caso, deverão exceptuar-se as mulheres de um parente, de um brâmane erudito ou de um rei.


DO MODO DE INICIAR E ACABAR A UNIÃO SEXUAL.
DIFERENTES TIPOS DE UNIÃO SEXUAL
E DE DISPUTAS AMOROSAS
Na sala do prazer, decorada com flores e aromatizada com fragrâncias, o cidadão, na companhia dos seus amigos e criados, receberá a mulher, que se apresentará adequadamente vestida e ainda fresca do banho, e convidá-la-á a descansar e a beber livremente. Fá-la-á sentar-se à sua esquerda e, tomando-lhe os cabelos e tocando-lhe também a extremidade e o laço do vestido, abraçá-la-á delicadamente com o braço direito. Ambos entabularão seguidamente uma conversa agradável sobre vários tópicos, podendo também conversar dissimuladamente acerca de coisas consideradas grosseiras ou que não deveriam, em princípio, ser mencionadas em sociedade. Poderão ainda cantar, com ou sem gestos, tocar instrumentos musicais, conversar sobre as artes e instigar-se mutuamente a beber. Finalmente, quando a mulher já não puder reter por mais tempo o seu amor e o seu desejo, o cidadão despedirá as pessoas que possam estar com ele, dando-lhes flores, unguentos e folhas de bétel; então, quando os dois ficarem sós; deverão proceder conforme o exposto nos capítulos precedentes.
Tal é o começo da união sexual. No fim da união, os amantes, com pudor e sem olharem um para o outro, deverão ir separadamente à sala de banho. Seguidamente, sentados nos lugares que ocupavam, deverão comer algumas folhas de bétel, e o cidadão, com a sua própria mão, aplicará no corpo da mulher um unguento puro de sândalo onde qualquer outra espécie. Ele enlaçá-la-á então com abraço esquerdo e, com palavras agradáveis, deve dar-lhe de beber de uma taça que segura na sua própria mão; ou poderá oferecer-lhe simplesmente água. Poderão depois comer doçarias ou qualquer outra coisa, de acordo com os seus gostos e beber sumos frescos, sopa, tisana, extractos de carne, sorvetes, sumo de manga, sumo de cidra açucarado ou qualquer coisa que seja apreciada nas diferentes regiões e conhecida por ser doce, agradável e pura. Os amantes podem também sentar-se no terraço do palácio ou da casa e apreciar o luar, entabulando uma conversa agradável. Nesta altura, enquanto a mulher se reclina no seu colo, com o rosto , virado para a Lua, o cidadão deve mostrar-lhe os diferentes planetas, a estrela de alva, a Estrela Polar e as sete Rishis, ou Ursa Maior.
Assim termina a união sexual.

São os seguintes os tipos de união sexual:
União de amor;
União de amor subsequente;
União de amor artificial;
União de amor transferido;
União à semelhança dos eunucos;
União enganosa;
União de amor espontâneo,

Quando um homem e uma mulher que se amam há algum tempo conseguem estar juntos, apesar de grandes dificuldades, ou quando um deles regressa de uma viagem, ou se reconciliam depois de uma desavença, então a união chama-se a união de amor. Os dois amantes praticam-na segundo os ditames da fantasia e durante o tempo que lhes aprouver.
Quando duas pessoas se unem enquanto o seu amor está ainda na infância, a esta união dá-se o nome de união de amor subsequente.
Quando O homem se entrega ao acto sexual excitando-se por meio das sessenta e quatro formas possíveis, como o beijo; etc., ou quando um homem e uma mulher praticam o acto carnal, conquanto na realidade estejam vinculados a pessoas diferentes, dá-se a união de amor artificial. Devem utilizar-se neste caso todos os procedimentos e meios mencionados na Kama Sutra.
Quando o homem, do principio ao fim da união carnal com uma mulher, não deixe de pensar que está gozando uma outra a quem realmente ama chama-se união de amor transferido.
A união sexual entre um homem e uma aguadeira ou uma criada de casta inferior à sua que dure até à satisfação do desejo denomina-se união à semelhança dos eunucos. Não deverão empregar-se nestas circunstâncias as carícias, os beijos e a manipulação.
A união sexual entre uma cortesã e um camponês, ou entre cidadãos e mulheres das aldeias ou de regiões limítrofes, dá-se o nome de união enganosa.
Ao acto sexual praticado por duas pessoas que se sentem mutuamente atraídas e de acordo com os seus próprios gostos chama-se união espontânea.
Assim terminam os tipos de união sexual.

Falemos agora das disputas de amor.
A mulher que ame apaixonadamente um homem não suporta que pronunciem na sua presença o nome da rival, que tenham uma conversa a seu respeito, ou ainda chamem pelo nome daquela. Se tal acontece, desencadeia-se uma grande desavença; a mulher solta gritos, encoleriza-se, desgrenha-se, bate no amante, deixa-se cair da cama ou do assento e, lançando por terra as suas grinaldas e ornamentos, jorra-se ao chão.
Nesta altura, o amante tentará aplacá-la com palavras conciliatórias, levantá-la com delicadeza e pô-la na cama. Mas ela, ignorando as perguntas dele e dominada por uma ira crescente, curvar-lhe-á a cabeça, puxando-lhe o cabelo, e, depois de lhe ter dado pontapés repetidos nos braços, na cabeça, no peito ou nas costas, dirigir-se-á para a porta do aposento. Dattaka afirma que ela deve então sentar-se com ar colérico junto da porta e derramar lágrimas; não deverá, porém, sair para não prevaricar ela própria. Algum tempo depois, quando considerar que o amante mais não pode dizer ou fazer para a conciliar, deve então abraçá-lo, falando-lhe com palavras severas e recriminatórias; mas, deixando ao mesmo tempo transparecer um vivo desejo de ter relações sexuais com, ele.
Quando a mulher se encontra na sua própria casa e discutiu com o amante, deverá procurá-lo, mostrar-lhe toda a sua cólera e deixá-lo. Depois de o cidadão haver enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a apaziguar, ela deverá acompanhá-los de volta a casa e passar a noite com o ,amante.
Assim terminam as querelas de amor.

