sexta-feira, 30 de julho de 2010

a minha mulher tem mais aspecto de atriz porno do que a tua


anoitece na Vila Naturista de Cap D'Agde  e os nus vestiram-se para continuar ainda mais nus.
passa uma loira de filme, usa apenas uns sapatos de saltos altos e enverga uma rede elástica azul-choque de malha  larga, losangos de 3 cm de diâmetro que a cobre dos ombros até ao fim das nádegas, nem cuecas nem soutien.
na mesa perto jantam dois casais. eles vestem como era de esperar numa praia, à noite, uma delas também, a outra, uma loira de 1m80 usa apenas um corpete vermelho e uma ultra-minissaia vermelha, nada mais, nem cuecas nem soutien, deviam ter-lhe posto uma almofadinha na cadeira ou a moça ainda a constipa.
as feias e mal feitas que à tarde povoavam a praia parecem ter sido excluídas dos restaurantes e dos bares. o restaurante que escolhi também não é frequentado pelos muitos gays que se exibiam na praia, os seus bares e restaurantes devem ficar algures e não irei descobrir onde são, a julgar pelos instrumentos que vi passear se escorrego e caio passo uma semana sem me poder sentar.
na praia o exibicionismo estava equilibrado entre os géneros muito à custa dos gays, eles ostentando o tamanho elas as jóias, geralmente pequenas correias de diamantes ou imitação de diamantes; recordo em particular uma cinquentona que usava algo que nunca vi, uma aureola dourada nos mamilos e um gay com um instrumento de uns 17 cm (em repouso) enfeitado com uma bracelete de prata das que eu usaria no pulso apesar do ar amaricado que a coisa daria.

acabo a minha "brochette de bœuf" com um copo de vinho tinto enquanto ao lado passa um casal vestido a rigor, ela uma bela morena de uns 35 anos trajando de Dominatrix leva-o pela trela, ele um mocetão de menos de 30 anos não parece lá  muito contente. não consigo imaginar os papeis invertidos sem que houvesse algum tipo de censura. o que aconteceu aos homens?
na mesa do lado sentou-se um casal alemão, ele tem uns 50 anos e veste-se como eu, calções e sandálias, ela com uns 60 anos e pouco cuidada veste uma rede e uma minisaia, sem soutien.
os casais passam abraçados e de mãos dadas. com a excepção do submisso de coleira todos os homens vestem de forma normal como se estivéssemos na Costa da Caparica, elas, é outra história, a lógica parece ser, "vê!, a minha ainda tem mais ar de actriz porno do que a tua". as mulheres que me lêem já tiraram a conclusão cretina:
eles estão a usá-las, sustentam-nas e agora fazem-nas exibir-se!
tenham juízo!, na França, em 2010, em que mundo vivem vocês?
além disso o ar de enlevo deles, a maneira como as levam pela mão ou as abraçam  sem ser abraçados, mostra claramente quem domina quem.
não percebo a lógica deste campo apesar de conhecer muito bem espaços naturistas em Portugal na Catalunya e até em Goa, faltam-me as ferramentas para compreender este exibicionismo no lugar do  naturismo. a título de exemplo, um dos frequentadores da "Cala del Pí" em Portbou creio que é o padre  da aldeia pela maneira respeitosa com que todos o cumprimentam e pelo facto de estar sempre sozinho; passa por mim, cumprimenta-me afavelmente e vai resguardar-se no seu lugar do costume, a regra em todas as praias nudistas onde estive até hoje é basicamente uma, ser muitíssimo discreto/a. devia de ter-me preparado para este fenómeno ou falar com as personagens do lugar. podia, obviamente, falar com algumas das moças que estão aqui, acompanhadas é certo mas os maridos franceses não se importariam, pelo contrário. e as coisas até podiam ser mais simples:
por motivos técnicos - a ficha para ligar o portátil à electricidade - estou a escrever este post junto às casas de banho e a maruja  de uns 45 anos, sem cuecas que estava a jantar com o "marido" aproveitou para ir dançar, no final dirigiu-se aos lavabos e ao passar por mim agarrou-me no braço num convite para que a acompanhasse até à relativa discrição da casa-se-banho, retribui agarrando-lhe o cotovelo sem me comprometer. estou cada vez mais epicuriano, prefiro não me meter no que não compreendo. é pena  ser sempre mais fácil e mais barato (1)  possuir uma mulher do que pô-la a falar sinceramente de si.

