segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Falharam a vida, meninos*

"Nas fotografias que gostam de mostrar têm o cabelo revolto e um ar de quem tem a certeza de tudo. São a chamada geração de 60, definição imprecisa mas prática por essa imprecisão que permite englobar nela muitos daqueles que foram jovens um pouco antes ou depois dessa década ícone para a geração que não só nos tem governado como também construiu o mundo imaginário onde vivemos.
Esse mundo onde público era sinónimo de justiça e gratuitidade rimava com solidariedade. Esse mundo onde governar bem equivalia a fazer cada vez mais promessas de redistribuição e onde o Estado passou a ser entendido como o grande doador. Esse mundo onde não haveria mais guerras porque tudo se resolveria pelo diálogo, esse mundo onde a corrupção era um problema dos outros, sobretudo daqueles que os tinham antecedido, porque eles eram puros.
A cada dia que passa, a cada pirueta sobre o empobrecimento de que não se deve falar porque parece mal e é populista abordar tal assunto, sobre os jornalistas que eram combativos e perseguidos quando escreviam sobre os conluios do poder doutros tempos e que agora passaram a ignorantes quando não a canalhas caso escrevam sobre as negociatas do poder de agora, sobre a emigração que outrora confirmava sermos um país sem esperança e que agora não interessa nada, sobre os tribunais cuja independência foi uma reivindicação até que eles temeram sentar-se no banco dos réus… pois a cada dia desses apetece-me mandá-los ler esse fabuloso final d”Os Maias donde foi retirado e adaptado o título desta crónica. Aliás, talvez sejam a última geração por largas décadas que em Portugal tem gosto literário que lhe permite ler Eça, pois as gerações seguintes, tendo frequentado aquilo a que a geração de 60 chamou escola inclusiva, multicultural, progressiva… etc. … etc., terão grandes dificuldades em ler algo que não lhes seja apresentado como muito fácil, muito giro e muito moderno. O que é sinónimo de não ler nada que valha a pena.
Na verdade talvez não seja necessário recorrer a Eça. Talvez baste imaginar aqueles questionários que, tal como acontece com o da Pública, perguntam aos escolhidos com que idade tomaram consciência de que tinham falhado na vida. Contudo creio que a geração de 60 nunca admitirá que falhou. Está-lhes na génese culpar os outros por tudo o que acontece: primeiro culparam os pais porque tinham perpetuado um modelo de família que achavam caduco e baseado na mentira. E quando eles mesmos amaram, odiaram, traíram e fizeram compromissos, como acontece a todo o Sapiens sapiens desde que o mundo é mundo, culparam o pai e sobretudo a mãe porque muitos anos antes não lhes tinham dito as palavras que eles achavam certas. Depois culparam o sistema das guerras e o capitalismo da pobreza. Enfim, no quotidiano, fosse ele o sexo ou a economia, havia sempre uma culpa que tudo explicava. Quanto ao mundo, havia essa culpa original do homem branco que estava sempre por trás dos massacres e das fomes. E ela, a tal geração de 60, assumiu-se como a apontadora de culpas.
Quando chegou a sua vez de serem poder viveram da culpa anos a fio, o que em Portugal nem sequer era difícil dado o carácter ditatorial do Estado Novo. Se lhes fosse possível teriam mantido Salazar empalhado para fazer dele um eterno bode expiatório. Na impossibilidade de tal acontecer levaram anos a descobrir salazares atrás de políticos ou propostas que não se acomodassem à sua forma de ver o mundo.
Talvez o primeiro momento em que a geração de 60 finalmente se sentiu adulta em Portugal tenha ocorrido quando constatou que a culpabilização do Estado Novo já não chegava para explicar o presente. Esse presente em que não há dinheiro para pagar as reformas que eles tinham garantido e que só por maldade não eram maiores e constantemente actualizadas. Esse presente em que os portugueses sustentam dois serviços de saúde, o dos seguros, à cautela, e o do Serviço Nacional de Saúde, o tal que tinha de ser universal e gratuito porque foi assim que esta geração o imaginou, primeiro no arrebatamento das greves académicas e depois na solenidade das reuniões maçónicas e que como bem se sabia não só não é gratuito como arranja agora estratagemas para excluir aqueles que já não chegaram a tempo. Esse presente em que a legislação sobre o emprego transformou os mais jovens em eternos tarefeiros a recibo verde. Esse presente em que ter bons resultados quer dizer que arranjámos quem compre um bocadinho da nossa dívida.
Quando a realidade se lhes impôs buscaram novos culpados que acrescentaram aos antigos: os culpados tanto podiam ser os grandes capitalistas como, no dia seguinte, os empresários de vão de escada. Os mercados cegos ou os investidores sem gosto pelo risco. A ânsia do lucro ou o atavismo da mediocridade do q.b. A defesa da competitividade ou o egoísmo a sobrepor-se ao igualitarismo. A falta de Europa ou o excesso dela. As decisões da senhora Merkel ou as indecisões da senhora Merkel. Os bancos que se endividaram para emprestar dinheiro a quem não podia pagar tais créditos sem avaliar os riscos dessas operações e os bancos que não querem correr o risco de nos emprestar dinheiro. Os pessimistas que influenciam negativamente as agências de rating sobre Portugal e as agências de rating que não se deixam influenciar pelos optimistas.
Todos os dias, semanas, meses e anos nos apontaram novos culpados. Aos culpados de sempre somaram ameaças globais – como as alterações de clima, a gripe A ou a escassez dos alimentos – e promoveram cruzadas que procuraram fazer de cada um de nós um convertido aos seus novos dogmas e que tanto abarcam aquilo a que chamam questões de género como o sal que se põe no pão.
No fim, acabámos cansados. Estourados de apontar tanta culpa alheia e perplexos perante o caos que entretanto se instalara à nossa volta. Tudo o que nos prometeram está agora em causa. E como é óbvio já o sabiam há muito tempo.
A geração de 60 será em Portugal uma das primeiras em décadas e décadas a ser sucedida por outras que viverão pior. O ano que agora acaba é aquele em que se tornou óbvio que falharam a vida, meninos. O que nos espera de agora em diante é constatar que para lá desse falhanço também lixaram a vida daqueles que vieram depois."
Helena Matos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desabafos de um Homem Moderno

