quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Querido fiz xixi na cama! Ou as minhas vergonhosas aventuras no mundo da sexualidade feminina

Altas horas da madrugada peguei na tese de mestrado "Para além da dor: fantasias de prazer, poder e entrega" da Ana Mota (1), que há meses jaz na minha mesa. Achei curioso que o Freire diga no livro Fantasias eróticas. Segredos das mulheres portuguesas, Lisboa, A Esfera dos Livros que o Albuquerque diz que "Alguns estudos nesta área apontam para uma prevalência da submissão nos homens (à razão de vinte submissos para um dominador), enquanto, nas mulheres, os números revelam o contrário (há mais dominadoras do que submissas)". Fui pesquisar e caí neste post pavoroso. E lembrei-me de que nunca me disseram:
- Querido fiz xixi na cama!
Mas podiam ter dito...
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Faço a minha declaração de interesses:
Sempre fui fraquinho na cama e não tem havido melhorias. Assemelho-me aliás ao meu pequeno mestre, Montaigne que tinha um "sexo curto, também não muito grosso (...) pequeno que logo se torna inoperante"(2). Mas Montaigne torna-se especialista no minete e "... ele confidencia seu talento para fazer da necessidade uma virtude, passando noites mais a acariciar de que a cavalgar à maneira soldadesca"(2), eu não, até há uns 10 anos atrás nem sabia a localização exacta do clítoris, hoje sei onde fica mas desconheço o essencial do que fazer com ele, às vezes tão esquivo outras tão assoberbado.
Não é pois de espantar que, ao contrário da quase totalidade dos homens que conheço, virtuais especialistas em "surras de pau" desde a adolescência, fartíssimos de mudar lençóis molhados, elas a mim nunca me tenham molhado a cama. Até que, recém entrado nos 30, no Jamaica, convenci uma moça de uns 38 anos a servir-me. Pela manhã, leva-me para casa, abre a cama pega num atoalhado turco, estende-o no lençol e deita-se em cima dele e abre as pernas. Pensei várias coisas: é fetichista, esta é a toalha da queca, vai-se cagar/mijar, ou eu sei lá bem o que se vai passar aqui e agora! Mas como a cona dada não se olha os pentelhos, lá me instalei, meio receoso, entre as pernas da cidadã. Veio-se rapidamente, grande mancha de molhado na toalha, terminámos a função com simpatia e a vida seguiu. Pensei:
- Coitada, tão nova e já incontinente, se calhar alguma consequência de um parto.
Passados uns 5 anos um golpe de sorte, levo para casa uma enfezada simpática, e trás, pás, pim, pam, pum, 5 manchas no meu rico edredão azul aos quadrados!
Puta que a pariu, ela foi dormir a casa e eu ia ter de dormir no molhado. Estranho, as manchas desapareceram mais rápido do que previsto, não tinham cheiro algum, e recordava que o líquido era transparente. Uma pesquisa rápida no google e lá veio a trilogia:
Ponto G, Glândulas de Skene e idade acima dos 30 anos - diminuição do espessamento da parede vaginal com consequente facilitação de estimulação do ponto G.
Et voilà, afinal tudo pelo melhor no melhor dos mundos e nada de xixi na cama, querida!
Nos últimos anos, provavelmente fruto da crise dos 40, já me molharam a cama mais algumas cidadãs, um par delas abaixo dos 25 e descobri até um truque para IMPEDIR que me molhem a cama. Como o segredo é a alma do negócio, só ensino o truque aos felizes contemplados com uma ejaculadora abundante que me enviarem uma mensagem com o assunto, "Ó grande guru da cama molhada, ilumina-me", de contrário, nada feito, continuem a mudar os lençóis ou a ter sexo sentados num banco, na cozinha, que depois é só passar a esfregona.


(1) As minhas desculpas à autora mas não há cu que aguente aquela introdução....
(2) Contra-história da filosofia - 2: o cristianismo hedonista, de Michel Onfray, Editora Martins Fontes, São Paulo, Brasil

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Patti Smith - Os reis magos



A ouvir em repeat.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Nada de novo para (me) dizer ao mundo

Ando sem nada de novo para me dizer.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Tetrapharmakon

[...] a sociedade do tempo de Epicuro era uma sociedade doente. Os homens acreditavam que era preciso muito dinheiro, luxúria e fama para alguém poder ser feliz. O medo da morte e do sofrimento estava plantado em seus corações. Toda a miséria humana era causada pelas falsas crenças e pelos desejos sem limites, que nelas eram fundados. Epicuro partia da pressuposição de que a sociedade humana era corrompida e era sua influência que corrompia os homens e os fazia miseráveis.
As crenças que mais faziam os homens infelizes eram o medo dos deuses, o medo do sofrimento e o medo da morte. Para curá-los dessas crenças, o filósofo dispunha de um tetrapharmakon, ou seja, de um quádruplo remédio: não há nada a temer quanto aos deuses, não há nada a temer quanto à morte, a dor é suportável e a felicidade está ao alcance de todos.

1. Não se deve temer os deuses, porque eles não se ocupam nem se preocupam com os homens, como imagina o povo, nem são os artífices do mundo como pensam os filósofos. Eles existem porque a natureza imprimiu suas pré-noções e imagens em nossas almas, mas eles não são como nós os representamos ou imaginamos. Por isso, não se deve temê-los e muito menos temer seus castigos.