exibicionistas precisam da sombra dos seus voyeurs. sentado no meu canto, escrevendo este post sou uma tentação irresistível para as moças. os maridos, os pobres, já não servem nem para espelho. passam por mim a caminho do espelho de vidro da casa de banho e pedem-me descaradamente com o olhar:
"avalia-me, dá-me a atenção que não deste à minha companheira de mesa!"
"exibicionistas precisam da sombra dos seus voyeurs."

na pista de dança estão agora duas tailandesas vestidas de actriz porno de 1ª classe e uma morena nariguda com um corpaço, sapatos pretos de salto de agulha, mini-ninissaia e corpete negros, sem cuecas nem soutien e com o marido orgulhoso dançando ao seu lado. fim da dança, as tailandesas e a nariguda regressam à mesa onde os companheiros ocidentais das tailandesas ainda comem.
agora é a vez dos moços mais espertalhaços que me lêem tirarem conclusões parvas:
"o pateta do F. ainda não percebeu que está numa casa de putas!".
não estou, seguramente, pela simples razão que não há clientes, só há casais!
não há homens sozinhos nem nas mesas nem ao balcão. ainda acham que estou numa casa de putas?
acrescento mais:
o prato com a espetada e excelente acompanhamento custou menos do que custaria no Algarve, 10 euros e o moscatel de Sète que bebo agora custou 4 euros, o restaurante com bar e pista de dança, como é costume numa praia do sul, chama-se "L'Absolut"; os casais acabam de jantar e vão embora.

contrariando o hábito de revelar de mim mesmo apenas o acessório para melhor preservar o essencial vou entrar um pouco no essencial.
Cap D'Agde foi o meu lugar de paragem quase obrigatória nos Verões do fim da adolescência até me dedicar profissionalmente às armas em 1991 e poder ter finalmente férias decentes (2). nesses 5 anos devo ter passado aqui pelo menos 5 semanas, uma por cada ano. a razão era simples: excelentes praias, tranquilidade dentro do possível e possível pela civilidade dos franceses e o acesso fácil, a seguir a Narbone e antes que as auto-estradas comecem a bifurcar, umas em direcção a Lyon e ao norte e outras em direcção a Marselha e à Itália. para mais, bem novo, adquiri o hábito de deambular à boleia pela Europa aproveitando as longas férias de Verão que me permitia a capacidade de fazer as cadeiras à primeira ou de simplesmente ir mudar mais uma vez de curso em Setembro!
Cap D'Agde era, quando no início da viagem, o princípio das boleias fáceis e rápidas (3) e o fim dos problemas ou, se passava por aqui no regresso a Coimbra, era o princípio do inferno do sul da França e de Espanha (cansado, sujo e suado ninguém dá boleia a um esculacho assim!, fica a explicação).
no final da praia de Cap D'Agde brilhava rutilante a aldeia naturista, um posto de controle com guardas e um dique de pedras impedia o acesso à sua praia dia e noite. creio que uma vez fui até à entrada da aldeia mas naqueles tempos não fazia sentido nenhum pagar 10 francos para aceder a uma praia (hoje paguei alegremente 5 euros, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!).

as coisas começam a aquecer. a maruja despiu o top para mostrar as joias que lhe pendem dos mamilos e dança enleando-se nas outras mulheres da pista, o álcool vai começar a fazê-las portarem-se mal, está na hora de pensar em ir embora porque não me vão deixar continuar aqui tranquilamente. os maridos tentam sossegá-las indo também dançar mas falta-lhes energia para segurar as bestas. leiam "As bacantes" de Euripedes e perceberão o preço que se paga quando se tenta controlá-las durante a possessão dionisíaca.

