segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O planeta dos idiotas

domingo, 25 de dezembro de 2011

O escritor de Friburgo Michel Bavaud converte-se ao ateísmo aos 80 anos (traduzido)

O escritor cristão, chegado ao entardecer da sua vida, divorcia-se do cristianismo e fala de Deus como de “uma bela miragem"

Patrick Chuard | 12.12.2011 | 00:00

Pedagogo e escritor de Friburgo, Michel Bavaud lança uma pedra na pia de água benta. Envolvido há décadas com a Igreja católica, ele conta como se tornou ateu num livro onde acerta contas com Roma e a religião. O seu trâmite pretende ser um “sair do armário” pessoal mais do que um acto de militância, assegura ele, na sua cozinha de Treyvaux (FR) coroada ainda por um crucifixo. Diálogo com um «Indignado» da fé.



Você escreve que teria sido mais razoável deixar a fé «nas pontas dos pés, como tantos outros». Porque não o fez?
Não dizer que me tornei ateu seria uma mentira e uma cobardia. Muita gente veio ao longo dos anos pedir-me conselhos espirituais. Há religiosos entre os meus amigos. Seria desonesto não dizer o que penso realmente. Pode-se comparar com um homossexual que sente necessidade de fazer públicas as suas preferências

Uma necessidade de se confessar?
De facto, escrevi no ano 2000 no meu Epístola ao romano que apesar das minhas cóleras contra Roma, e as minhas decepções, eu continuava na Igreja. Tendo escrito isso, devo hoje ser honesto dizendo que isso mudou. Depois que me reformei, tive tempo de reflectir. A resposta às perguntas que sempre me pus veio progressivamente, como uma convicção. De alguma forma converti-me ao ateísmo.

Pode-se dizer de maneira banal que você já não vai mais à missa, eis tudo?
Ah não, eu ainda vou à missa! É um hábito, um momento de reflexão, de poesia. Há belos vitrais, um coro que não canta mal, uma atmosfera. Mas já não oiço os sermões graças à minha excelente surdez. (risos.) Ainda tenho crucifixos na minha casa, seria ridículo removê-los agora.

Mas então porque critica tão ferozmente a Igreja?
Rejeito o Vaticano, é verdade, a infalibilidade papal, a obediência cega a uma Igreja que condena, que excomunga. Já não suporto mais ser manobrado por essa autoridade, que tergiversa sobre os detalhes. O Concílio Vaticano II foi um momento de grande esperança, o início de um degelo fantástico, e depois a Igreja voltou atrás em tudo. Benedito XVI será perfeito como guarda de museu.

Advogaria pelo protestantismo?
Não, o primeiro problema, são as escrituras. Nós deveríamos reconhecer que a Bíblia, como também o Corão, não é a palavra de Deus, mas sim a dos homens. Talvez estivessem inspirados, mas se você escrever uma carta de amor, também o estará. Claro que há lá dentro belas histórias, como Jonas e a sua baleia. Isso vale por Ali Baba e os 40 ladrões, mas nem mais nem menos. A Bíblia não se aguenta de pé. É tempo de tirar a maiúscula da palavra Escrituras. E eu não concebo a teologia como outra coisa que não seja a libertação das injustiças, como um compromisso social. A oração é inútil para melhorar o mundo, para vestir os pobres e para curar os doentes.

Você acusa claramente Deus de ser um relojoeiro malfeitor!
Rejeito a existência do Deus da Bíblia, senão seria um Deus abominável. Ele teria cometido o pior genocídio da Historia ao provocar o dilúvio. Na semana passada, incinerámos a minha neta, que tinha 6 meses. Ao vê-la no CHUV com os seus aparelhos, foi insuportável. O Deus do amor não existe. Podem sempre contar-me que o mal está no mundo para permitir a liberdade do Homem, mas é inadmissível. Deus seria então um perverso. A Bíblia diz-nos que Jesus fazia milagres, então porque não move Deus nem a ponta de um dedo? Onde estão os milagres? Eu gostaria de ver os peregrinos sem pernas voltarem de Lurdes a caminhar.

Reconhecer que já não é crente foi doloroso?
Sim, recebi Deus como herança na minha educação. E é doloroso saber que esse Pai infinitamente bom não está lá. Isso deixa-vos órfãos. E depois eu sei que vou escandalizar muita gente de que gosto e continuo a gostar, tenho medo dos magoar. Depois que a o La Liberté consagrou um artigo ao meu livro, recebi em casa correios muito duros, por vezes anónimos. E os leitores do jornal não me obsolviam. As pessoas tratavam-me por renegado, infiel.

Não ganhou amigos no campo dos ateus?
Eu temo ser rejeitado pelos dois lados. Da parte dos crentes, mas também da parte dos ateus porque não sou um desses militantes que querem partir tudo. Eu, sinto-me mais próximo de um ateísmo tranquilo de um André Comte-Sponville que do dum Michel Onfray. Continuo a sonhar com uma forte religiosidade. É para inocentar Deus que eu o nego, esse Deus que tentei servir com o meu melhor e que se me tornou odioso. Mas se eu me enganei, se Deus existe, então que ele me acolha de braços abertos depois da minha morte…

Mas você continua a invocar o Deus que nega!
Continuamos ligados às coisas que amámos… Eu deixo Deus às boas, poderíamos dizer que é um divórcio amigável.

«Dieu, ce beau mirage»
Michel Bavaud. Ed. L’Aire, 2011.

P.S.: Para ouvir uma entrevista extraordinária abrir o arquivo de audio seguinte ou visitar o site da emissão:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Peregrinos

Vejo o cortejo dos peregrinos
os de sempre com novas caras
cansados, velhos escravos livres
serviçais frescos de novos senhores.