2. Não se deve temer a morte, porque nada mais absurdo do que o medo da morte, uma vez que ela não é outra coisa senão uma instantânea dissolução dos átomos que constituem nosso ser e isto é inteiramente insensível. O que amedronta os mortais é imaginar a passagem da vida para a morte, mas essa passagem não tem sentido, pois não existe um além-da-morte. Esta acontece num instante, e, nesse instante, a vida termina e nada mais se pode sentir. Inútil, pois, a preocupação com a morte: “enquanto somos, ela não existe, e quando ela chegar, nós nada mais seremos”.

3. A dor pode ser suportada. O grande mal que ameaça a existência dos mortais é indiscutivelmente a dor, pois a aponia (ausência de dor) é o segredo da felicidade. Mas Epicuro acredita que se pode facilmente desprezar esta ameaça, porque os sofrimentos mais intensos têm breve duração e, se persistem por muito tempo, causam a morte. Ora, como já foi dito, da morte nada há que se temer. Quanto aos pequenos sofrimentos, esses são facilmente suportáveis.

4. Pode-se alcançar a felicidade, porque o prazer quando buscado corretamente está à disposição de todos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Compor com o corpo

Leão
 
Sinto o sangue correr-me pela garganta,
menos um dia, já faltou pouco.

O trespasse oleado pela dor
não deixa atrás a alvorada.

Ficam na Terra os lugares amados,
de quem amou e deixou de amar um corpo.
Num navio doente, compomos
facilmente com a morte.
Michel de Montaigne                              

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vamos salvar a espécie

Vamos salvar a espécie?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A arte do chamulho

À propensão das mulheres para se prostituirem, de forma não identificável como tal*, respondem os homens com o engano; fazem-se passar por mais saudaveis, mais generosos, mais poderosos ou mais ricos do que são.
Somos escravos da necessidade, sei-o bem. A reprodução reina no tempo da juventude, a busca do melhor macho reprodutor não se limita à floresta, veio até à cidade e quem não tem os atributos certos não tem de aceitar essa condição passivamente. Não deposito portanto nenhum juízo moral sobre estas duas faces da mesma moeda, a prostituição socialmente aceite e a manha dos homens...
A nobre arte de enganar mulheres que prometem copular em troca de algo mais do que a simples cópula tem nome em Buenos Aires, chama-se "El arte del chamuyo", uma velha palavra de origem castelhana: chamullo, "Palabrería que tiene el propósito de impresionar o convencer". Buenos Aires? Sim, pensem no que é o tango, o seu ritual, o seu propósito. E imaginem uma cultura de homens ensinados desde tenra idade que las minas têm de ser enganadas e levadas ao castigo com manha. Ao pé de um porteño todos somos uns amadores.
Uma busca rápida no google e logo nos primeiros dois resultados me saíram duas pérolas de sabedoria, aqui e aqui. Os porteños são o nec plus ultra de sedução planetária. E as mulheres, mesmo fingindo-se ofendidas, adoram-nos. Em Buenos aires até Agnes Gonxha Bojaxhiu teria perdido os 3, poupando-nos ao triste espetáculo da sua paixão triste pela renúncia ao próprio corpo, esse bem supremo e nossa única propriedade..




(*) A prostituição tem muitas formas e feitios e uma mulher saudável prostituiu-se alguma vez, prostitui-se ou vai prostituir-se. A mais velha profissão do mundo não é a prostituição porque a prostituição é mais velha do que o mundo, um chimpanzé do topo da hierarquia, se captura uma iguaria tem sempre duas escolhas: comê-la ou dá-la a uma fêmea em troca de sexo. As fêmeas primatas usam o sexo para fazer alianças de proteção, para conseguir alimento, para conseguir poder, etc... . Como dizia o meu velho pai, quem tem uma cona tem uma quinta, quem tem uma picha não tem um caralho.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Vinhas doidas

Videira (cepa)
As plantas têm uma alma simples, uma alma de planta (clicar em caso de dúvida!). Uma alma tropical, para sobreviver no frio das almas da Europa, tem de ficar "estranha", enlouquecer o bastante. Uma flor do sul que viaje para o Norte, uma flor vadia, em 6 meses murcha... tem de regressar ao solo do sul para reverdescer ou morre por dentro.
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Vou contar um pouco da história de uma planta enviada pelos Deuses, a videira. Uma viajante para o sul. Uma viajante que enlouqueceu.
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A videira é uma trepadeira da Europa, é nobre, antiga, vive vidas longas, mais de 100 anos, vê os homens vir e passar;
Parreira em Óbidos - foto Rafael Teixeira de Lima
forte e estóica gosta de maus solos, gosta de uma vida difícil, é estranha e diferente das demais plantas. Ao mesmo tempo tem uma vida bonita e se for bem tratada é feliz. A usamos para enfeitar as casas como se fosse uma hera. O meu pai plantou uma em frente da porta de casa, a minha mãe encarregou-se da destruir por maldade e ciume.
Diante da casa, saudando os visitantes e dando sombra, chama-se parreira, os amigos ficam debaixo dela. As parreiras são longevas e dão uvas doces e tardias. Temos carinho pelas vinhas e pelas parreiras....
Adicionar legenda


Em Outubro as videiras pressentem o Inverno, o frio, a neve, e lentamente perdem as folhas e adormecem, gostam até de ser cortadas, carinhosamente decepadas : "podadas".
Com a Primavera adiantada renascem para a vida, depois 6 meses de sono, ansiosas, brutais, dionisíacas (como devem ser sempre as almas nas suas Primaveras!).
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O meu pai contou-me a explicação para o longo canto nocturno do rouxinol. Um conto popular que fala da brutalidade da vida na videira.
 