P.S.: este post também podia intitular-se, "Cap D'Agde, 6ª Feira à noite" mas como diz o outro, "não era a mesma coisa".

(1) ver a entrada da página 98 do livro "Montaigne" de Stefan Zweig da editora Acantilado
(2) ninguém consegue ter realmente férias no Verão. retifico, ninguém consegue ter realmente férias baratas no Verão. assim que recomecei a dar aulas e se acabou a festa militar para ter realmente férias em Agosto fui, alternadamente ou para o grande norte do mundo (Escandinávia) ou para o grande sul do mundo (em Agosto é aí Inverno e nem o Menino Jesus para lá quer ir). soluções muito caras por razões diferentes.
(3) porque para quem sabe a  Europa das boleias começa realmente de Lyon para cima.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Vampes e vadias

Há muitos anos li um livro que me marcou, "Vampes e vadias" de Camille Paglia. hoje, por acaso, encontrei num site alguns extractos, partilho-os:
 
Feminismo: A tendência recente no feminismo, nomeadamente em matéria de assédio sexual, confia demais na regulação e legislação, em vez de promover a responsabilidade pessoal. As mulheres não devem colocar-se sob a tutela de figuras de autoridade e tornarem-se suplicantes. Liberdade significa rejeitar a dependência. (...) A rua é natureza, visão da selva aberta com as suas energias exuberantes e brutas de caça e perseguição. As vampes e vadias são os símbolos maduros de um feminismo duro, a minha resposta à auto-satisfação presunçosa e ao materialismo crasso do feminismo yuppie. Os distúrbios do apetite que flagelam o feminismo burguês são rituais regressivos de filhas dóceis que, num certo nível, se recusam a defender-se a si mesmas. (...) a vida é um banquete e os otários morrem à fome. A palavra vamp, no sentido de uma sedutora sexual, tem uma origem eslava e descende das lendas de vampiros servo-croatas dos sangrentos Balcãs. A palavra descreve também a “coisa que está na frente”, avant-garde, ou vanguarda. Como verbo significa recuperar ou consertar algo velho, remendando-o com uma peça nova; ou seja, empregar engenhosidade, inteligência e sentido prático para alcançar os objectivos. Daí passou para vaudeville e jazz: no acompanhamento musical, vamping significa improvisar, ornamentando e ampliando a excitação. (...) Não quero deitar fora as velhas canções; quero actualizá-las, fazê-las entrar nos comportamentos e injectar-lhes energia. Quero colocar de novo o bomp no bomp-de-domp. (...) O estado não deveria ter poder para vigiar ou regular actividades solitárias ou pouco consensuais, como o suicídio ou a sodomia. Por isso apoio decididamente a legalização das drogas e da prostituição, e sou uma radical defensora das formas mais chocantes de pornografia. (...) O sexo tem de ficar de fora do alcance das garras totalitárias dos filantropos e pregadores de todos os matizes. (...) “Odeiem o dogma. Amem a aprendizagem. Amem a arte.” (...) o meu programa propõe a religião comparada como núcleo curricular para toda a gente. Eu não acredito em Deus, mas creio que Deus é a maior das ideias humanas. Aqueles que são incapazes de sentimento religioso ou que profanam o solo sagrado não dispõem da imaginação necessária para educar os jovens. (...) Arte, história e filosofia estão entrelaçadas com a evolução da religião. (...) Os anos 60 queriam destruir os