DA CONFIANÇA A INSPIRAR À JOVEM:
Durante os primeiros três dias a seguir ao casamento, marido e mulher devem dormir no chão, abster-se de prazeres sexuais e comer os seus alimentos sem os temperar, seja com álcali, seja com sal. Durante os sete dias seguintes, devem banhar-se ao som harmonioso de instrumentos musicais, adornar-se, jantar juntos e dar atenção aos seus parentes, bem como àquelas pessoas que tenham vindo assistir ao casamento. Estes conselhos destinam-se às pessoas de todas as castas. Na noite do décimo dia, o homem deve começar a falar à jovem esposa com palavras meigas, num local solitário, procurando assim inspirar-lhe confiança. Alguns autores opinam que, para a conquistar, não deve falar-lhe durante três dias, mas os discípulos de Babhravya são de opinião que, se o homem não lhe dirigir a palavra durante esse tempo, a jovem poderá sentir-se desanimada ao vê-lo inerte como uma estátua e que, desiludida, poderá desprezá-lo como a um eunuco. Vatsyayana afirma que o homem deve começar por conquistá-la e inspirar-lhe confiança, abstendo-se no entanto, a princípio, dos prazeres sexuais. As mulheres,precisamente porque são de natureza tema, precisam de prelúdios ternos; por outro lado, quando são violentadas por homens com quem ainda não se sentem muito familiarizadas, começarão a odiar subitamente as relações sexuais e por vezes mesmo o sexo masculino. O homem deverá, por conseguinte, abordar a jovem segundo as preferências dela e adoptar os procedimentos que lhe possibilitem insinuar-se cada vez mais na sua confiança. São os seguintes esses procedimentos:
Deve começar por abraçá-la da forma que ela prefira, já que isso não dura muito tempo.
Deve abraçá-la com a parte superior do corpo, porque isso é mais fácil e natural. Se a jovem já atingiu a maturidade, ou se o homem a conhece há algum tempo, pode abraçá-la à luz de um candeeiro; contudo, se não se sente muito à vontade com ela, ou se ela é muito jovem, deve então abraçá-la às escuras.
Quando a rapariga aceitar o abraço, o homem deve meter-lhe na boca uma tambula, ou uma porção de nozes e folhas de bétel; se ela o recusar, deve convencê-la a fazê-lo com palavras conciliadoras, súplicas e juramentos; finalmente deve ajoelhar-se a seus pés, já que constitui regra universal o facto de uma mulher, por mais acanhada ou zangada que possa estar, nunca deixar de ar atenção ao homem que ajoelhe a seus pés. No momento em que e esta tambula, ele deve beijar-lhe a boca terna e delicadamente, sem emitir nenhum som. Quando ela se mostrar dócil aos seus beijos, ele deve induzi-la a falar; para tanto, deve fazer-lhe perguntas sobre coisas a respeito das quais ele não saiba ou finja não saber nada e que exijam uma resposta lacónica. Se ela se conservar muda, não deve assustá-la; deve, sim, perguntar-lhe a mesma coisa muitas vezes e em tom conciliador. Se ela persistir no seu mutismo, ele deve pedir-lhe insistentemente que lhe responda, porque, como diz Ghotakamukha, «as raparigas ouvem tudo o que os homens lhes dizem, embora eles próprios não digam por vezes uma única palavra». Instigada deste modo, a jovem deve responder com acenos de cabeça; porém, se se tiver alterado com o homem, não deve sequer fazer isso. Quando o homem lhe perguntar se ela o deseja e se gosta dele, ela deve conservar-se silenciosa durante muito tempo; finalmente, instigada a responder, deverá fazê-lo favoravelmente com um aceno de cabeça. Se o homem conhecer a jovem desde antes do casamento, deve conversar com ela por intermédio de uma amiga que se lhe mostre favorável e, sendo da confiança de ambos, mantenha urna conversa entre eles. Nessas ocasiões, a rapariga deve sorrir com a cabeça baixa e, caso a amiga disser mais pela sua parte do que ela desejava que dissesse, deve censurá-la e discutir com ela. A amiga deve dizer, por brincadeira, mesmo o que a rapariga não deseja que ela diga e acrescentar: «Ela disse isso!»; ao que a rapariga replicará em tom precipitado mas cativante: «Oh, não! Eu não disse isso»; e deve então sorrir e lançar uma olhadela ocasional na direcção do homem.
Se a jovem conhecer bem o homem, deve colocar perto dele, sem nada dizer, a tambula, o unguento ou a grinalda que ele possa ter pedido, ou poderá prendê-los à parte superior das suas vestes.
O homem deve, entretanto, tocar os jovens seios da esposa, fazendo sobre eles pressão com as unhas, e, se ela o impedir, deve dizer-lhe: «Não volto a fazê-lo se me abraçares», levando-a deste modo a abraçá-lo. Enquanto ela o abraça, ele deve passar-lhe repetidamente a mão por todo o corpo. Então, suavemente, deve sentá-la no colo e tentar cada vez mais obter o seu consentimento; se ela se lhe entregar, deve assustá-la com as seguintes palavras: «Imprimirei marcas dos meus dentes e unhas nos teus lábios e seios e farei marcas idênticas no meu próprio corpo; direi os meus amigos que foste tu que as fizeste. Que dirás então?» Desta ou de outra maneira, tal como o medo e a confiança se infundem no espírito das crianças, deve o homem submetê-la aos seus desejos.
Na segunda e na terceira noite, depois de a confiança dela ter aumentado ainda mais, ele deve afagar-lhe todo o corpo com as mãos e beijá-la por toda a parte; deve também pôr as mãos sobre as coxas dela e massajá-las e, se for bem sucedido, deve então massajar-lhe a junção das coxas. Se ela tentar impedi-lo, deve indagar-lhe: «Que mal há nisso?», e persuadi-la a deixá-lo continuar. Depois de conseguir este objectivo, ele deve tocar-lhe as partes íntimas, desapertar-lhe o cinto e o laço do vestido e, levantando as suas roupas de baixo, afagar-lhe as junções das coxas desnudadas.
O homem deve fazer todas estas coisas sobre pretextos, mas não deve nessa altura iniciar a união sexual propriamente dita. Deve, a partir desse momento, ensinar-lhe as sessenta e quatro artes, dizer-lhe quanto a ama e descrever-lhe as esperanças que anteriormente alimentava em relação a ela. Deve também prometer-lhe ser fiel no futuro e dissipar todos os seus receios com respeito a mulheres rivais; por fim, depois de ter vencido a sua timidez, deve começar a gozá-la de maneira que não a amedronte. Tal é a forma de inspirar confiança a uma rapariga. Existem, além disso, alguns versículos sobre este tema, que transcrevemos:
«O homem que proceda de acordo com as inclinações da jovem deve procurar conquistá-la para que ela possa amá-lo e depositar nele a sua confiança. O homem não é bem sucedido nem seguindo cegamente a inclinação da jovem, nem opondo-se-lhe completamente; deve, por conseguinte, adoptar um meio-termo. Aquele que sabe fazer-se amar pelas mulheres, assim como contribuir para a sua dignidade e criar confiança nelas, tem assegurado o seu amor. Porém, aquele que não devota a sua atenção à jovem, pensando que ela é demasiado tímida, é desprezado por ela por não compreender o espírito feminino. Além disso, a jovem desfrutada à força por um homem que não compreenda os corações femininos toma-se nervosa, inquieta e abatida e, repentinamente, começa a detestar o homem que se aproveitou dela. Então, como o seu amor não é compreendido nem retribuído, ela desespera e abomina o sexo masculino em geral ou, odiando o seu próprio homem, recorre a outros homens.»

VATSYAYANA
E agora algumas palavras a respeito do autor desta obra, o bom e velho sábio Vatsyayana. Muito há a lamentar que a sua vida se mantenha envolta em completo mistério. No fim da parte VII, ele próprio declara que compôs a obra quando levava a vida de estudante religioso (provavelmente em Benares), inteiramente entregue à contemplação da divindade. Já deveria; portanto, ter atingido uma certa idade por essa altura, uma vez que ao longo de toda a obra ele coloca à nossa disposição os frutos da sua experiência, as suas opiniões, as quais trazem consigo mais um cunho de maturidade do que de juventude. Na verdade, é muito pouco provável que a obra tenha sido escrita por um jovem.
Num belo versículo dos Vedas dos cristãos fala-se dos defuntos, que repousam em paz e cujas obras os julguem. Na realidade, assim é; as obras dos homens de génio seguem-nos e permanecem como um tesouro perene e, embora possa haver controvérsias e discussões acerca da imortalidade do corpo ou da alma, ninguém poderá negar a imortalidade do génio, que permanece como uma brilhante estrela orientadora para a esforçada humanidade de épocas posteriores. Esta obra, que resistiu à provação dos séculos, colocou Vatsyayana entre os imortais e não poderá escrever-se melhor elegia ou elogio sobre Isto e sobre Ele do que os seguintes versos:

“Enquanto os lábios puderem beijar e os olhos ver,
Assim viverá Isto e Isto dar-te-á vida.”