O canto do rouxinol

Certa noite quente de Maio, passou Nossa Senhora por um caminho estreito, ao lado de uma vinha. Estava luar, tudo era sereno e quieto; mas de repente a Virgem Maria ouviu perto dela piar um passarinho, em queixa triste e cheia de aflição.
Tomada de Pena, Nossa Senhora correu para o passarinho aflito e viu um rouxinol preso pela gavinha duma videira.
Tendo desenleado carinhosamente as patas da avezinha, a Virgem recomendou-lhe que não se deixasse adormecer assim, enquanto crescessem os braços da videira.
Ficou muito contente o rouxinol liberto, por já poder voar. E, desde então, canta sempre de noite, para não adormecer, e diz, agradecido, em seus trinados, estes lindos versos:
Nossa Senhora disse… disse… disse…
Que, enquanto o gavião da videira subisse, que não dormisse, que não dormisse… que não dormisse…
Quando ouvirdes cantar o rouxinol, vede se ele não parece repetir ainda:
Nossa Senhora disse… disse… disse…

Velhinhos assando castanhas para o magusto
Depois dessa explosão vital a cepa dá as uvas, amadurecem até Agosto,  em Setembro são colhidas, pelo São Martinho provamos o vinho novo  com castanhas assadas, fazemos um magusto e cantamos as nossas vinhas.
Em Outubro a videira volta a adormecer, um ciclo mágico, perfeito de 365 dias... ela sabe quando é tempo de dormir, acordar, amar, frutificar e  adormecer. Talvez até saiba quando é preciso morrer. Tem uma alma sã e sábia, como poucos homens têm.

Um dia uma videira foi levada para o Brasil, para Petrolina,  lá não há Inverno nem Primavera nem Verão nem Outono; como é uma planta forte sobreviveu à provação dos trópicos mas pagou o mais alto dos preços: a cepa enlouqueceu.

"Videiras em Petrolina não adormecem
uvas e mais uvas, sem cessar...
cepas doidas, cepas desamadas
sem poetas que as saibam cantar".

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O caminho do meio

Jesus, Judas e Pedro caminham pela Judeia e deparam com um rio caudaloso. Judas diz:
-É pá! Que rio! Como vamos atravessar, mestre?
- Caminhando sobre as águas, Judas.
- Oh Cristo, olha que eu não sei nadar, retorque Judas!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim e não te afogarás!
Avança Pedro e atravessa, quase caminhando sobre as águas, com a água apenas pelos tornozelos. A seguir vai Jesus e, como era seu costume, caminha calmamente sobre as águas.
Judas começa por sua vez a travessia. Desconfiado, como sempre. Com medo de se afogar. Dá um passo e já tem a água pelos joelhos... Diz, assustado:
- Oh Cristo, olha que eu não sei nadar!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim e não te afogarás!
Dá outro passo e já tem água pela cintura. Com a voz esganiçada diz:
- Oh Cristo, olha que eu já te disse que não sei nadar!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim, não te afogarás!
Dá mais um passo e já só tem a cabeça fora de água. Com Judas quase a afogar-se diz Pedro para Jesus:
- Ó mestre, ensina-lhe o caminho pelas pedras ou ele afoga-se mesmo!

P.S.: O bom senso manda ir pelo caminho das pedras, o caminho do meio, o caminho do meio-dia de Albert Camus, mas sei que certas pessoas simplesmente não conseguem ir por aí...
Quanto a mim o faço o que me custar menos, o que maximizar a minha liberdade e autonomia. Em cada caso reservo-me o direito de decidir: umas vezes as pedras, outras aprender a nadar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Deus mandou matar Malala

Malala Yousufzai – foto Nighat Dad
Numa longa mensagem enviada há quase 1400 anos, Deus, mandou matar Malala.
Em vez de ser ele a fazer o trabalho sujo, por exemplo fazer explodir a cabeça da miúda, como uma melancia, em pleno vale de Swat. Não, Deus preferiu mandar a mensagem e deixar que os assassinos fossemos nós. Deixar que a nossa ridícula razão interpretasse as suas palavras e premisse o gatilho.
E se Deus não puder ser compreendido pelos humanos?
Se todos os textos sagrados não passarem de imposturas religiosas fruto da nossa incompreensão do Criador?
E se todos os homens de Deus fossem afinal homens do Diabo?