códigos morais opressivos da religião organizada, aceder à visão das coisas através dum individualismo ousado. (...) os jovens estão a lutar pela sua identidade num mundo definido pela desigualdade e pelas incertezas materiais, justapostas bolsas surrealistas de fome e fausto. Daí a sua vulnerabilidade ao politicamente correcto, única religião que conhecem. Os jovens imploram por alimento espiritual, e a elite das escolas oferece-lhes das amargas cinzas do niilismo. (...) O objectivo da educação é abrir o passado remoto aos estudantes, de modo a que possam aprender com os volumosos registos humanos de erros e triunfos. (...) O estilo vampe que subscrevo tece referências para o presente através de uma constante interpretação do passado. “Limite-se a relacionar.”- E. M. Forster.
O Pénis Desembainhado: Na história da arte é muito difícil encontrar um pénis marcante sem recuar aos tempos antigos, onde há muitos pénis bonitos e muito abertamente retratados. Chegamos a um período da cultura ocidental em que há um medo terrível dos pénis. Já não podem ser grandes, creio, acima de um certo tamanho. Simplesmente não parecem bem aos homens, daí resultando que já não são tão atraentes. (...) O pénis é um tremendo, um tremendo tabu. Se vêem um, as pessoas pensam que vão arder no fogo do inferno. Nunca se vê na televisão ou nos media. Está confinado à pornografia – e à arte. (...) Então qual seria o meu conselho para os sexos no final de século? Eu diria para os homens: mantenham-no teso! E para as mulheres diria: Lidem com isso! Não há lei na arena! (...) Para mim, o máximo poder do universo é a natureza, não Deus, cuja existência só posso entender como energia vital despersonalizada. Porém, como já disse repetidas vezes, o simples facto de a natureza ser suprema não significa que nos devamos render a ela. Assumo a opinião do período final do romantismo de que tudo o que de grande houve na história do Homem foi realizado em desafio à natureza. Lei, arte e tecnologia são mecanismos de defesa. (...) É a procriação, não o temor ou o preconceito, que fundamenta a oposição cristã à homossexualidade. (...) A América do final do século XX tem mais coisas em comum com a Roma imperial do que com a Atenas clássica, e por isso é no mundo romano helenizado que buscaria os modelos pagãos. Precisamos de novos mitos vivos. (...) Hoje o sexo acontece no fragor e poeira do circo imperial. Queixas privadas são trazidas à luz do dia, e servem de alimento à massas. (...) Nem mulheres nem gays deveriam lutar para obterem protecções especiais ou tratamentos preferenciais. A arena é a esfera social, que está separada da natureza mas formaliza ritualmente as suas agressões. A minha posição libertária é que, na ausência de agressão física, a conduta sexual não pode e não deve ser legislada a partir de cima; é que toda e qualquer intrusão de figuras de autoridade no sexo é totalitária! A lei última da arena sexual é a responsabilidade pessoal e a autodefesa. Devemos estar preparados para enfrentar isso sozinhos, sem as protecções infantilizadoras de apoios externos como aconselhamento pós-trauma, comissões de apoio e tribunais. Eu digo ás mulheres: desçam ao que é impuro, ao reino dos sentidos. Lutem pelo vosso território hora a hora. Aparem os golpes como os homens. Eu exalto a "persona" pagã do atleta e guerreiro, que pertence mais à cultura do pudor do que à culpa e cuja ética é sinceridade, disciplina, vigilância e valor.