Kama Sutra

Quem chega aos 30 anos sem ter lido o Kama Sutra de Vatsyayana não merece o pão que come!
Mas aqui a coisa complica-se; em geral nas livrarias o que há é textos, ao gosto do público, e vagamente inspirados no Kama Sutra de Vatsyayana.
Para começar o Kama Sutra é um livro de sutras sagrados sobre o Kama (http://en.wikipedia.org/wiki/Kama) por isso não esperem posições sexuais ou imagens de moçoilas de perna aberta. O Kama Sutra não tem imagens nem posições sexuais (*)!, se o vosso tinha dessas maxmanzices/mulhermodernices, lixo com ele!
Por puro deleite intelectual aqui ficam algumas passagens que me surpreendem, incomodam, comovem ou deliciam, começo pela introdução.

INTRODUÇÃO:
Na literatura de todos os países encontrar-se-ão um certo número de obras que versam especialmente sobre o amor. Em todas elas, este tema é analisado de maneira diferente e de diversos pontos de Vista. A presente obra tem como propósito dar uma tradução completa daquela que é considerada a obra-padrão sobre o amor na literatura sanscrítica e que tem por título Vatsyayana Kama Sutra, ou Aforismos sobre o Amor, de Vatsyayana.
A introdução apresentará os dados relativos à data em que a obra foi escrita e incluirá os comentários que lhe dizem respeito; os capítulos seguintes incluirão uma tradução da própria obra. Toma-se, contudo, conveniente fazer aqui uma breve análise de outras obras do mesmo género, compostas por autores que viveram e escreveram anos depois do desaparecimento de Vatsyayana, mas que o consideravam ainda a grande autoridade e sempre o citaram como o principal guia para a literatura erótica hindu.
Além do tratado de Vatsyayana, são as seguintes as obras sobre o mesmo tema que ainda se podem encontrar actualmente na Índia:
Ratirahasya, ou Segredos do Amor;
Panchasakya, ou As Cinco Setas;
Smara Pradipa, ou A luz, do Amor;
Ratimanjari, ou A Grinâldado Amor:
Rasnanjari; ou o Rebento do Amor;
Anulga Runga, ou o Palco do Amor, também chamada Kamaledhiplava, ou Um Barco no Oceano do Amor.

NÃO SE DEVERÃO DESFRUTAR AS SEGUINTES MULHERES:
As leprosas;
As dementes;
As mulheres que foram expulsas da sua casta;
As mulheres que revelam segredos;
As mulheres que expressam publicamente desejo de ter relações sexuais;
As mulheres extremamente brancas;
As mulheres extremamente escuras;
As mulheres que cheiram mal;
As mulheres que sejam parentes próximas;
As mulheres com quem se tenham laços de amizade;
As mulheres que vivam asceticamente;
Finalmente, as esposas de um parente, de um amigo, de um brâmane erudito ou do rei.

Os discípulos de Babhravya dizem que toda a mulher que tenha sido gozada por cinco homens pode ser justa e adequadamente desfrutada por outros. Todavia, Gonikaputra é de opinião que, mesmo neste caso, deverão exceptuar-se as mulheres de um parente, de um brâmane erudito ou de um rei.



DO MODO DE INICIAR E ACABAR A UNIÃO SEXUAL.
DIFERENTES TIPOS DE UNIÃO SEXUAL
E DE DISPUTAS AMOROSAS
Na sala do prazer, decorada com flores e aromatizada com fragrâncias, o cidadão, na companhia dos seus amigos e criados, receberá a mulher, que se apresentará adequadamente vestida e ainda fresca do banho, e convidá-la-á a descansar e a beber livremente. Fá-la-á sentar-se à sua esquerda e, tomando-lhe os cabelos e tocando-lhe também a extremidade e o laço do vestido, abraçá-la-á delicadamente com o braço direito. Ambos entabularão seguidamente uma conversa agradável sobre vários tópicos, podendo também conversar dissimuladamente acerca de coisas consideradas grosseiras ou que não deveriam, em princípio, ser mencionadas em sociedade. Poderão ainda cantar, com ou sem gestos, tocar instrumentos musicais, conversar sobre as artes e instigar-se mutuamente a beber. Finalmente, quando a mulher já não puder reter por mais tempo o seu amor e o seu desejo, o cidadão despedirá as pessoas que possam estar com ele, dando-lhes flores, unguentos e folhas de bétel; então, quando os dois ficarem sós; deverão proceder conforme o exposto nos capítulos precedentes.
Tal é o começo da união sexual. No fim da união, os amantes, com pudor e sem olharem um para o outro, deverão ir separadamente à sala de banho. Seguidamente, sentados nos lugares que ocupavam, deverão comer algumas folhas de bétel, e o cidadão, com a sua própria mão, aplicará no corpo da mulher um unguento puro de sândalo onde qualquer outra espécie. Ele enlaçá-la-á então com abraço esquerdo e, com palavras agradáveis, deve dar-lhe de beber de uma taça que segura na sua própria mão; ou poderá oferecer-lhe simplesmente água. Poderão depois comer doçarias ou qualquer outra coisa, de acordo com os seus gostos e beber sumos frescos, sopa, tisana, extractos de carne, sorvetes, sumo de manga, sumo de cidra açucarado ou qualquer coisa que seja apreciada nas diferentes regiões e conhecida por ser doce, agradável e pura. Os amantes podem também sentar-se no terraço do palácio ou da casa e apreciar o luar, entabulando uma conversa agradável. Nesta altura, enquanto a mulher se reclina no seu colo, com o rosto , virado para a Lua, o cidadão deve mostrar-lhe os diferentes planetas, a estrela de alva, a Estrela Polar e as sete Rishis, ou Ursa Maior.
Assim termina a união sexual.