“Apesar de ela ser nova e uma menina e de os taliban não acreditarem em ataques a mulheres, qualquer um que faça campanha contra o islão e a sharia deve ser morto, segundo a sharia”, explicava há dias o porta-voz do grupo no comunicado em que o ataque foi reivindicado. “Não é apenas permitido matar uma pessoa assim, mas obrigatório.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Da riqueza e da pobreza material

O que é a propriedade?
Descobri que para que existam ricos é necessário que haja pobres a quem os primeiros possam comprar parte da vida (horas de trabalho).
Não tinha a certeza, no fundo talvez pudéssemos acabar com a pobreza sem acabar com os ricos. Mas não é possível porque a riqueza é essencialmente definida pela possibilidade da compra de pedaços baratos de vidas alheias (horas de trabalho) com custos baixos para que a riqueza não se delapide rapidamente.
A ideia nada tem de original mas ainda não tinha percebido a falácia da direita e da esquerda moderada quando dizem que "não queremos acabar com os ricos, queremos é acabar com os pobres". A riqueza é horas de trabalho dos outros, acumuladas por um.
Não quero dizer que seja injusto podermos comprar pedaços de servidão voluntária de outrem, pelo contrário; todos o fazemos quando vamos ao médico ou temos aulas.
Mas o que dizer das heranças, os teus filhos já nascerem com direito à servidão dos meus ainda por nascer?

A ler O que é a Propriedade de Proudhon

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As mulheres de Camus ( II )

Quando no futuro se falar em D. Juan vai-se falar em Albert Camus. Principalmente pela vida que viveu mas também pelo capítulo que dedica ao Burlador de Sevilha em O mito de Sísifo.
Camus não é um sedutor qualquer, ele é o que é perdoado facilmente pelas suas conquistas: o grande sedutor. As mulheres perdoam aos grandes sedutores e apenas se sentem usadas pelos medíocres.
Para quem não gosta de sedutores deixo o link do artigo do Guardian, aqui . Acho-o mal escrito e cheio de incorreções mas vai acalmar os corações das senhoras e senhores que acham que o amor é lindo se for um homem e uma mulher, somente.
Fica de seguida uma recente entrevista da filha, Catherine Camus, a um jornal catalão, Las mujeres de Camus e um texto sobre a biografia de Oliver Todd, “Camus and his Women”.

As mulheres de Camus

texto original de  Héctor Aguilar Camín

"Nos últimos dias de Dezembro de 1959 o escritor Albert Camus, que havia ganho o prémio Nobel dois anos antes, escreveu 4 cartas de urgência amorosa.
Preparava o seu regreso a Paris depois de umas férias com a sua esposa e os seus filhos na casa da família em Lourmarin, onde se havia refugiado para começar a escrita de um projecto tão ambicioso como Guerra e paz, de Tolstoi.
Em 29 de Dezembro escreveu: “Esta terrível separação fez-nos pelo menos sentir como nunca a constante necessidade que temos um do outro”.
Em 30 de Dezembro escreveu: “Só para dizer-te que chego Terça-Feira de carro. Faz-me tão feliz a ideia de ver-te outra vez que me rio enquanto escrevo”.
Em 31 de Dezembro escreveu: “Vejo-te na Terça-Feira, meu amor, e já te beijo antecipadamente e te bendigo desde o fundo do meu coração”.
Uma carta mais estabelecia as datas de um encontro prometido em Nova York.
O notável destas cartas de fervor extraconjugal é que estavam dirigidas não a uma mas sim a quatro mulheres diferentes.
A primeira, uma jovem pintora dinamarquesa, chamada Mi, a quem Camus havia seduzido no Café de Fiore. A segunda, uma actriz e directora de teatro de vanguarda, Catherine Sellers, cujo marido faria mais tarde para a BBC o papel masculino da adaptação cinematográfica de A queda [autor: Albert Camus]. A terceira, María Casares, a actriz espanhola consagrada em França, com quem Camus mantinha uma relação amorosa há já dezasseis anos.
A viagem planeada a Nova York era para encontrar Patricia Blake, uma editora da revista Vogue que Camus tinha conhecido e conquistado numa viajem aos Estados Unidos em 1946.
Camus não foi a nenhum destes encontros. No dia 2 de Janeiro de 1960 dirigia-se a eles rumo a París, a bordo do potente carro Facel Vega do seu amigo Michel Gallimard, que conduzia com Camus ao lado, e a sua esposa, sua filha e cão no banco traseiro.
Depois de jantar e dormir em Sens, no dia seguinte, no quilómetro 25 de estrada de Paris, o Facel Vega derrapou, saiu da estrada, bateu numa árvore, depois bateu noutra e terminou a sua deriva. As mulheres saíram ilesas, Michel ficou mortalmente ferido, Camus morreu imediatamente. O cão desapareceu.
Quando morreu, Camus tenía 46 anos, estava na plenitude do seu talento literário e da sua expansão vital, a vida entrava e saía em grandes avenidas por ele, quando o rostro do absurdo, ao que havia olhado sem titubear toda a sua vida, o surpreendeu no caminho."