Crime sexual : Violação (...) o que começou como uma campanha útil de sensibilização para as reivindicações de vítimas autênticas de violação desvirtuou-se numa superextensão alucinatória da definição de violação, para cobrir todo o encontro sexual desagradável ou embaraçoso. A violação tornou-se no crime dos crimes, obscurecendo todas as guerras, massacres e desastres da história. A obsessão feminista com a violação como símbolo da relação homem-mulher é fraudulenta e irracional. Visto de uma perspectiva do futuro, esse período na América vai parecer um reinado de psicose de massa, como o da caça às bruxas de Salem. (...) A violação deveria ser definida mais economicamente como a violação por um estranho, ou a intrusão forçada do sexo num contexto não sexual, como por exemplo numa situação profissional. (...) Grande parte da crise em torno da violação em contexto de namoro e do assédio sexual, reclamada pelas mulheres de classe média branca, é causada pela confusão existente nos próprios sinais dessas mulheres, a qual pude observar com crescente angústia ao longo de duas décadas como professora. (...) Dois pais sozinhos não conseguem transmitir toda uma sabedoria de vida a uma criança. Os anciãos do clã – avós, bisavós, tias, tios, primos – desempenharam essa função no passado. A criança urbana vê a aspereza da rua, a rural testemunha as assustadoras operações da natureza. Ambas têm contacto com uma realidade eterna, negada à criança da classe média suburbana, que é protegida do risco e do medo e levada a conformar-se a um código dócil de boas maneiras e a uma linguagem corporal reprimida, código esse que pouco mudou desde a época vitoriana. (...) Na ausência de guerras invente uma! Filmes sobre o comportamento no acasalamento da maioria das outras espécies – uma referência na TV pública americana – demonstram que a fêmea escolhe. Os machos perseguem, exibem-se, lutam em alvoroço, arrastam os pés e fazem papel de completos tolos no amor. (…) Como libertária, creio que temos direito absoluto ao nosso próprio corpo, e que nenhum homem nos pode tocar sem o nosso consentimento. Porém, o consentimento pode não ser verbal, expresso por linguagem ou comportamento. (...) Cada qual recebe o que dá. Se alguém faz propaganda, é melhor estar preparada para vender!
Guerra dos sexos, aborto: (...) A moderna libertação da mulher está inextricavelmente vinculada à sua capacidade de controlar a reprodução, que a tem escravizado desde a origem da espécie. E mais uma vez é a Natureza que é o nosso real opressor. “crescei e multiplicai-vos” já não é aplicável a um mundo superpovoado e de recursos minguantes. (...) O meu código de amazonismo moderno diz que a disposição fascista da natureza no tocante à menstruação e procriação deve ser desafiada, como violação grosseira que é do livre arbítrio da mulher. Ao contrário do establishment feminista, reconheço que abortar é matar. Porém matança e colheita – simbolizados em forma de foice da deusa lua são o registo do sustento e da sobrevivência humana ao longo de dez mil anos."
Camille Paglia
A genialidade desta mulher ainda me é capaz de comover...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Andanças