São os seguintes os tipos de união sexual:
União de amor;
União de amor subsequente;
União de amor artificial;
União de amor transferido;
União à semelhança dos eunucos;
União enganosa;
União de amor espontâneo,

Quando um homem e uma mulher que se amam há algum tempo conseguem estar juntos, apesar de grandes dificuldades, ou quando um deles regressa de uma viagem, ou se reconciliam depois de uma desavença, então a união chama-se a união de amor. Os dois amantes praticam-na segundo os ditames da fantasia e durante o tempo que lhes aprouver.
Quando duas pessoas se unem enquanto o seu amor está ainda na infância, a esta união dá-se o nome de união de amor subsequente.
Quando O homem se entrega ao acto sexual excitando-se por meio das sessenta e quatro formas possíveis, como o beijo; etc., ou quando um homem e uma mulher praticam o acto carnal, conquanto na realidade estejam vinculados a pessoas diferentes, dá-se a união de amor artificial. Devem utilizar-se neste caso todos os procedimentos e meios mencionados na Kama Sutra.
Quando o homem, do principio ao fim da união carnal com uma mulher, não deixe de pensar que está gozando uma outra a quem realmente ama chama-se união de amor transferido.
A união sexual entre um homem e uma aguadeira ou uma criada de casta inferior à sua que dure até à satisfação do desejo denomina-se união à semelhança dos eunucos. Não deverão empregar-se nestas circunstâncias as carícias, os beijos e a manipulação.
A união sexual entre uma cortesã e um camponês, ou entre cidadãos e mulheres das aldeias ou de regiões limítrofes, dá-se o nome de união enganosa.
Ao acto sexual praticado por duas pessoas que se sentem mutuamente atraídas e de acordo com os seus próprios gostos chama-se união espontânea.
Assim terminam os tipos de união sexual.

Falemos agora das disputas de amor.
A mulher que ame apaixonadamente um homem não suporta que pronunciem na sua presença o nome da rival, que tenham uma conversa a seu respeito, ou ainda chamem pelo nome daquela. Se tal acontece, desencadeia-se uma grande desavença; a mulher solta gritos, encoleriza-se, desgrenha-se, bate no amante, deixa-se cair da cama ou do assento e, lançando por terra as suas grinaldas e ornamentos, jorra-se ao chão.
Nesta altura, o amante tentará aplacá-la com palavras conciliatórias, levantá-la com delicadeza e pô-la na cama. Mas ela, ignorando as perguntas dele e dominada por uma ira crescente, curvar-lhe-á a cabeça, puxando-lhe o cabelo, e, depois de lhe ter dado pontapés repetidos nos braços, na cabeça, no peito ou nas costas, dirigir-se-á para a porta do aposento. Dattaka afirma que ela deve então sentar-se com ar colérico junto da porta e derramar lágrimas; não deverá, porém, sair para não prevaricar ela própria. Algum tempo depois, quando considerar que o amante mais não pode dizer ou fazer para a conciliar, deve então abraçá-lo, falando-lhe com palavras severas e recriminatórias; mas, deixando ao mesmo tempo transparecer um vivo desejo de ter relações sexuais com, ele.
Quando a mulher se encontra na sua própria casa e discutiu com o amante, deverá procurá-lo, mostrar-lhe toda a sua cólera e deixá-lo. Depois de o cidadão haver enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a apaziguar, ela deverá acompanhá-los de volta a casa e passar a noite com o ,amante.
Assim terminam as querelas de amor.

DA CONFIANÇA A INSPIRAR À JOVEM:
Durante os primeiros três dias a seguir ao casamento, marido e mulher devem dormir no chão, abster-se de prazeres sexuais e comer os seus alimentos sem os temperar, seja com álcali, seja com sal. Durante os sete dias seguintes, devem banhar-se ao som harmonioso de instrumentos musicais, adornar-se, jantar juntos e dar atenção aos seus parentes, bem como àquelas pessoas que tenham vindo assistir ao casamento. Estes conselhos destinam-se às pessoas de todas as castas. Na noite do décimo dia, o homem deve começar a falar à jovem esposa com palavras meigas, num local solitário, procurando assim inspirar-lhe confiança. Alguns autores opinam que, para a conquistar, não deve falar-lhe durante três dias, mas os discípulos de Babhravya são de opinião que, se o homem não lhe dirigir a palavra durante esse tempo, a jovem poderá sentir-se desanimada ao vê-lo inerte como uma estátua e que, desiludida, poderá desprezá-lo como a um eunuco. Vatsyayana afirma que o homem deve começar por conquistá-la e inspirar-lhe confiança, abstendo-se no entanto, a princípio, dos prazeres sexuais. As mulheres,precisamente porque são de natureza tema, precisam de prelúdios ternos; por outro lado, quando são violentadas por homens com quem ainda não se sentem muito familiarizadas, começarão a odiar subitamente as relações sexuais e por vezes mesmo o sexo masculino. O homem deverá, por conseguinte, abordar a jovem segundo as preferências dela e adoptar os procedimentos que lhe possibilitem insinuar-se cada vez mais na sua confiança. São os seguintes esses procedimentos:
Deve começar por abraçá-la da forma que ela prefira, já que isso não dura muito tempo.
Deve abraçá-la com a parte superior do corpo, porque isso é mais fácil e natural. Se a jovem já atingiu a maturidade, ou se o homem a conhece há algum tempo, pode abraçá-la à luz de um candeeiro; contudo, se não se sente muito à vontade com ela, ou se ela é muito jovem, deve então abraçá-la às escuras.
Quando a rapariga aceitar o abraço, o homem deve meter-lhe na boca uma tambula, ou uma porção de nozes e folhas de bétel; se ela o recusar, deve convencê-la a fazê-lo com palavras conciliadoras, súplicas e juramentos; finalmente deve ajoelhar-se a seus pés, já que constitui regra universal o facto de uma mulher, por mais acanhada ou zangada que possa estar, nunca deixar de ar atenção ao homem que ajoelhe a seus pés. No momento em que e esta tambula, ele deve beijar-lhe a boca terna e delicadamente, sem emitir nenhum som. Quando ela se mostrar dócil aos seus beijos, ele deve induzi-la a falar; para tanto, deve fazer-lhe perguntas sobre coisas a respeito das quais ele não saiba ou finja não saber nada e que exijam uma resposta lacónica. Se ela se conservar muda, não deve assustá-la; deve, sim, perguntar-lhe a mesma coisa muitas vezes e em tom conciliador. Se ela persistir no seu mutismo, ele deve pedir-lhe insistentemente que lhe responda, porque, como diz Ghotakamukha, «as raparigas ouvem tudo o que os homens lhes dizem, embora eles próprios não digam por vezes uma única palavra». Instigada deste modo, a jovem deve responder com acenos de cabeça; porém, se se tiver alterado com o homem, não deve sequer fazer isso. Quando o homem lhe perguntar se ela o deseja e se gosta dele, ela deve conservar-se silenciosa durante muito tempo; finalmente, instigada a responder, deverá fazê-lo favoravelmente com um aceno de cabeça. Se o homem conhecer a jovem desde antes do casamento, deve conversar com ela por intermédio de uma amiga que se lhe mostre favorável e, sendo da confiança de ambos, mantenha urna conversa entre eles. Nessas ocasiões, a rapariga deve sorrir com a cabeça baixa e, caso a amiga disser mais pela sua parte do que ela desejava que dissesse, deve censurá-la e discutir com ela. A amiga deve dizer, por brincadeira, mesmo o que a rapariga não deseja que ela diga e acrescentar: «Ela disse isso!»; ao que a rapariga replicará em tom precipitado mas cativante: «Oh, não! Eu não disse isso»; e deve então sorrir e lançar uma olhadela ocasional na direcção do homem.
Se a jovem conhecer bem o homem, deve colocar perto dele, sem nada dizer, a tambula, o unguento ou a grinalda que ele possa ter pedido, ou poderá prendê-los à parte superior das suas vestes.
O homem deve, entretanto, tocar os jovens seios da esposa, fazendo sobre eles pressão com as unhas, e, se ela o impedir, deve dizer-lhe: «Não volto a fazê-lo se me abraçares», levando-a deste modo a abraçá-lo. Enquanto ela o abraça, ele deve passar-lhe repetidamente a mão por todo o corpo. Então, suavemente, deve sentá-la no colo e tentar cada vez mais obter o seu consentimento; se ela se lhe entregar, deve assustá-la com as seguintes palavras: «Imprimirei marcas dos meus dentes e unhas nos teus lábios e seios e farei marcas idênticas no meu próprio corpo; direi os meus amigos que foste tu que as fizeste. Que dirás então?» Desta ou de outra maneira, tal como o medo e a confiança se infundem no espírito das crianças, deve o homem submetê-la aos seus desejos.
Na segunda e na terceira noite, depois de a confiança dela ter aumentado ainda mais, ele deve afagar-lhe todo o corpo com as mãos e beijá-la por toda a parte; deve também pôr as mãos sobre as coxas dela e massajá-las e, se for bem sucedido, deve então massajar-lhe a junção das coxas. Se ela tentar impedi-lo, deve indagar-lhe: «Que mal há nisso?», e persuadi-la a deixá-lo continuar. Depois de conseguir este objectivo, ele deve tocar-lhe as partes íntimas, desapertar-lhe o cinto e o laço do vestido e, levantando as suas roupas de baixo, afagar-lhe as junções das coxas desnudadas.
O homem deve fazer todas estas coisas sobre pretextos, mas não deve nessa altura iniciar a união sexual propriamente dita. Deve, a partir desse momento, ensinar-lhe as sessenta e quatro artes, dizer-lhe quanto a ama e descrever-lhe as esperanças que anteriormente alimentava em relação a ela. Deve também prometer-lhe ser fiel no futuro e dissipar todos os seus receios com respeito a mulheres rivais; por fim, depois de ter vencido a sua timidez, deve começar a gozá-la de maneira que não a amedronte. Tal é a forma de inspirar confiança a uma rapariga. Existem, além disso, alguns versículos sobre este tema, que transcrevemos:
«O homem que proceda de acordo com as inclinações da jovem deve procurar conquistá-la para que ela possa amá-lo e depositar nele a sua confiança. O homem não é bem sucedido nem seguindo cegamente a inclinação da jovem, nem opondo-se-lhe completamente; deve, por conseguinte, adoptar um meio-termo. Aquele que sabe fazer-se amar pelas mulheres, assim como contribuir para a sua dignidade e criar confiança nelas, tem assegurado o seu amor. Porém, aquele que não devota a sua atenção à jovem, pensando que ela é demasiado tímida, é desprezado por ela por não compreender o espírito feminino. Além disso, a jovem desfrutada à força por um homem que não compreenda os corações femininos toma-se nervosa, inquieta e abatida e, repentinamente, começa a detestar o homem que se aproveitou dela. Então, como o seu amor não é compreendido nem retribuído, ela desespera e abomina o sexo masculino em geral ou, odiando o seu próprio homem, recorre a outros homens.»