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mamas e gatos

domingo, 9 de setembro de 2012

O grilo e a vontade

Grilo macho
Grilo fêmea - "grila"
Grilo e a sua toca
Num buraco da soleira da porta do meu prédio, no rés-do-chão, vive um grilo. À tarde e à noite, desde Junho, ele canta ininterruptamente, durante horas. Já não o posso ouvir mas como me ensina filosofia também não o expulsei de lá.
Desde que fiz 6 anos os grilos começaram a ensinar-me filosofia, política e moral. Poucos professores foram tão influentes no meu pensamento como o foram os grilos.
Em relação aos meus professores humanos os grilos têm três vantagens: são todos parecidos, vivem vidas parecidas e sabem viver.
Não é raro que os animais ensinem filosofia aos filósofos, por exemplo foi um rato que ensinou a viver ao meu mestre Diógenes. Era um rato como os outros ratos. Sábio como todos os ratos.
Aliás, nos livros escolares dos nossos pais havia um grilo, ufano da sua beleza e canto que acabava a ser enjaulado numa caixa - um ensinamento moral adequado `ditadura de Salaz: não te evidencies, não chames à atenção ou fodem-te!
Como dizia, sou discípulo de grilos desde os 6 anos e vou contar-te como tudo começou.
Um dia a minha mãe ensinou-me como apanhar, caçar, um grilo e a diferenciar os grilos que cantam e têm 2 rabos das grilas que não cantam e têm 3 rabos.
Como os grilos não gostam de ser apanhados por mulheres, o moço resistiu um bocado. Quando a minha mãe se aproximou escondeu-se bem fundo dentro da sua toca. Achei estranho mas essa foi a primeira lição filosófica que me deu para toda a vida: se vais foder alguém não esperes que ele colabore!
A minha mãe não desistiu. Explicou-me que a toca do grilo é justinha para ele entrar e como tinha entrado de cabeça para baixo tinha o rabo virado para cima. Então ela pegou num feno fino e flexível e enfiou-o no buraco, ofendidíssimo pelo desplante de lhe enfiarem um feno no cu, o parvo do grilo saiu cá para fora, foi apanhado e colocado num saco de plástico. Hoje eu aprenderia muitas lições deste gesto digno do meu professor grilo mas na altura - tinha 6 anos - aprendi apenas uma segunda lição filosófica: se alguém te quer mesmo foder não importa o quão forte ou sábio sejas, vais ser fodido!
Gaiola para grilos
A continuação da história é a habitual entre os camponeses: à noite, à lareira, o pai faz uma gaiola de cana, coloca o grilo lá dentro e tapa a abertura com um pedaço de cortiça, cortado à medida. Aqui ao lado está uma dessas gaiolas com um erro de concepção fácil de corrigir: a greta demasiado grande do lado direito permitiria facilmente ao grilo fugir.
E alí ficou um grilo encarcerado - fodido - suspenso de um prego na lareira, alimentado com pequenos pedaços de folha de alface. Criança, eu era feliz de vê-lo, escuro e luzidio com as suas pequenas manchinhas amarelas, e mais ainda de escutá-lo cantar e filosofar. E ensinou-me uma terceira lição filosófica: podes estar a foder alguém mas se lhe dás boa comida, ele até canta!
Durante uns dias fui o orgulhoso Dono de um grilo. Como Dono tinha de fazer a  manutenção da gaiola, o que  é facilitado pelas gretas na cana. Bastava pegar na gaiola e abanar, caiam os restos de alface e as caganitas defecadas. O que me ensinou uma quarta lição filosófica: se és Dono de alguém também és dono da merda que faz!
Entretanto a novidade esmoreceu e deixei de ser cuidadoso com o meu professor. Um dia à noite, ao chegar a casa, a gaiola estava vazia, o grilo tinha roído parte da cana, aberto um buraco e fugido. Essa foi a quinta lição filosófica que me ensinou: se alguém quer mesmo que deixes do foder, podes ter a certeza que deixarás do foder!
Desde então, desde aquele longínquo Verão, passei eu a caçar os meus grilos professores. Nunca dominei a técnica do feno fino no cu e por isso inventei uma outra mais eficiente. Após ter experimentado métodos brutos ou ineficientes, fazia-me acompanhar de uma garrafa de água, detectava a toca, deitava calmamente lá para dentro um fio de água e o instinto do mestre-grilo fazia o resto, perante a evidência de inundação saía da toca às arrecuas e se era formoso eu apanhava-o, leva-o para casa e metia-o na gaiola que entretanto tinha aprendido a fazer. Foi então que começaram a surgir as surpresas contrárias aos ensinamentos de meu pai e da igreja. Inundava a cova e para meu espanto às vezes saiam dois grilos, um grilo e duas grilas, dois grilos e duas grilas, ou até combinações ainda mais estranhas. Aprendi assim a sexta lição filosófica, a última de que me recordo: quando a tesão aperta aquilo que dizem que os animais fazem não é o que os animais fazem!
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Passaram quase 40 anos sem que voltasse a ter um grilo por professor até que este se instalou num buraco da soleira da porta do rés-do-chão. Veio ensinar-me que Schopenhauer estava correto e que os cristãos estão errados: não há um sentido para a vida, para o mundo ou para a humanidade. Veio recordar-me que somos escravos de uma vontade cega, sem sentido, da qual não escapamos e que temos a nossa liberdade reduzida a NADA. Concluiu dizendo-me que o livre arbítrio foi uma invenção oportunista, uma ilusão de liberdade e responsabilidade, para permitir o castigo dos erros morais - pecados - e a fantasia do Juízo final. Há meses que repete a lição, o que é normal num bom professor e só hoje a entendi com clareza, o que também é normal porque a partir de certa idade temos dificuldades de aprendizagem.
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E como ensina ele a sua lição?
Com simplicidade, como todos os grilos sábios, friccionando as asas e cantando horas a fio. Bom, suponho que se alimente de algo e faça a higiene pessoal mas certamente não fará mais nada: é um grilo. E grilos não têm dúvidas morais, problemas de consciência, não querem deixar de ser grilos ou ser grilos depois da morte, provavelmente nem sabem que vão morrer. Se têm fome, comem, se têm vontade de cagar, cagam. Se têm vontade de cantar, cantam. Nem sequer sabem que eu existo.
Mais importante é que não sabe que está fora de lugar. Mas que faz um grilo numa rua, no coração da cidade de Lisboa, no meio do Bairro Alto, a quilômetros da grila mais próxima, cantando para atrair grilas e ameaçando grilos que não existem, durante meses a fio: sem desfalecer, sem hesitar um instante, sempre feliz?
Simplesmente segue a uma vontade cega, amoral, cumprindo com um papel que não escolheu mas que se pensasse julgaria ser o seu,  tal qual como eu e como tu, leitor.

