quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Não entre tão depressa nessa noite escura (Do Not Go Gentle Into That Good Night)

Não entre tão depressa nessa noite escura;
A velhice queima e estressa ao fim do dia:
Ira, ira de encontro ao fenecer da alvura.

Entanto sábios ao final sancionem a tarde madura
Porque suas palavras não lavraram luz, eles
Não entram tão depressa nessa noite escura.

Boa gente, ao último aceno, clama o quanto dura
A chama de seus feitos vãos valsando na angra verde,
Ira, ira de encontro ao fenecer da alvura.

Rufiões que colhem e cantam o sol que perfura,
E aprendem, demais tarde, que o molestam em sua senda,
Não entram tão depressa nessa noite escura.

Homens graves, à morte, que vêem às escuras
Olhos cegos a chamejar meteoros e ser felizes,
Ira, ira de encontro ao fenecer da alvura.

E tu, meu pai, lá nas tristes alturas,
Maldiz-me, bendiz-me com teu duro pranto, peço.
Não entre tão depressa nessa noite escura.
Ira, ira de encontro ao fenecer da alvura.


Tradução: Ruy Vasconcelos

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mulheres do mundo

Exposição de Titouan Lamazou em Argentan
(Um artista feminista)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Coral

Os poetas são desperdícios dos deuses
poeira de coral e velhas estrelas
junções improváveis e desnecessárias
(o desejo afoga em agonia os sois de ontem).

Ecos de luz distante "comme si elle
étais aussi poussière d’étoiles"
e pudesse sera outra
ao cerrar dos olhos cansados.

"Elle aussi" na última paragem
antes dos dias solitários que virão.
É preciso saber dizer o indizível
o que não se pode nem pensar.

Lisboa, 26 de Novembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

O punho cerrado

Gare de Sta. Apolónia, acabava de chegar de Coimbra. Um dos mendigos, dos muitos que passam por ali a noite, aproximou-se de mim com aquela cara miserável que convém a alguém que vive daquilo que se julga sem direito: o meu dinheiro. Teria uns cinquenta anos, camisa desabotoada, calças às riscas, casaco castanho às nódoas; arrastava uma perna retorcida. Pediu-me 100 paus, dei-lhos e como estava nos meus dias comecei com filosofias, e lares, e Seguranças Sociais e reabilitações. De repente agitou-se, abriu a camisa apontou-me o lado esquerdo para o peito e disse naquela voz entaramelada pela manhã dum bêbado:
— Vês este punho fechado, com dois elos inteiros e um partido?
Acenei com a cabeça.
— Vi-o pela primeira vez há mais de 20 anos numa viagem por aí, pelo mundo. Olhe, dessa vez voltava da Suiça, da fruta. Umas horas antes um qualquer desgraçado tinha-me roubado a mochila na praia de Torremolinos, tinha ficado sem nada, nem umas cuecas tinha, foi com uma toalha à volta do cu que fui ao comissariado da Guardia Civil. “ Las hermanitas de los pobres” vestiram e deram-me de comer (dinheiro é que não, não fosse eu gastá-lo em droga ou vinho). Sabe o que fiz quando percebi que estava sem dinheiro, sem passaporte, sem roupa? Ri, fartei-me de rir! Só parei de rir quando uns dias depois, em Lisboa, pedi dinheiro emprestado ao meu irmão.
— Onde é que viu o desenho, o punho?
— Era um daqueles desenhos que estão em álbuns nas lojas onde fazem tatuagens. Acho que a loja se chama “O império del tatoo” e fica no centro de Torremolinos, ao pé da praça.
— Fez a tatuagem?
— Não, dessa vez não tinha dinheiro. Mas voltei lá, nunca mais esqueci o desenho. Voltei até várias vezes mas nunca o fazia; ou porque a casa estava fechada ou por causa do sol e do mar nunca fiz a tatuagem. Finalmente numa Primavera, uns 10 anos depois, fiz aqui o boneco que você viu. Fi-lo com a promessa de acrescentar um elo à cadeia a cada compromisso que aceitasse da vida. Um casamento, um filho, uma casa, sei lá uma prisão qualquer, pumba, mais um elo, até que não houvesse corpo para tatuar elos!
— Mas... tem poucos elos, disse eu, titubeante, perante a sofreguidão verbal do homem.
- ...Nos primeiros dias do Verão desse ano.
As lágrimas afloraram-lhe aos olhos, os desgraçados também choram.
— Nos primeiros dias do Verão desse ano, num acidente de carro, desfiz o meu corpo e a minha vida d’homem livre. A promessa de poucas semanas antes já não fazia sentido. Era agora eu que corria atrás dos compromissos, é que sabe, a liberdade não ajuda a viver e menos ainda ajuda a um desgraçado, tinha-me tornado um peso para a Segurança Social. E não pense que já sabe o resto porque a vida é para homens e não p'ra meninos!
— Eu, eu não penso nada.
— É melhor que continue assim. E por acaso não tem aí mais uma moedinha?
Não, não tinha mas acabei por dar-lhe uma nota de 500. No fundo devia ser pelo dinheiro que contava a história da tatuagem.
A conversa em Sta. Apolónia haveria um dia de me deixar maldisposto, só que naquela altura não tinha forma do saber; afastei-me por isso, satisfeito e com a sensação de dever cumprido: ouvira um pobre coitado e sustentara um vício. Tocavam já as trompetas no paraíso anunciando a minha chegada.
Enquanto me afastava pareceu-me ouvir entremeado por um riso meio demente meio jocoso:
— Pois é “menino”, o punho, esse continua com dois elos e meio. Se estivese no teu peito tinhas elos até ao cu.
O Professor