VATSYAYANA
E agora algumas palavras a respeito do autor desta obra, o bom e velho sábio Vatsyayana. Muito há a lamentar que a sua vida se mantenha envolta em completo mistério. No fim da parte VII, ele próprio declara que compôs a obra quando levava a vida de estudante religioso (provavelmente em Benares), inteiramente entregue à contemplação da divindade. Já deveria; portanto, ter atingido uma certa idade por essa altura, uma vez que ao longo de toda a obra ele coloca à nossa disposição os frutos da sua experiência, as suas opiniões, as quais trazem consigo mais um cunho de maturidade do que de juventude. Na verdade, é muito pouco provável que a obra tenha sido escrita por um jovem.
Num belo versículo dos Vedas dos cristãos fala-se dos defuntos, que repousam em paz e cujas obras os julguem. Na realidade, assim é; as obras dos homens de génio seguem-nos e permanecem como um tesouro perene e, embora possa haver controvérsias e discussões acerca da imortalidade do corpo ou da alma, ninguém poderá negar a imortalidade do génio, que permanece como uma brilhante estrela orientadora para a esforçada humanidade de épocas posteriores. Esta obra, que resistiu à provação dos séculos, colocou Vatsyayana entre os imortais e não poderá escrever-se melhor elegia ou elogio sobre Isto e sobre Ele do que os seguintes versos:

“Enquanto os lábios puderem beijar e os olhos ver,
Assim viverá Isto e Isto dar-te-á vida.”

Kama Sutra

Quem chega aos 30 anos sem ter lido o Kama Sutra de Vatsyayana não merece o pão que come!
Mas aqui a coisa complica-se; em geral nas livrarias o que há é textos, ao gosto do público, e vagamente inspirados no Kama Sutra de Vatsyayana.
Para começar o Kama Sutra é um livro de sutras sagrados sobre o Kama (http://en.wikipedia.org/wiki/Kama) por isso não esperem posições sexuais ou imagens de moçoilas de perna aberta. O Kama Sutra não tem imagens nem posições sexuais (*)!, se o vosso tinha dessas maxmanzices/mulhermodernices, lixo com ele!
Por puro deleite intelectual aqui ficam algumas passagens que me surpreendem, incomodam, comovem ou deliciam, começo pela introdução.


INTRODUÇÃO:
Na literatura de todos os países encontrar-se-ão um certo número de obras que versam especialmente sobre o amor. Em todas elas, este tema é analisado de maneira diferente e de diversos pontos de Vista. A presente obra tem como propósito dar uma tradução completa daquela que é considerada a obra-padrão sobre o amor na literatura sanscrítica e que tem por título Vatsyayana Kama Sutra, ou Aforismos sobre o Amor, de Vatsyayana.
A introdução apresentará os dados relativos à data em que a obra foi escrita e incluirá os comentários que lhe dizem respeito; os capítulos seguintes incluirão uma tradução da própria obra. Toma-se, contudo, conveniente fazer aqui uma breve análise de outras obras do mesmo género, compostas por autores que viveram e escreveram anos depois do desaparecimento de Vatsyayana, mas que o consideravam ainda a grande autoridade e sempre o citaram como o principal guia para a literatura erótica hindu.
Além do tratado de Vatsyayana, são as seguintes as obras sobre o mesmo tema que ainda se podem encontrar actualmente na Índia:
Ratirahasya, ou Segredos do Amor;
Panchasakya, ou As Cinco Setas;
Smara Pradipa, ou A luz, do Amor;
Ratimanjari, ou A Grinâldado Amor:
Rasnanjari; ou o Rebento do Amor;
Anulga Runga, ou o Palco do Amor, também chamada Kamaledhiplava, ou Um Barco no Oceano do Amor.

NÃO SE DEVERÃO DESFRUTAR AS SEGUINTES MULHERES:
As leprosas;
As dementes;
As mulheres que foram expulsas da sua casta;
As mulheres que revelam segredos;
As mulheres que expressam publicamente desejo de ter relações sexuais;
As mulheres extremamente brancas;
As mulheres extremamente escuras;
As mulheres que cheiram mal;
As mulheres que sejam parentes próximas;
As mulheres com quem se tenham laços de amizade;
As mulheres que vivam asceticamente;
Finalmente, as esposas de um parente, de um amigo, de um brâmane erudito ou do rei.