sábado, 8 de setembro de 2012

Un cañón en el culo

La primera operación que efectúa el terrorista económico sobre su víctima es la del terrorista convencional, el del tiro en la nuca


Si lo hemos entendido bien, y no era fácil porque somos un poco bobos, la economía financiera es a la economía real lo que el señor feudal al siervo, lo que el amo al esclavo, lo que la metrópoli a la colonia, lo que el capitalista manchesteriano al obrero sobreexplotado. La economía financiera es el enemigo de clase de la economía real, con la que juega como un cerdo occidental con el cuerpo de un niño en un burdel asiático. Ese cerdo hijo de puta puede hacer, por ejemplo, que tu producción de trigo se aprecie o se deprecie dos años antes de que la hayas sembrado. En efecto, puede comprarte, y sin que tú te enteres de la operación, una cosecha inexistente y vendérsela a un tercero que se la venderá a un cuarto y este a un quinto y puede conseguir, según sus intereses, que a lo largo de ese proceso delirante el precio de ese trigo quimérico se dispare o se hunda sin que tú ganes más si sube, aunque te irás a la mierda si baja. Si baja demasiado, quizá no te compense sembrarlo, pero habrás quedado endeudado sin comerlo ni beberlo para el resto de tu vida, quizá vayas a la cárcel o a la horca por ello, depende de la zona geográfica en la que hayas caído, aunque no hay ninguna segura. De eso trata la economía financiera.
Estamos hablando, para ejemplificar, de la cosecha de un individuo, pero lo que el cerdo hijo de puta compra por lo general es un país entero y a precio de risa, un país con todos sus ciudadanos dentro, digamos que con gente real que se levanta realmente a las seis de mañana y se acuesta de verdad a las doce de la noche. Un país que desde la perspectiva del terrorista financiero no es más que un tablero de juegos reunidos en el que un conjunto de Clicks de Famóbil se mueve de un lado a otro como se mueven las fichas por el juego de la Oca.
La primera operación que efectúa el terrorista financiero sobre su víctima es la del terrorista convencional, el del tiro en la nuca. Es decir, la desprovee del carácter de persona, la cosifica. Una vez convertida en cosa, importa poco si tiene hijos o padres, si se ha levantado con unas décimas de fiebre, si se encuentra en un proceso de divorcio o si no ha dormido porque está preparando unas oposiciones. Nada de eso cuenta para la economía financiera ni para el terrorista económico que acaba de colocar su dedo en el mapa, sobre un país, este, da lo mismo, y dice “compro” o dice “vendo” con la impunidad con la que el que juega al Monopoly compra o vende propiedades inmobiliarias de mentira.
Cuando el terrorista financiero compra o vende, convierte en irreal el trabajo genuino de miles o millones de personas que antes de ir al tajo han dejado en una guardería estatal, donde todavía las haya, a sus hijos, productos de consumo también, los hijos, de ese ejército de cabrones protegidos por los gobiernos de medio mundo, pero sobreprotegidos desde luego por esa cosa que venimos llamando Europa o Unión Europea o, en términos más simples, Alemania, a cuyas arcas se desvían hoy, ahora, en el momento mismo en el que usted lee estas líneas, miles de millones de euros que estaban en las nuestras.
Y se desvían no en un movimiento racional ni justo ni legítimo, se desvían en un movimiento especulativo alentado por Merkel con la complicidad de todos los gobiernos de la llamada zona euro. Usted y yo, con nuestras décimas de fiebre, con nuestros hijos sin guardería o sin trabajo, con nuestro padre enfermo y sin ayudas para la dependencia, con nuestros sufrimientos morales o nuestros gozos sentimentales, usted y yo ya hemos sido cosificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, ya no poseemos las cualidades humanas que nos hacen dignos de la empatía de nuestros congéneres. Ya somos mera mercancía a la que se puede expulsar de la residencia de ancianos, del hospital, de la escuela pública, hemos devenido en algo despreciable, como ese pobre tipo al que el terrorista por antonomasia está a punto de dar un tiro en la nuca en nombre de Dios o de la patria.
A usted y a mí nos están colocando en los bajos del tren una bomba diaria llamada prima de riesgo, por ejemplo, o intereses a siete años, en el nombre de la economía financiera. Vamos a reventón diario, a masacre diaria y hay autores materiales de esa colocación y responsables intelectuales de esas acciones terroristas que quedan impunes entre otras cosas porque los terroristas se presentan a las elecciones y hasta las ganan y porque hay detrás de ellos importantes grupos mediáticos que dan legitimidad a los movimientos especulativos de los que somos víctimas.
La economía financiera, si vamos entendiéndolo, significa que el que te compró aquella cosecha inexistente era un cabrón con los papeles en regla. ¿Tenías tú libertad para no vendérsela? De ninguna manera. Se la habría comprado a tu vecino o al vecino de tu vecino. La actividad principal de la economía financiera consiste en alterar el precio de las cosas, delito prohibido cuando se da a pequeña escala, pero alentado por las autoridades cuando sus magnitudes se salen de los gráficos.
Aquí están alterando el precio de nuestras vidas cada día sin que nadie le ponga remedio, es más, enviando a las fuerzas del orden contra quienes tratan de hacerlo. Y vive Dios que las fuerzas del orden se emplean a fondo en la protección de ese hijo de puta que le vendió a usted, por medio de una estafa autorizada, un producto financiero, es decir, un objeto irreal en el que usted invirtió a lo mejor los ahorros reales de toda su vida. Le vendió humo el muy cerdo amparado por las leyes del Estado que son ya las leyes de la economía financiera, puesto que están a su servicio.
En la economía real, para que una lechuga nazca hay que sembrarla y cuidarla y darle el tiempo preciso para que se desarrolle. Luego hay que recolectarla, claro, y envasarla y distribuirla y facturarla a 30, 60 o 90 días. Una cantidad enorme de tiempo y de energías para obtener unos céntimos, que dividirás con el Estado, a través de los impuestos, para costear los servicios comunes que ahora nos están reduciendo porque la economía financiera ha dado un traspié y hay que sacarla del bache. La economía financiera no se conforma con la plusvalía del capitalismo clásico, necesita también de nuestra sangre y en ello está, por eso juega con nuestra sanidad pública y con nuestra enseñanza y con nuestra justicia al modo en que un terrorista enfermo, valga la redundancia, juega metiendo el cañón de su pistola por el culo de su secuestrado.
Llevan ya cuatro años metiéndonos por el culo ese cañón. Y con la complicidad de los nuestros.