Meus amigos, pensei um bocado na vida e é triste... simplesmente triste... Um gajo dantes chegava a casa do trabalho e a mulher vinha cumprimentar, seguida do cão, aos pulos e a abanar a cauda, contente e satisfeito por o dono estar de volta.
Dava-se um beijo, perguntava-se como correra o dia... essas coisas! Depois um gajo abancava no sofá da sala, ligava a televisão no programa desportivo ou nas notícias enquanto a sua esposa na cozinha preparava o jantar. Acabado que era, ela chamava o gajo para a mesa, baixinho para não interferir com a informação.
Um tipo jantava um belo dum entrecosto grelhado e de vez em quando passava a mão pela "febra", descobrindo as meias de ligas e a lingerie rendada que a mulher pusera para o agradar. Cafezinho servido e um balão de conhaque acamavam a refeição, enquanto na TV passava um filme de suspense.
Entretanto a mulher dedicada ia trocar de roupa para levantar a mesa e passava de avental por cima do body decotado e correspondente cinto de ligas, desfilando enquanto fazia as lides domésticas.
Um gajo entretanto mandava-a para a cama, aquecer o leito, enquanto ia à casa de banho dar um retoque na higiene. Na cama, a esposa fazia uma massagem ao seu marido trabalhador e depois, se ele assim o entendesse, faziam amor, após o que ele dormia um sono descansado, apenas para acordar no dia seguinte com um beijo de bons-dias acompanhado do pequeno almoço.
Era a assim a vida antigamente…
Hoje? Hoje não há nada disto... Hoje em dia um tipo chega a casa e a gaja não está porque teve uma reunião até mais tarde... Mas para que é que ela trabalha? E depois um gajo não pode ter cão porque a associação de condóminos acha que o bicho suja as escadas! Afinal quem é que traz os chinelos? Eles?
Como não há gaja, um tipo vai ali à Frangolândia da esquina buscar uma coisa qualquer cheia de nitrofuranos para debicar. Chega a casa vai para a sala, senta-se e pimba: eis que entra a gaja, cheia de pressa, saca uma coxa da ave, o pacote de batatas fritas que um gajo teve meia hora para escolher e abanca alegremente no sofá mais confortável com o comando da TV na mão. Faz perguntas de retórica do tipo "Tão? Tásse? Correu bem?" e pior, responde logo a seguir: "Fixe pá. Baril. Cool. Agora péra aí!"
"Péra aí!" Sabem para quê? Para desatar a fazer um zapping pelos canais todos da TV Cabo em busca de telenovelas mexicanas e programas da tanga. Epa, não há pachorra para isto... Fica um tipo sem a coxa do frango, sem batatas, sem TV...
Bem, um gajo vai à casa de banho naquela de cuidar da higiene e pá... aquilo está cheio de frasquinhos cor de rosa com uns nomes ilegíveis... mas para que é que a gaja quer tanto frasco? Irra!
É melhor ir para a cama... Então um gajo deita-se, cansado e farto da vida, quer dormir, e assim que adormece, eis que chega a gaja, atirada para cima da cama assim à bruta já toda nua, sem um pingo de lingerie provocante, destapa um gajo, senta-se-lhe na cara, e grita "Lambe-me!" No fim vem-se umas 15 vezes sem sequer um tipo atingir o orgasmo...
Depois ainda tem a lata de pedir ao gajo para lhe chegar um cigarrinho e uma garrafinha de água que, claro, estão espalhados pela casa toda... Um gajo até é um querido e não sei quê, vai buscar as coisas que ela pediu e quando chega já a gaja dorme, ressonando que nem um cavalo, só para acordar no dia seguinte, dar uma cotovelada no lombo dum gajo e dizer: "Oi amor... vai lá buscar pão pá gente tomar o pequeno-almoço..."
Já não há carinho... Onde está o amor que unia nossos pais? Onde, o respeito, a cena familiar? Onde estão os preliminares?!