Os discípulos de Babhravya dizem que toda a mulher que tenha sido gozada por cinco homens pode ser justa e adequadamente desfrutada por outros. Todavia, Gonikaputra é de opinião que, mesmo neste caso, deverão exceptuar-se as mulheres de um parente, de um brâmane erudito ou de um rei.


DO MODO DE INICIAR E ACABAR A UNIÃO SEXUAL.
DIFERENTES TIPOS DE UNIÃO SEXUAL
E DE DISPUTAS AMOROSAS
Na sala do prazer, decorada com flores e aromatizada com fragrâncias, o cidadão, na companhia dos seus amigos e criados, receberá a mulher, que se apresentará adequadamente vestida e ainda fresca do banho, e convidá-la-á a descansar e a beber livremente. Fá-la-á sentar-se à sua esquerda e, tomando-lhe os cabelos e tocando-lhe também a extremidade e o laço do vestido, abraçá-la-á delicadamente com o braço direito. Ambos entabularão seguidamente uma conversa agradável sobre vários tópicos, podendo também conversar dissimuladamente acerca de coisas consideradas grosseiras ou que não deveriam, em princípio, ser mencionadas em sociedade. Poderão ainda cantar, com ou sem gestos, tocar instrumentos musicais, conversar sobre as artes e instigar-se mutuamente a beber. Finalmente, quando a mulher já não puder reter por mais tempo o seu amor e o seu desejo, o cidadão despedirá as pessoas que possam estar com ele, dando-lhes flores, unguentos e folhas de bétel; então, quando os dois ficarem sós; deverão proceder conforme o exposto nos capítulos precedentes.
Tal é o começo da união sexual. No fim da união, os amantes, com pudor e sem olharem um para o outro, deverão ir separadamente à sala de banho. Seguidamente, sentados nos lugares que ocupavam, deverão comer algumas folhas de bétel, e o cidadão, com a sua própria mão, aplicará no corpo da mulher um unguento puro de sândalo onde qualquer outra espécie. Ele enlaçá-la-á então com abraço esquerdo e, com palavras agradáveis, deve dar-lhe de beber de uma taça que segura na sua própria mão; ou poderá oferecer-lhe simplesmente água. Poderão depois comer doçarias ou qualquer outra coisa, de acordo com os seus gostos e beber sumos frescos, sopa, tisana, extractos de carne, sorvetes, sumo de manga, sumo de cidra açucarado ou qualquer coisa que seja apreciada nas diferentes regiões e conhecida por ser doce, agradável e pura. Os amantes podem também sentar-se no terraço do palácio ou da casa e apreciar o luar, entabulando uma conversa agradável. Nesta altura, enquanto a mulher se reclina no seu colo, com o rosto , virado para a Lua, o cidadão deve mostrar-lhe os diferentes planetas, a estrela de alva, a Estrela Polar e as sete Rishis, ou Ursa Maior.
Assim termina a união sexual.

São os seguintes os tipos de união sexual:
União de amor;
União de amor subsequente;
União de amor artificial;
União de amor transferido;
União à semelhança dos eunucos;
União enganosa;
União de amor espontâneo,

Quando um homem e uma mulher que se amam há algum tempo conseguem estar juntos, apesar de grandes dificuldades, ou quando um deles regressa de uma viagem, ou se reconciliam depois de uma desavença, então a união chama-se a união de amor. Os dois amantes praticam-na segundo os ditames da fantasia e durante o tempo que lhes aprouver.
Quando duas pessoas se unem enquanto o seu amor está ainda na infância, a esta união dá-se o nome de união de amor subsequente.
Quando O homem se entrega ao acto sexual excitando-se por meio das sessenta e quatro formas possíveis, como o beijo; etc., ou quando um homem e uma mulher praticam o acto carnal, conquanto na realidade estejam vinculados a pessoas diferentes, dá-se a união de amor artificial. Devem utilizar-se neste caso todos os procedimentos e meios mencionados na Kama Sutra.
Quando o homem, do principio ao fim da união carnal com uma mulher, não deixe de pensar que está gozando uma outra a quem realmente ama chama-se união de amor transferido.
A união sexual entre um homem e uma aguadeira ou uma criada de casta inferior à sua que dure até à satisfação do desejo denomina-se união à semelhança dos eunucos. Não deverão empregar-se nestas circunstâncias as carícias, os beijos e a manipulação.
A união sexual entre uma cortesã e um camponês, ou entre cidadãos e mulheres das aldeias ou de regiões limítrofes, dá-se o nome de união enganosa.
Ao acto sexual praticado por duas pessoas que se sentem mutuamente atraídas e de acordo com os seus próprios gostos chama-se união espontânea.
Assim terminam os tipos de união sexual.

Falemos agora das disputas de amor.
A mulher que ame apaixonadamente um homem não suporta que pronunciem na sua presença o nome da rival, que tenham uma conversa a seu respeito, ou ainda chamem pelo nome daquela. Se tal acontece, desencadeia-se uma grande desavença; a mulher solta gritos, encoleriza-se, desgrenha-se, bate no amante, deixa-se cair da cama ou do assento e, lançando por terra as suas grinaldas e ornamentos, jorra-se ao chão.
Nesta altura, o amante tentará aplacá-la com palavras conciliatórias, levantá-la com delicadeza e pô-la na cama. Mas ela, ignorando as perguntas dele e dominada por uma ira crescente, curvar-lhe-á a cabeça, puxando-lhe o cabelo, e, depois de lhe ter dado pontapés repetidos nos braços, na cabeça, no peito ou nas costas, dirigir-se-á para a porta do aposento. Dattaka afirma que ela deve então sentar-se com ar colérico junto da porta e derramar lágrimas; não deverá, porém, sair para não prevaricar ela própria. Algum tempo depois, quando considerar que o amante mais não pode dizer ou fazer para a conciliar, deve então abraçá-lo, falando-lhe com palavras severas e recriminatórias; mas, deixando ao mesmo tempo transparecer um vivo desejo de ter relações sexuais com, ele.
Quando a mulher se encontra na sua própria casa e discutiu com o amante, deverá procurá-lo, mostrar-lhe toda a sua cólera e deixá-lo. Depois de o cidadão haver enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a apaziguar, ela deverá acompanhá-los de volta a casa e passar a noite com o ,amante.
Assim terminam as querelas de amor.