entretive-me a fazer um teste D/s.
resultado preocupante, Highly dominant...
para os interessados aqui fica o link, Take The Dom or Sub Test at OkCupid

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Canigó

um dia para subir o Canigó, 2.784,66 m.

nestes 4 anos catalães habituei-me a ver esta montanha como "a montanha" e a que os seus caprichos fizessem o sol, a chuva ou a neve, da Alt Empordá. hoje, depois de uma escalada difíci e por meia hora, fui 1m74 mais alto do que ele.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Interessante

um moço esclarecido?



e um pouco mais velho:

segunda-feira, 19 de julho de 2010

26 aninhos, haja coração

e era tão bom se não cantasse...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Que maldade!

"Apesar do que dizem sobre a estrutura familiar do CR Júnior, nem me parece que a criança vá notar muito a falta da mãe.  Quando vai ao quarto do pai vê a lâmina de barbear, mas também a Epilady.  Só daqui a alguns anos é que o bebé vai perceber que é tudo do pai e não está lá a mãe." (José Diogo Quintela)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Montaigne: "A coisa mais importante do mundo é saber ser si próprio"

Li de um fôlego "Montaigne" de Stefan Zweig, da editora Acantilado e segue-se essa tristeza que me assalta, a miude, após a leitura de um grande livro.
constato o percurso extraordinário desse meu irmão que viveu anteontem, Montaigne na sua torre e fora dela:
"O mundo de antes de ontem é o de hoje, e será também o de amanhã: as intrigas políticas, as calamidades da guerra, os jogos de poder, a estratégia cínica dos poderosos, o encadeamento das traições, a cumplicidade da maior parte dos filósofos, os homens de Deus que se revelam homens do Diabo, a mecânica das paixões tristes - inveja, ciúme, ódio, ressentimento… -, o triunfo da injustiça, o reino da crítica medíocre, a dominação de renegados, o sangue, crimes, assassínio…" (Michel Onfray)
vejo Montaigne a escrever:
"Cansado do cansaço das misérias do tempo actual que são os sofrimentos ancestrais do mundo, é necessário plantar um carvalho, vê-lo crescer, retirar suas tábuas, vê-las secar e fazer um caixão no qual tomará o seu lugar na terra, ou seja no cosmos." (Michel Onfray)

ficam as notas de leitura:
 pg. 8 - "A vida depende da vontade alheia; a morte, da nossa."
            "E, entre as nossas doenças, a mais selvagem é a de desprezarmos o nosso ser"
11 -  é preciso viver bastante antes de ler Montaigne
13 - "Uma das misteriosas leis da vida é que descobrimos sempre tarde demais os seus autênticos e essenciais valores: a juventude quando a perdemos,  a saúde assim que nos abandona, e a liberdade, essa essência preciosíssima da nossa alma, só quando está a ponto de nos ser arrebatada ou quando já o foi"
14 - Montaigne nasce no ocaso do renascimento
15 - "Sempre que o espaço cresce, a alma fica tensa"
19 - Como manter-se livre no meio da barbárie?
20 - "A arte mais sublime consiste em continuar fiel a si mesmo" (tradução difícil de " ..arte más sublime: seguir siendo uno mismo")
22 - manter-se exteriormente discreto (low profile)
23 - Montaigne, o nosso contemporâneo
30 - Montaigne mestre de Shakespeare
34 - Montaigne, "... filho e cidadão não de uma raça nem de uma pátria, mas sim do mundo, para lá dos paises e dos tempos"
36 - Montaigne em bebé é entregue pelo pai a uma família de lenhadores (extraordinário!). aos 4 anos o pai vai buscá-lo para ser educado de tal forma que seja o homem mais sábio e culto de todos os tempos.
38 - Montaigne aprende a falar em latim antes de aprender francês
40 - o sucesso de uma educação indulgente
51 - elogio da pobreza (não da miséria)
54 - na sua torre Montaigne é Montaigne
       despede-se do mundo aos 38 anos, achando já ter vivido o suficiente e refugia-se entre os seus livros, na torre
55 - consagra-se a preparar-se para a morte
60 . os livros são melhores que os homens: em jovem lia para ostentar, depois lia para saber e agora, em "velho" lê finalmente por prazer
63 - sublinha e escreve nos livros que lê e relê
65 - desagrada-lhe o que escreve
66 - finalmente Montaigne começa a escrever para os outros
       primeiro quer conhecer-se, depois quer mostrar-se como é.
69 - o escritor Montaigne é uma sombra menor do homem Montaigne
71 - estuda "as ricas almas do passado"
72 - a procura do eu e ... a procura do humano (sublime!)
73 - não casar-se senão consigo mesmo, diz. ele, casou-se cedo!
75 - cada ser humano contém a forma completa de humano
76 - Cristo foi inútil porque o saber e o bem não se podem ensinar
77 - "A coisa mais importante do mundo é saber ser si próprio"
78 - não se deixar possuir pelo possuído
       não se deixar possuir pelo que nos dá prazer (este homem era um génio!)
80 - "a morte mais voluntária é a mais bela" (Montaigne vai mais tarde equacionar suicidar-se)
       Montaigne ama desmedidamente a vida
       Montaigne diz só ter medo da morte, de nada mais