in http://sergioalex.blogs.sapo.pt/131249.html

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vi Deus

" He visto a Dios a menudo en mi vida. Allá, en ese desierto mauritano, bajo la luna que rastrillaba la noche con tonos violetas y azules; en las mezquitas frescas de Bengasi o de Trípoli, en Libia; durante mi periplo hacia Cirene, la patria de Aristipo; no lejos de Port Louis, en Mauricio, en un santuario consagrado a Gamesh, el dios adornado con una trompa de elefante; en la sinagoga del barrio del gueto, en Venecia, con una kipá en la cabeza; en el coro de las iglesias ortodoxas en Moscú, un ataúd abierto en la entrada del monasterio de Novodevichye, mientras que en el interior rezaban la familia, los amigos y los popes con sus magníficas voces, cubiertos de oro y rodeados de incienso; en Sevilla, delante de la Macarena, en presencia de mujeres bañadas en lágrimas y hombres de rostros estáticos; o en Napóles, en la iglesia de San Javier, el patrono del pueblo construido al pie del volcán, cuya sangre se licúa, según dicen, en determinadas fechas; en Palermo, en el convento de los capuchinos, al pasar ante los ocho mil esqueletos de cristianos vestidos con sus ropajes más suntuosos; en Tbilisi, en Georgia, donde invitan al forastero a compartir la carne de cordero sangrienta, cocida bajo árboles donde los fieles cuelgan pequeños pañuelos a modo de ofrenda; en la plaza de San Pedro, un día en que, sin fijarme en la fecha, fui a visitar de nuevo la Capilla Sixtina: era el domingo de Pascua y Juan Pablo II pronunciaba sus glosolalias al micrófono, mientras exhibía su mitra hundida en una pantalla gigante. También he visto a Dios en otros lugares y de otros modos: en las aguas heladas del Ártico, durante el ascenso de un salmón pescado por un chamán, atrapado por la red y, según el rito, devuelto al cosmos del que provenía; en una trascocina de La Habana, entre un cobayo crucificado y envuelto en humo, hachas de piedra pulida y conchillas, con un sacerdote de santería; en Haití, en un templo vudú perdido en el campo, en medio de depósitos manchados de líquidos rojos, entre aromas acres de hierbas y pociones, rodeado de dibujos diseñados en el templo en nombre de los loa; en Azerbaiyán, cerca de Bakú, en Surakhany, en un templo zoroastra de adoradores del fuego; incluso en Kyoto, en los jardines zen, con excelentes ejercicios para la teología negativa.
También he visto dioses muertos, dioses fósiles, dioses atemporales: en Lascaux, asombrado ante las pinturas de la gruta, aquel ombligo del mundo donde el alma tiembla bajo las capas inmensas del tiempo; en Luxor, dentro de las cámaras reales, situadas a decenas de metros bajo tierra, hombres con cabeza de perro, escarabajos y gatos enigmáticos en perpetua vigilia; en Roma, en el templo de Mitra tauróctono, una secta que habría transformado el mundo si hubiese contado con su propio Constantino; en Atenas, al subir las gradas de la Acrópolis y al dirigirme hacia el Partenón, con el espíritu rebosante del lugar donde, más abajo, Sócrates encontró a Platón.
En ninguna parte he despreciado a quienes creían en los espíritus, el alma inmortal, el soplo de los dioses, la presencia de los ángeles, los efectos de la oración, la eficacia del ritual, la legitimidad de los hechizos, los contactos con los loa, los milagros de la hemoglobina, las lágrimas de la Virgen, la resurrección de un hombre crucificado, las virtudes de los cauríes, los poderes chamanísticos, el valor de los sacrificios de animales, el efecto trascendente del nitro egipcio, las ruedas de oración. En el chacal ontológico. En ninguna parte. Pero en todos lados he podido comprobar cómo fantasean los hombres para no enfrentarse con lo real. La creación de mundos subyacentes no sería tan grave si no se pagara un precio tan alto: el olvido de lo real, y por lo tanto la negligencia dolosa del único mundo que existe. Cuando la creencia se desprende de la inmanencia, de sí misma, el ateísmo se reconcilia con la tierra, el otro nombre de la vida."
Tratado de Ateologia, Michel Onfray
"Como é possível que a janela do mundo se abra todos os dias, a toda hora, sobre massas de fiéis que oram, seguem em peregrinação, aclamam pontífices, teocratas que pontificam, decretam, situam aqui o bem e ali o mal, indicam o que se deve pensar, o que se deve comer ou não comer, como vestir-se ou quem se deve matar, em que "o Talmude e a Torá, a Bíblia e o Novo Testamento, o Corão são mais citados do que a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Não se havia anunciado a morte de Deus?".