sábado, 19 de novembro de 2011

O casamento é perigoso

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A crise em 17-Nov-2011: Médicos a mais


Este post nasce a propósito de uma notícia do público: Ministro da Saúde diz que hospitais têm mil médicos a mais .
Há médicos a mais para o nosso nível de PIB, é claro que há, é um escândalo até sermos dos paises da OCDE com mais médicos, vejam os dados  da OCDE , temos 40% mais médicos que nos EUA ou na Inglaterra, 60% mais que no Canadá. Por curiosidade vejam quem tem 140% de médicos a mais que o Canadá.
Neste momento este governo está a fazer experiências num doente em estado terminal porque as terapias contrastadas não existem.
Sou anarquista e não me sinto com credibilidade para criticar estas medidas.

Desde os anos 80 que tem aumentado o diferencial de rendimentos* DO TRABALHO entre os 20% mais bem pagos e os 20% pior pagos (uma das consequências dos cortes salariais pode bem ser uma "melhoria" deste rácio de desigualdade- S80/S20 - mas isso não é claro porque a elite laboral tem meios para se defender; médicos, gestores , advogados, alguns funcionário públicos, sempre encontram forma de explorar os outros trabalhadores: os dominados dos dominados).
O aumento da desigualdade poderia ter sido combatido pelas próprias vítimas da desigualdade, pelo voto, ou pela sociedade como um todo mas não, a desigualdade aumentou mas a paz social também aumentou (um paradoxo aparente!!!), os anos 90 e 00 assistiram a uma diminuição severa da criminalidade na Tugalândia.
O milagre Tuga?
Nem por isso... assistimos, isso sim, à barbaridade de se conceder rios de crédito a gente de alto risco de "impago" enquanto as transferências para os mais pobres também aumentavam - RMI, Complemento Solidário para Idosos, etc. e tal... - sem o necessário aumento dos impostos. O melhor dos mundos: mais transferências sem um ajuste fiscal suficiente e crédito aos pobres em vez de dignos rendimentos do trabalho que, repito, foi sendo cada vez pior pago em termos relativos porque o S80/S20 continuou a aumentar, era de 3,9 em 1985 e de 4,8 em 2008*.

EU, e mais meio mundo estivemos tranquilamente instalados no poleirinho S20 sem nada fazermos, nada, nadinha, nicles, nem um reles postezito indignado pelo absurdo de ganharmos mais de 80% dos portugueses fazendo um trabalho meritório, sim, mas apenas tão útil como o das senhoras que limpam as escadas da escola onde dou aulas. Agora, alguns de nós escrevem posts no facebook a precisar de correcção urgente quando 25% dos portugueses ganha menos de 550 euros **.
Não temos dinheiro para pagar ao mesmo tempo: a educação que temos, a saúde que temos e O SILÊNCIO DOS POBRES que fizemos. Agora temos de escolher e este governo já escolheu.

* Ver slide 21 do estudo http://ffms.pt/upload/docs/a7bda47e-13e3-4432-9f88-e0055934d934.pdf .

** Ver slide 9 do mesmo estudo.

P.S.: Em último recurso antes de pensar, seja o que for, ler o estudo TODO em http://www.ffms.pt/upload/docs/e7256dbe-1ee6-4e94-a834-fda6ed9d9bf5.pdf .

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Daltónico o caralho!