81 -liberdade de pensamento para todos (no meio dos fanáticos franceses seus contemporâneos!!!)
     perante um grupo de canibais brasileiro sente-se curioso e tolerante para com o seu comportamento
82 - os homens sempre puderam viver livremente em todos os tempos, os exemplos abundam: Erasmo, Montaigne, Castelio...
83 - em 1570 aos 38 anos crê que tem concluída a sua vida.
84 - esperar pacientemente a morte e preparar-se para ela foi o seu trabalho durante 10 anos, agora,aos 48 anos, em 1580 admite os seu erro, de facto:
         1. enterrou-se vivo
         2. não está mais livre por se ter encerrado numa torre do seu castelo
         3. não se pode renunciar ao mundo tão cedo
         4. acreditava que estaria agora mais burro, quase senil e afinal está mais sereno, culto, curioso e sábio
85 - uma pessoa vive no seu próprio século e não se pode fugir do presente
87 - a realidade não tem um peso próprio mas sim o peso que lhe outorgamos
88 - Montaigne concedia às mulheres, mais do que aos homens, o direito, por causa da necessidade de variar, de ter um amante (esta posição vai-lhe valer 4 séculos de calúnias, a começar pela de corno!)
89 - há poucas mulheres cuja saúde não melhore com a viuvez.
       "... um bom matrimónio, se há algum!"
91. o elogio da viagem
93 - o desgosto também faz parte da vida
96 - é sempre um prazer (...) ver um homem tão sensato (Montaigne) nas suas loucuras.
98 - têm para ele mais interesse as prostitutas de Roma que a capela sistina ou as de Florença que a sua catedral
        as prostitutas cobram-lhe mais para falar com ele do que para fazer o seu trabalho habitual
109 - mas precisamente nas últimas cenas da vida de Montaigne tudo volta
110 - em resposta a uma tentativa do poderosíssimo, e seu soberano, rei Henrique de Navarra, de suborná-lo, responde orgulhoso e e temerário:
         "Nunca recebi nenhum bem de liberdade dos Reis, como tampouco o pedi ou mereci... .
          Sou, Senhor, tão rico como desejo ser".
          aqui volta a ser verdade que  "os homens sempre puderam viver livremente em todos os tempos"
    recebe espantosamente, tão velho, uma centelha de de ternura e amor: Marie de Gournay
111 - em 1593 só lhe faltava conhecer uma coisa (...) a morte.
111 - "descansa" não no seu castelo mas sim na igreja de Feuillants de Bourdeaux
"Montaigne", Stefan Zweig, Acantilado

domingo, 4 de julho de 2010

Lourmarin


Um tributo a um homem que me ensinou a pensar o absurdo da condição humana e a viver melhor com  a sua natureza trágica e sem sentido.
Recordo que aos vinte anos me caiu nas mãos esta entrada, um soco no estômago, de "O mito de Sísifo"(a negrito):

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.
Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. E, se é verdade, tal como Nietzsche o quer, que um filósofo, para ser estimável, deve dar o exemplo, avalia-se a importância desta resposta, visto que ela vai preceder o gesto definitivo. 

São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso aprofundá-las para as tornar claras ao espírito. Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico.
Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pela ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver só ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).
Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos —das interrogações. Como responder-lhes? Em todos os problemas essenciais (e por tal entendo os que podem fazer morrer e os que multiplicam a paixão de viver) só há provavelmente dois métodos de pensamento, o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que nos faculta ao mesmo tempo o acesso a emoção e à clareza.
Num assunto ao mesmo tempo tão humilde e tão cheio de patético, a dialéctica sábia e clássica deve pois ceder o seu lugar mais modesto que deriva ao mesmo tempo do bom senso e da simpatia."

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O animal moribundo

Este foi o grande romance que li nos últimos anos (confesso: depois de ver o filme Elegy…). Segue-se as notas de leitura.