Junto-me-lhes convicto
sobreviver apenas
crisálida de mopane
regressando à terra.

Alguns ficam pelas estalagens
no caminho, em troca de nada
tratam os cavalos, cozinham
educam os filho do novo amo.

Estarei nos primeiros,
uma gamela vazia
a servir de prato
palha seca de leito.

Levo a velha chibata
disfarçada, cerzida ao peito,
sem uso algum, gesto vão
d'antiga e inútil dignidade.

Por bolor verde  e saudade cinza
de quando vez passo-lhe pano seco
e fantasio banquetes com meninas vadias
em poses indignas das filhas do dono.

Lisboa, 18 de Dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

(sem título)

Sinto o caos, a derradeira das parcas
tecendo-me lentamente a envoltura da alma.
Finalmente um pouco de sossego
no doce refluxo do Mundo.

Excluo-me do jogo de sombras.
Visto-me em nome do belo,
recebo em troca farrapos de frio
fealdade em troncos escuros.

Mas mesmo quando caio
nunca sei se o escuro dos olhos
me salvará realmente de mim
e a cama me resgata à dor.

No lugar do gozo da vida
foi colocada outra coisa,
tenaz como a chuva de Outono,
que me vive colada ao corpo.

Lisboa, 16 de Dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Como provocar mulheres

boca sexyNo geral provocação é baseada no comportamento, embora mulheres tenham a vantagem de demonstrar com roupas e acessórios: um decote, salto alto, maquiagem ressaltando os olhos ou a boca, jeito de andar; são artifícios facéis para mulheres se destacarem das outras e apartir dai utilizar o comportamento provocativo.
Em matéria de provocação não tem como os homens quererem disputar com as mulheres, nós temos mais tempo expendido nesta área, portanto mais experiência.
Pra nós mulheres, provocar é tão normal que, algumas acabam esquecendo de evoluir do estágio de provocação e caem no rotúlo de Sweet ass.
Mas, quero divagar é sobre o como vocês homens podem provocar nós mulheres. Um leitor sugeriu o tema por msn, portanto aqui estou…
Acredito que ninguém negaria que a provocação está entre as três coisas mais instigantes do relacionamento, digo isso dado ao fato de diversas pessoas assumirem que têm maior interesse naquelas pessoas que apenas dão a entender, que não deixam extremamente claro o interesse.
Na minha concepção são escassos os homens que sabem provocar, mesmo porque homem e provocação são duas palavras que não se encaixam muito bem. É da natureza masculina ir diretamente ao assunto, ser prático e direcionado, se o homem quer te dar uns pegas de uma noite ele chega, te coloca de canto e faz o serviço, simples, prático e econômico.
Geralmente, pela minha experiência, homem que fica com provocaçãozinha está apenas te manuseando destino a geladeira, embora existam também os poucos casos onde o cara gosta de jogar um charme pra evitar a fadiga e o desgaste de ir até a garota e levar um fora. Neste caso a provocação ou serve pra saber se ela está na dele e ele poder ‘correr pro abraço’, ou serve pra instigar-la até a mesma se cansar da brincadeira e partir, ela mesma, pra finalização.
Óbvio que para os homens isso não funcionaria. Pra eles o artifício mais comum é demonstrar provocação com os olhos, tenho que confessar que a maneira de olhar e o tom de voz são duas coisas que me fazem cair de quatro, literalmente. 
Fixar o olhar na “presa”, usar um tom de voz cordial porém sexy, olhar pra boca dela enquanto ela fala, dar indiretas sútis, usar movimentos leves (não bruscos), estar a mais ou menos um palmo de distância enquanto conversa sobre qualquer assunto, economizar sorrisos pra sorrir na hora certa, demonstrar interesse sem demonstrar pressa, deixa qualquer mulher caidinha.
Acredito que todos vocês já ouviram falar que homem é mais visual e mulher é mais sensitiva (audição, olfato, tato), é por isso que costumo dizer que as mulheres que sabem provocar são aquelas consideradas sensuais/sexys, quemostram alguma coisa mas não tudo o que você gostaria de ver, numa comparação eu diria que é como fotos da revista VIP.
Já os homens que sabem provocar são os charmosos, aqueles que sabem fingir que o objetivo dele não é só te levar pra cama/motel/carro/escada de incêndio/drive-in/etc. Aquele que antes da pegação nos dá tempo de imaginar o quão bom de pegada ele pode ser, muitos estão por ai rotulados como cafajestes.
Demorar a ligar no dia seguinte e não marcar o próximo encontro já de cara também é uma boa provocação, nos deixa intigadas e curiosas, mas tem que saber deixar as coisas no ar e saber com que mulher usar, porque sempre tem aquela insegura que vai ficar no seu pé até você perder a paciência e mandar ela ir andando.

See ya little boys.
Acid Girl

Viva España (Cara al Sol!)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Amor e morte

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A morte não nos diz respeito (Carta a Meneceu)

Epicuro a Meneceu, saudações.
Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o futuro. Temos portanto de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para a obter.
Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retêm a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.
Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.
Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado. A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são.
Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa mas sim a da mais feliz.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido mas, uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades.
Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.
Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa de fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas. Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congénere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
Encaramos a auto-suficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.
De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.
Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas acções não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas acções merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planeado nas nossas acções do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planeado.
Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.
Epicuro
Tradução de Desidério Murcho

Nota do tradutor
Esta é uma tradução da tradução inglesa anónima disponível no site da Universidade da Colúmbia. Esta tradução supera claramente a tradução de Brad Inwood e L. P. Gerson (Hackett) e a mais antiga de Robert Drew Hicks, iluminando algumas partes do texto que até agora eram algo incongruentes.