texto original publicado no El País em 14-Agosto-2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Os homens são violadores

Que monstruosidade! Em que mundo vive quem pensa assim?
   Foto de mau gosto...
Azar, o blog é meu!
Esta frase foi-me repetida esta noite numa conversa de café por um convicto holandês acompanhado da sua loira mulher ou namorada. Rebati a tese com o pouco que sei sobre este assunto.

Não dou para o peditório dos relativismos, mesmo se muitas vezes concedo nas tautologias discursivas do "a maioria", ou do "em geral", só para não ter de aturar essa gente que se julga superior a mim porque me chama à atenção para que "não se pode generalizar" como se eu fosse um ignorante - sou, mas não tanto - quando digo que os cágados nascem com 4 patas, certamente devo ignorar que alguns nascem só com 3 patas e outros com 5; ou quando digo que os seres humanos têm 46 cromossomas devo ignorar que uma percentagem importante dos seres humanos têm trissomia 21 e por isso têm 47 cromossomas. Em geral o não-podes-generalizador refuta assim a afirmação do interlocutor e afivela no rosto uma expressão triunfal, qual matador na arena diante do touro ensanguentado a seus pés, pronto a cortar uma orelha da besta atávica sob o aplauso geral. É lindo!

Deixando de lado esses relativismos de pacotilha, a pergunta que importa fazer é se este preconceito dos "homens violadores" tem, ou não tem, pernas para andar. Durante muito tempo achei que sim, hoje acho que não. E a chave está na incompreensão das fantasias sexuais na economia de Onã.
Será que sou eu que estou errado e grande parte dos homens são,  violadores de facto, ou sê-lo-ião se a oportunidade se apresentasse - violadores de conveniência?

A sorte de Onã é que Deus é bondoso e, por isso,
apenas o condenou eternamente ao fogo do Inferno
por ejacular fora da cunhada.
in The Book of Genesis Illustrated
Para rebater a tese do interlocutor comparei duas realidades que conheço mal: em Portugal há poucas violações, como Deus manda violar* uma mulher; na Índia há muitas violações como deve de ser*. Não me ocorreu nada melhor perante o horror de tal afirmação que vejo como típica da misandria feminista - apoiadas no Freud que lhes convém.

O que sei é que a maioria dos homens - não tenho dados... - têm fantasias como violador e que cerca de 50% das mulheres tem fantasias de ser forçada a ter sexo. Em linha com a dinâmica das fantasias masturbatórias em que as mulheres tendem a imaginar que lhes fazem coisas e os homens a imaginar que fazem coisas.
Mas isso quer dizer que boa parte dos homens são violadores e metade das  mulheres querem ser violadas?
Acaso ainda não sabemos o papel da fantasia na nossa economia onanista?