DA CONFIANÇA A INSPIRAR À JOVEM:
Durante os primeiros três dias a seguir ao casamento, marido e mulher devem dormir no chão, abster-se de prazeres sexuais e comer os seus alimentos sem os temperar, seja com álcali, seja com sal. Durante os sete dias seguintes, devem banhar-se ao som harmonioso de instrumentos musicais, adornar-se, jantar juntos e dar atenção aos seus parentes, bem como àquelas pessoas que tenham vindo assistir ao casamento. Estes conselhos destinam-se às pessoas de todas as castas. Na noite do décimo dia, o homem deve começar a falar à jovem esposa com palavras meigas, num local solitário, procurando assim inspirar-lhe confiança. Alguns autores opinam que, para a conquistar, não deve falar-lhe durante três dias, mas os discípulos de Babhravya são de opinião que, se o homem não lhe dirigir a palavra durante esse tempo, a jovem poderá sentir-se desanimada ao vê-lo inerte como uma estátua e que, desiludida, poderá desprezá-lo como a um eunuco. Vatsyayana afirma que o homem deve começar por conquistá-la e inspirar-lhe confiança, abstendo-se no entanto, a princípio, dos prazeres sexuais. As mulheres,precisamente porque são de natureza tema, precisam de prelúdios ternos; por outro lado, quando são violentadas por homens com quem ainda não se sentem muito familiarizadas, começarão a odiar subitamente as relações sexuais e por vezes mesmo o sexo masculino. O homem deverá, por conseguinte, abordar a jovem segundo as preferências dela e adoptar os procedimentos que lhe possibilitem insinuar-se cada vez mais na sua confiança. São os seguintes esses procedimentos:
Deve começar por abraçá-la da forma que ela prefira, já que isso não dura muito tempo.
Deve abraçá-la com a parte superior do corpo, porque isso é mais fácil e natural. Se a jovem já atingiu a maturidade, ou se o homem a conhece há algum tempo, pode abraçá-la à luz de um candeeiro; contudo, se não se sente muito à vontade com ela, ou se ela é muito jovem, deve então abraçá-la às escuras.
Quando a rapariga aceitar o abraço, o homem deve meter-lhe na boca uma tambula, ou uma porção de nozes e folhas de bétel; se ela o recusar, deve convencê-la a fazê-lo com palavras conciliadoras, súplicas e juramentos; finalmente deve ajoelhar-se a seus pés, já que constitui regra universal o facto de uma mulher, por mais acanhada ou zangada que possa estar, nunca deixar de ar atenção ao homem que ajoelhe a seus pés. No momento em que e esta tambula, ele deve beijar-lhe a boca terna e delicadamente, sem emitir nenhum som. Quando ela se mostrar dócil aos seus beijos, ele deve induzi-la a falar; para tanto, deve fazer-lhe perguntas sobre coisas a respeito das quais ele não saiba ou finja não saber nada e que exijam uma resposta lacónica. Se ela se conservar muda, não deve assustá-la; deve, sim, perguntar-lhe a mesma coisa muitas vezes e em tom conciliador. Se ela persistir no seu mutismo, ele deve pedir-lhe insistentemente que lhe responda, porque, como diz Ghotakamukha, «as raparigas ouvem tudo o que os homens lhes dizem, embora eles próprios não digam por vezes uma única palavra». Instigada deste modo, a jovem deve responder com acenos de cabeça; porém, se se tiver alterado com o homem, não deve sequer fazer isso. Quando o homem lhe perguntar se ela o deseja e se gosta dele, ela deve conservar-se silenciosa durante muito tempo; finalmente, instigada a responder, deverá fazê-lo favoravelmente com um aceno de cabeça. Se o homem conhecer a jovem desde antes do casamento, deve conversar com ela por intermédio de uma amiga que se lhe mostre favorável e, sendo da confiança de ambos, mantenha urna conversa entre eles. Nessas ocasiões, a rapariga deve sorrir com a cabeça baixa e, caso a amiga disser mais pela sua parte do que ela desejava que dissesse, deve censurá-la e discutir com ela. A amiga deve dizer, por brincadeira, mesmo o que a rapariga não deseja que ela diga e acrescentar: «Ela disse isso!»; ao que a rapariga replicará em tom precipitado mas cativante: «Oh, não! Eu não disse isso»; e deve então sorrir e lançar uma olhadela ocasional na direcção do homem.
Se a jovem conhecer bem o homem, deve colocar perto dele, sem nada dizer, a tambula, o unguento ou a grinalda que ele possa ter pedido, ou poderá prendê-los à parte superior das suas vestes.
O homem deve, entretanto, tocar os jovens seios da esposa, fazendo sobre eles pressão com as unhas, e, se ela o impedir, deve dizer-lhe: «Não volto a fazê-lo se me abraçares», levando-a deste modo a abraçá-lo. Enquanto ela o abraça, ele deve passar-lhe repetidamente a mão por todo o corpo. Então, suavemente, deve sentá-la no colo e tentar cada vez mais obter o seu consentimento; se ela se lhe entregar, deve assustá-la com as seguintes palavras: «Imprimirei marcas dos meus dentes e unhas nos teus lábios e seios e farei marcas idênticas no meu próprio corpo; direi os meus amigos que foste tu que as fizeste. Que dirás então?» Desta ou de outra maneira, tal como o medo e a confiança se infundem no espírito das crianças, deve o homem submetê-la aos seus desejos.
Na segunda e na terceira noite, depois de a confiança dela ter aumentado ainda mais, ele deve afagar-lhe todo o corpo com as mãos e beijá-la por toda a parte; deve também pôr as mãos sobre as coxas dela e massajá-las e, se for bem sucedido, deve então massajar-lhe a junção das coxas. Se ela tentar impedi-lo, deve indagar-lhe: «Que mal há nisso?», e persuadi-la a deixá-lo continuar. Depois de conseguir este objectivo, ele deve tocar-lhe as partes íntimas, desapertar-lhe o cinto e o laço do vestido e, levantando as suas roupas de baixo, afagar-lhe as junções das coxas desnudadas.
O homem deve fazer todas estas coisas sobre pretextos, mas não deve nessa altura iniciar a união sexual propriamente dita. Deve, a partir desse momento, ensinar-lhe as sessenta e quatro artes, dizer-lhe quanto a ama e descrever-lhe as esperanças que anteriormente alimentava em relação a ela. Deve também prometer-lhe ser fiel no futuro e dissipar todos os seus receios com respeito a mulheres rivais; por fim, depois de ter vencido a sua timidez, deve começar a gozá-la de maneira que não a amedronte. Tal é a forma de inspirar confiança a uma rapariga. Existem, além disso, alguns versículos sobre este tema, que transcrevemos:
«O homem que proceda de acordo com as inclinações da jovem deve procurar conquistá-la para que ela possa amá-lo e depositar nele a sua confiança. O homem não é bem sucedido nem seguindo cegamente a inclinação da jovem, nem opondo-se-lhe completamente; deve, por conseguinte, adoptar um meio-termo. Aquele que sabe fazer-se amar pelas mulheres, assim como contribuir para a sua dignidade e criar confiança nelas, tem assegurado o seu amor. Porém, aquele que não devota a sua atenção à jovem, pensando que ela é demasiado tímida, é desprezado por ela por não compreender o espírito feminino. Além disso, a jovem desfrutada à força por um homem que não compreenda os corações femininos toma-se nervosa, inquieta e abatida e, repentinamente, começa a detestar o homem que se aproveitou dela. Então, como o seu amor não é compreendido nem retribuído, ela desespera e abomina o sexo masculino em geral ou, odiando o seu próprio homem, recorre a outros homens.»

