quinta-feira, 4 de junho de 2009

Caminhante não há caminho




Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
apenas sulcos de escuma no mar.
Antonio Machado
A versão de Joan Manuel Serrat no álbum de tributo a António Machado:
https://www.youtube.com/watch?v=vIEUWDYVpHg

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ou há vontade de foder ou está tudo fodido

Aos 18 anos mudei de curso da Covilhã para Coimbra e colocaram-me numa Residência Universitária, a Residência João Jacinto. Partilhava quarto com um colega muito bonito, 1m80, 27 anos, pintor, libertino, órfão de pai que todos os dias desde criança fazia o almoço à mãe e lho levava à fábrica onde ela trabalhava (era um cozinheiro como nunca vi, um génio na cozinha). Raramente dormia no quarto, havia sempre uma Maria que o queria na casa dela (casou com uma médica feia como o diabo dois anos mais tarde); penso que ainda estão casados passados 24 anos (engordou e é engenheiro), Chico é o seu nome, gostava de mulheres pequenas e magras.

Voltando à primavera de 1987, eu 19 anos, apaixono-me que nem um perdido pela beldade do curso (belíssima, loira, 1m80, inteligente, rica - andava de BMW, pintora e doida varrida).
No quarto, altas horas da noite, o Chico tenta dormir e, de candeeiro aceso, escrevo poemas de amor. Às tantas ele perde a paciência, soergue-se da cama apoiando-se no cotovelo e diz:
- O que caralho estás tu a fazer?
-Estou a escrever.
- A escrever o quê?
- Poemas...
Ele põe um sorriso trocista e diz:
- Estás apaixonado!
- Pois...
- Deixa-te de escritas, vai lá e diz-lhe que gostas dela!
- Mas... ela é muito bonita tem montes de dinheiro.
- Isso não interessa nada, o que interessa é haver vontade de foder!
Eu pensei:  "foda-se, vá-se lá ver este cabrão, é claro, todas o querem comer mas a mim não, magro, quase imberbe, pobre e sujo, isto é que é um conselho de merda, ir lá e dizer-lhe, como dizer e dizer o quê"?
E ele acrescenta:
- Ou há vontade de foder ou está tudo fodido, apaga a luz e vai dormir, deixa lá os poemas.

Esta conversa acompanhou-me toda a vida, uns anos mais tarde tentei seduzir mulheres que não me desejavam, deixei-me seduzir por mulheres que não desejava e por aí fora. percebi que o desejo se pode inventar, que se pode fazer alguém desejar-nos pela sedução; que o amor é uma grande armadilha para o desejo das mulheres, depois de se apaixonarem começam a desejar o homem que antes não lhes deixava rasto de molhado, etc... erros crassos! sempre erros crassos!

Os corpos só conhecem a sua verdade e a sua linguagem é química e subliminar, é a linguagem pura, natural, antiga, admirável, verdadeira e bestial do desejo.
Pode-se chegar a amar intensamente alguém que não desejámos mas, o Chico tinha razão:
"Ou há vontade de foder ou está tudo fodido".

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Desbaptizar-se

para os interessados segue-se o texto de M. Onfray, estou com ele:

"J’ai été baptisé, comme des millions de français, et cela ne m’empêche pas de dormir. L’eau bénite a été gâchée et l’huile d’olive aurait mieux servi si elle avait agrémenté un filet de poisson servi au presbytère par la bonne moustachue du curé, le tout accompagné d’un vin blanc qui, rappelons-le à nos lecteurs, n’est pas plus sang du christ que l’eau baptismale un liquide magique.

Enfant de chœur, je me goinfrais d’hosties avant l’heure du petit déjeuner, j’en mettais dans mon bonnet et les plongeais dans le café au lait de la pension, je buvais au goulot le vin blanc doux tiède de la sacristie, mais ça n’a pas fait avancer le nécessaire combat antichrétien. Tant qu’on perd son énergie à créditer un rite qu’on veut discréditer, on oublie de porter le fer là où il doit être porté. Car le christianisme fait plus de mal dans le formatage contemporain des corps que dans sa capacité à laisser des « traces spirituelles indélébiles » ! Cessons avec la superstition, toutes les superstitions, y compris les superstitions anticléricales."
Michel Onfray