É preciso crer que não. Também devemos tirar disso algumas lições. De um lado, que o ateísmo não ergueu muros suficientemente altos para impedir a difusão daquilo que combateu. De outro, que a religião tem raízes inextirpáveis, na medida em que se prendem à própria condição do homem, confrontado com o absurdo de uma existência que o conduz inexoravelmente à morte.
A partir daí os jogos estão feitos, e os dados são viciados: a cruel realidade cede à doce ilusão, e a ilusão engendra outras ilusões, por cuja preservação estamos dispostos a pagar qualquer preço, a crer em todas as tolices, nos mares que se abrem e nas mães virgens que dão à luz, a fazer todos os sacrifícios, a sofrer, a nos arrependermos para sofrermos ainda mais, a nos colocarmos abaixo de zero, a nos humilharmos...
Poderíamos declarar perdido o combate: o que pode uma ateologia enquanto a hipótese religiosa se infiltrou em tudo, enquanto a religião habita a língua, os costumes e os usos, está presente nos nomes, na estrutura das cidades, na seqüência do calendário, na arte, no direito, na própria maneira como concebemos o corpo, com seus desejos baixos, suas vísceras sombrias, sua coragem no peito, seu nobre pensamento na cabeça, seu espírito e sua alma imputrescíveis?"

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mortalidade infantil

aqui está algo que sinto como mau e que é difícil de pôr em palavras; boas políticas (tal como o tão contestado fecho das maternidades do Correia de Campos)  ou luxos de novos-ricos sem bom senso?
a lei dos rendimentos decrescentes torce o nariz a estes resultados. tem custos económicos exorbitantes salvar todos os recém-nascidos com malformações e problemas graves de saúde (afinal cada ser é uma combinação genética singular e ao mesmo tempo uma "experiência" da "Ana Tereza") . vamos acabar em quê, com milhares e milhares de euros por parto (em vez das centenas de euros de uma parteira, uma certa selecção natural e alguma qualidade de vida para a mãe e o filho) e no limite, 3 por mil recém-nascidos ligados a máquinas de apoio de vida desde o nascimento?