VATSYAYANA
E agora algumas palavras a respeito do autor desta obra, o bom e velho sábio Vatsyayana. Muito há a lamentar que a sua vida se mantenha envolta em completo mistério. No fim da parte VII, ele próprio declara que compôs a obra quando levava a vida de estudante religioso (provavelmente em Benares), inteiramente entregue à contemplação da divindade. Já deveria; portanto, ter atingido uma certa idade por essa altura, uma vez que ao longo de toda a obra ele coloca à nossa disposição os frutos da sua experiência, as suas opiniões, as quais trazem consigo mais um cunho de maturidade do que de juventude. Na verdade, é muito pouco provável que a obra tenha sido escrita por um jovem.
Num belo versículo dos Vedas dos cristãos fala-se dos defuntos, que repousam em paz e cujas obras os julguem. Na realidade, assim é; as obras dos homens de génio seguem-nos e permanecem como um tesouro perene e, embora possa haver controvérsias e discussões acerca da imortalidade do corpo ou da alma, ninguém poderá negar a imortalidade do génio, que permanece como uma brilhante estrela orientadora para a esforçada humanidade de épocas posteriores. Esta obra, que resistiu à provação dos séculos, colocou Vatsyayana entre os imortais e não poderá escrever-se melhor elegia ou elogio sobre Isto e sobre Ele do que os seguintes versos:

“Enquanto os lábios puderem beijar e os olhos ver,
Assim viverá Isto e Isto dar-te-á vida.”

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ser homem é

no principio a vida era andrógina, o tempo era andrógino. é ao andrógino que nos dirigimos novamente, apressadamente. a que preço?
um homem é já uma miragem na geração pós-adolescente dos nossos filhos; um perfume de macho que se sente ainda aqui e ali na brisa que passa.
ser homem é uma invenção da natureza, antiga, herdeira da criação dos sexos, da reprodução. uma fórmula de sucesso repetida e reinventada até à exaustão do nosso tempo.
os nossos pais homens ensinaram-nos pela imitação um ser agressivo, machista, terno, canalha, auto-destructivo, suado, lavado, irónico e trocista; um ser homem que já não pudemos ser e muito menos ensinar a ser, no seu lugar construímos uma nova masculinidade insegura e bipolar.
Elizabeth Badinter escrevia em “XY: Sobre a identidade masculina” que compete às mulheres ensinar aos seus filhos o novo masculino, assim será. os homens são incapazes de o fazer.
mas, amáveis construtoras, sabeis o que é um homem?
se tendes de construir um homem é bom que tenhais uma imagem ou um esboço de homem. algo que vos guie na escolha da peça certa entre o amontoado de peças de puzzle aos vossos pés (elas são o vosso bebé homem, o vosso amigo adolescente). construireis o que quiserdes. às vossas avós tocou moldar os vossos avôs a vós toca todo o processo de construção. que homem quereis construir, uma marioneta ou um ser para admirar e amar?
...
ser homem é ser a dualidade construtora e construída de uma mulher. é ser a entidade identitária do ser mulher, é ser o macho necessário à invenção da fêmea.
sem o masculino o feminino será também o cadáver de um tempo passado oculto na poeira cósmica… uma imagem da beleza perdida, uma saudade, um pôr-do-sol sem ninguém que lhe aprecie a beleza.
ser homem é saber ser uma porta. a porta que dá para a alteridade criadora do verdadeiro enamoramento. ninguém se entrega perdidamente a um andrógino. ninguém se suicidará por amor como fez Jeanne Hébuterne horas depois da morte do seu amado Amadeo Clemente Modigliani. ser homem é ser chama que queima.
ser homem é ser o sobressalto necessário na inércia infantil de uma rapariga, fogo que apaga o fogo de uma jovem mulher e a fogueira que reacende a chama da mulher madura. ser homem é desejar apesar de tudo, é desejar antes de ser desejado.
ser homem é não temer a morte quando se morre.
ser homem é dar presta sepultura ao desejo do nada.
ser homem é ousar desrespeitar. é conspurcar com sémen um vestido, uma pele, uma boca ou um sexo.
ser homem é saber roubar o que se não pode pedir. é exigir. é desbaratar os exércitos alinhados pela moral, pela cordura, pela racionalidade, pelo medo e pela auto-censura de uma mulher.
ser homem é ser a ponte para os corpos suados, cansados, pós-orgásticos. é ser autor daqueles minutos em que as pernas se recusam a obedecer à ordem do cérebro para erguer-se do lugar da posse possuída. e esses minutos podem ser os últimos de verdadeira paz, de verdadeira ausência de sofrimento, na vida de uma mulher.
ser homem é despertar a puta que há em todas as mulheres.
ser homem é despertar, pelo ardor e pela sedução, corpos calados e sexos moribundos.
ser homem é estar sempre pronto a perder-se numa grande mulher depois de ter amado até à exaustão tantas outras.

ser homem é ser o nómada canalha que conhece de cor o nome de todas as estrelas do céu**.


* neste parágrafo tenho comigo Elisabeth Badinter.
** “At the end of the congress, the lovers with modesty, and not looking at each other, should go separately to the washing-room. After this, sitting in their own places, they should eat some betel leaves, and the citizen should apply with his own hand to the body of the woman some pure sandal wood ointment, or ointment of some other kind. He should then embrace her with his left arm, and with agreeable words should cause her to drink from a cup held in his own hand, or he may give her water to drink. They can then eat sweetmeats, or anything else, according to their likings and may drink fresh juice,1 soup, gruel, extracts of meat, sherbet, the juice of mango fruits, the extract of the juice of the citron tree mixed with sugar, or anything that may be liked in different countries, and known to be sweet, soft, and pure. The lovers may also sit on the terrace of the palace or house, and enjoy the moonlight, and carry on an agreeable conversation. At this time, too, while the woman lies in his lap, with her face towards the moon, the citizen should show her the different planets, the morning star, the polar star, and the seven Rishis, or Great Bear.
This is the end of sexual union.”

Vatsyayana , The Kama Sutra

domingo, 3 de maio de 2009

M'agrada molt aquesta gens mevas nenas*!

" Eu conheci uma mulher que gostei, começamos a encontrar-nos e ela disse-me que tinha uma boa chance com ela. Alguns dias depois perguntei-lhe se ela queria ir jantar fora... Deixei-a escolher o local, e fomos jantar. Durante todo o jantar ela falou do ex. Paguei 40€ pelo jantar. Quando chegamos a casa dela, ela começa a chorar no meu ombro, quando eu tentei falar com ela sobre o ex. Ela disse-me que estava cansada e que era melhor eu ir embora. Que fiz eu de mal?"


Está o mundo cheio de Santos...

Pois é amigo, más noticias.

Em primeiro lugar, quando uma mulher diz: "tens uma boa chance comigo"
1. Fuja! ou
2. Olhe para ela, abane a cabeça e diga com um ar desapontado, "Pois, se calhar é melhor teres cuidado comigo... tu não tens assim tantas hipóteses..."

Em segundo lugar, nunca deixe uma mulher escolher o local em que vão jantar da 1ª, 2ª, 3ª e possivelmente 4ª vez!

Em terceiro lugar, se a levar a jantar fora, e ela começar a falar do ex namorado, interrompa-a e diga "Só para deixar uma coisa clara. Se quiseres terapia, são 100€ hora, durante pelo menos duas horas. E tem que ser mais logo, que agora estou a desfrutar do meu jantar..."

Em quarto lugar, você têm que aprender como levar as coisas de um nível para o outro com as mulheres, porque ir para casa dela e "tentar falar com ela sobre o ex" não é propriamente o caminho a seguir.

Q: Que fez você de mal?
R: Basicamente TUDO!

* "gosto muito desta gente minhas meninas", em catalão espero que com poucos erros.