Noite alta, no Aeroporto de Lisboa, um senhor bem vestido, acabado de chegar de viagem, apanha um táxi e pede ao taxista para o levar para a morada da sua casa. No caminho, vê uma senhora, também com muito bom aspecto, com um vestido vermelho, a entrar numa discoteca. De repente reconhece que se trata da sua própria mulher!
O senhor fica desvairado e pede ao taxista que volte até à porta da discoteca. Chegado lá, tira do bolso um maço de notas e diz para o taxista:
- Aqui estão mil euros. São seus se você tirar de dentro desta discoteca uma mulher vestida de vermelho. Mas, enquanto a arrasta cá para fora, vá-lhe dando uma valente carga de porrada, sem problemas, porque essa desgraçada é a minha esposa!
O taxista, que vivia com grandes dificuldades financeiras, aceita sem pensar duas vezes. Cinco minutos depois o taxista surge a sair pela porta da discoteca,arrastando pelos cabelos uma mulher, com o rosto a sangrar, toda rasgada e desgrenhada, e a gritar todas as asneiras que se possa imaginar. O senhor bem vestido, que tinha ficado no táxi, vê a cena e percebe, horrorizado, que a mulher está vestida de verde!
Sai do táxi a correr e grita para alertar o taxista do terrível erro.
- Pare! Pare! O senhor enganou-se. Não é essa senhora! Como é que você confundiu vermelho com verde ? O senhor é daltónico?
Ao que o taxista responde:
- Daltónico o caralho! Esta de verde é a minha... Já volto lá dentro para trazer a sua!

domingo, 13 de novembro de 2011

Sombra


Se a noite escura demora
Cativa dentro do meu peito
Pressinto quando me deito
A voz de alguém, que hoje não vem
E mora em mim a toda hora

Falando grave e escondido
Por entre as coisas reais
Suspende a força da vida
E não é ninguém, ah e não é ninguém
Somente sombra e nada mais

Porém a voz que se ouvia
Morre com a noite no cais
E o sol agora me alumia

Antonio Chainho - Sombra (Fado Nocturno) com Teresa Salgueiro

domingo, 6 de novembro de 2011

Fogo lá em casa

8 milhas de largura



Um momento de liberdade.
Um texto e um vídeo subversivos, a beleza de um corpo com órgãos (a actriz e o cavalo urinam simultaneamente no prado).
Do outro lado os abortos conceptuais, a princesa e príncipe encantado:
Comem, defecam, urinam?
Não, que horror, claro que não! E isso trai a sua verdadeira natureza, mais uma das reencarnações recorrentes de Jesus e a virgem... estamos entendidos?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Filho da puta

Uma mocinha vai-se confessar.

Mocinha : Padre, o Luciano é um Filho da Puta!
Padre : Não fale assim, minha filha. Todos nós somos filhos de Deus, todos somos irmãos.

Mocinha : Mas o senhor não sabe o que ele fez...
Padre : E o que ele fez?

Mocinha : Ele me deu beijo !!!
Padre : Olhe, eu também te dou um beijo e não sou Filho da Puta.

Mocinha : Ele tirou minha blusa !!!
Padre : Eu também estou tirando sua blusa e não sou Filho da Puta.

Mocinha : Ele tirou meu soutien !!!
Padre : Eu também estou tirando seu soutien e não sou Filho da Puta.

Mocinha : Ele tirou minha calcinha!!!!
Padre : Eu também estou tirando sua calcinha e não sou Filho da Puta.

Mocinha : Ele me comeu!!!!!
Padre : Eu também estou te comendo e não sou Filho da Puta.

Mocinha : Mas depois...
Padre : Diga, diga, diga...

Mocinha : Ele me disse que tinha SIDA...

Padre : FILHOOOOOO DA PUTAAAAA !!!

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640- Padres

Na prova final formaram uma fila,totalmente despidos, enquanto uma linda bailarina, boazona e exótica, totalmente nua, realizaria na frente de cada um deles, uma excitante dança oriental.
No "pirilau"de cada candidato, foi amarrado um sininho e, foi alertado que, quem fizesse o sino soar, não seria ordenado padre e estaria reprovado. Esse facto demonstraria que ainda não tinha alcançado o estado de pureza espiritual que a função requer.
A bela dançarina inicia a sua excitante dança na frente do primeiro candidato. Ele suportou galhardamente e não teve nenhum tipo de reacção. A mesma coisa aconteceu com o segundo, o terceiro, o quarto...
O Bispo estava maravilhado.
Quando a dançarina chegou ao último candidato, o sininho começou a badalar que nem um alucinado, a ponto de se soltar do "pirilau" e cair no chão. O candidato a padre, totalmente envergonhado inclinou-se para pegar o sininho e.....

Todos os outros sininhos começaram a tocar!!!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nihil

Reduzidos a um ponto
deslizando cansados
numa trajectória caótica
de noite em noite.

Na alma cindida do corpo
só um nada nos acompanha
outro ponto sobre a toalha
onde fingimos mais um banquete.

E somos conduzidos, lentamente,
de nada em nada, ao nada.





 
Lisboa, 01-Nov-2011