Pg 13 – "Aquele corpo ainda é novo para ela"

Pg 14 - assédio

Pg 16 – Miranda = Ana Batista

Pg 17 – "Esta é uma surpreendente geração de amantes do felácio"

Pg 22 – "… deliciosa imbecilidade da luxúria"
    "Não se trata de sedução. Aquilo que estamos a disfarçar é o que nos levou ali: pura luxúria"

    "A grande partida biológica que nos pregam é que nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa acerca da outra pessoa"

Pg 23 – "… é tentar transformar a luxúria em alguma coisa socialmente apropriada"

Pg 24 – "Esta duquesa usa soutiens copa D…"

Pg 26 – "É o caos do Eros que estamos a falar…"

Pg 27 – "Como ser sério (…) quanto aos nossos (…) prazeres"

Pg 28 – "… dizia centenas de vezes <<Adoro-te>>, mas nunca, nem mesmo hipocritamente (…) não posso viver sem o teu caralho. Consuela não era assim."

    "Quando estamos seduzidos ajuda não pensar demais"

Pg 29 – "Casei uma vez…"
    Macaca

Pg 30 – "Mal lhe toquei no rabo e já diz que não pode ser minha mulher?"

Pg 32 – "Comoveu-me ver aquele corpo"

Pg 33 – "… ao princípio, a maneira de fazer amor era demasiado fogosa. Ela esforçava-se de mais para impressionar o seu professor"

Pg 34 – "… nenhuma gosta, de facto, que lhe puxem o cabelo"
    A dentada (simbólica) no falo

Pg 35 – "A excentricidade erótica (…) uma farsa repugnante"

Pg 36 - Obsessão e contra-obsessão
    "Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se aventurasse a ser fodido"

Pg 37 – "Só um grande idiota sentiria que é de novo jovem"

Pg 40 – autoridade necessária para a estabilidade

Pg 42 – "O casamento cura o ciúme"

Pg 43 – "… ele (o amante de Consuela) sou eu aos vinte e cinco anos"

Pg 44 – "… apenas em vir-se ele próprio. (…). Não era um homem que amasse mulheres"

Pg 46 – A menstruação

Pg 47 – Mulheres de 40, estéreis e bem sucedidas profissionalmente

Pg 49 – Pequena Janie Wyatt: somos todos iguais, somos todos livres, podemos trazer para a Terra tudo o que quisermos

Pg 54 – Terror biológico da erecção

Pg 61 – (o homem nos anos 50) "Era um ladrão no reino sexual"

Pg 63 – "Porque só quando fodemos é que tudo aquilo de que não gostamos na vida e tudo aquilo que nela nos derrota é puramente, ainda que momentaneamente, vingado.

Pg 65 – "A estupidez de sermos nós mesmos"

Pg 82 - "Que ando eu a fazer com aquele velho?"

Pg 84 – "Me dá asco"
    Modigliani

Pg 85 – "… o cabelo que assinala o ponto onde o seu corpo bifurca"

Pg 86 – "… professor do desejo, ao tapete?"

Pg 87 - "… usar o remédio do estudante"

Pg 88 – "animal moribundo" (Yeats)

Pg 90 – "Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição de ridículo"

Pg 92 – "A vida desorienta-nos" (as casamenteiras)

Pg 93 – A irracionalidade da reprodução

Pg 94 – "De que estão a ser castigados?" (sobre aqueles que estão casados)

Pg 95 – "O drama quotidiano do adúltero que consiste em atravessar a vau um rio de mentiras"

Pg 105 – O sadismo da indiferença

Pg 109 – 60% / 40%

Pg 120 – O fim do poder erótico de Consuela: a erecção.

Pg 122 – "É agora ou nunca. E nunca chegou" (ano 2000)
    "A TV está a fazer o que faz melhor: o triunfo da banalização sobre a tragédia."

Pg 124/125 – A ilusão metronómica

Pg 131 – "Pensa nisso. Pensa. Porque se fores, estás liquidado"