É claro que a literatura está cheia de violações e os filmes também!
Não é por acaso que chamamos aos romances e guiões de filmes "punhetas mentais" de escritores e cineastas...
E de fantasias ficamos entendidos se dissermos que a maioria de nós já fantasiou voar, ser sobre-humano, matar alguém, ser príncipe ou princesa; e não é por isso verdade que somos megalómanos, assassinos, super-heróis ou pássaros!

Conheci poucos violadores como Deus manda*, e apenas não posso dizer que não conheci nenhum porque no quartel, onde fui sargento durante muitos anos, havia vários criminosos da guerra em África.
Tenho por hábito perguntar às minhas amantes ou amigas (se puder chegar a esse nível de confiança) o seu passado de abuso sexual. Das centenas de conversas registo duas violadas, basicamente com o mesmo padrão - discrição, agressão, ameaça com arma, cópula desajeitada e resolução - e muitas dezenas (a maioria dos relatos) de abusos sexuais por pessoas próximas - quase sempre um dos primeiros namorados. Violações como Deus manda*, apenas duas, menos de 1%.
Arriscaria que na nossa sociedade há menos de 10% de mulheres violadas e como os violadores tendem a ser seriais deve haver menos de 5% de homens que alguma vez tenham violado uma mulher.
Se são violadores as convenções sociais inibem-nos, falta-lhes coragem?
Ou seja, somos violadores mas apenas 1 em 20, ou ainda menos, violámos uma mulher?
Abano a cabeça, não faz sentido!
Seria o mesmo que dizer que os ciganos são ladrões e apenas 5% dos ciganos alguma vez roubou na vida.
Ou que os homens gostam de assassinar pessoas e apenas 5% alguma vez o fez. E por aí fora...
A realidade não colabora com o meu freudismo primário e quando a realidade não colabora com os seus preconceitos o filósofo muda de preconceitos...
Talvez os homens afinal não sejam violadores e apenas os homens sociopatas o possam ser.

(*) O violador como Deus manda, ou violador como deve de ser - violador comme il faut, em francês que é mais fino! - age isoladamente, procura ser discreto e usa alguma arma para coagir a vítima.
Só quem nunca violou ninguém pode imaginar que um homem de mãos nuas consegue imobilizar uma mulher adulta e ao mesmo tempo penetrá-la em condições - há uma cena no final do filme "Robin Hood" de 1991 em que o mau - Sheriff George of Nottingham - nem sequer consegue concentrar-se para copular com a boazinha - Marian Dubois - com quem acabou de casar, por causa do barulho das pancadas - not again! - na porta (ver aqui)!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tourada nos Açores

domingo, 19 de agosto de 2012

Porque é que o sexo faz as mulheres apaixonarem-se?


Porque é que o sexo faz as mulheres apaixonarem-se?

O sexo é uma das nossas maiores preocupações – causa emoções, sofrimento e confusão generalizada. Até há pouco tempo, saber exatamente o que acontece no cérebro durante o sexo, era algo misterioso para os cientistas. Recentemente, investigadores americanos descobriram o que se passa na cabeça de uma mulher durante um orgasmo.

Cientistas da Universidade de Rutgers, Nova Jersey, utilizaram scaners para monitorizar o cérebro das mulheres durante o orgasmo e descobriram que partes diferentes do cérebro são ativadas quando as várias partes do corpo são estimuladas. Descobriram que mais de 30 áreas do cérebro são ativadas, incluindo as áreas responsáveis pela emoção, toque, alegria, satisfação e memória. Os cientistas descobriram que dois minutos antes do orgasmo são ativados os centros de recompensa do cérebro. Estas são as áreas geralmente ativadas quando comemos ou bebemos. Imediatamente antes de atingirem o pico do orgasmo, outras áreas do cérebro são afetadas, como o córtex sensorial, que recebe mensagens das diferentes partes do corpo. A última zona do cérebro a ser ativada é o hipotálamo, zona que controla e regula a temperatura, fome, sede e cansaço. Os cientistas também descobriram que excitação sexual entorpece o sistema nervoso feminino de tal forma que uma mulher fica mais insensível à dor, e só sente prazer.

A equipe espera agora mapear o que acontece no cérebro de um homem durante o orgasmo.

Quisemos saber o que se passa nas nossas cabeças quando nos enfiamos debaixo dos lençóis e pedimos aos especialistas para nos revelarem como o sexo altera os nossos cérebros.

Por que é que o amor dói

Uma hormona muito importante libertada durante o sexo é a ocitocina, também conhecida como o "hormona do aconchego ou do abraço", que faz baixar as nossas defesas e faz com que confiemos nos outros, diz o Dr. Arun Ghosh, um GP especializado em saúde sexual do Hospital de Liverpool Spire. Esta hormona é a responsável pelo aumento dos níveis de empatia, e embora não sejam conhecidas as razões, o facto é que as mulheres produzem mais esta hormona durante o sexo, e isto significa que elas são mais propensas a baixar as defesas e se apaixonarem pelo homem depois do sexo. No entanto, o problema é que o corpo não consegue distinguir se a pessoa com quem estamos é uma queca casual ou um possível relacionamento e a ocitocina é libertada da mesma forma. Enquanto ela pode ajudar a ligar-se com o amor da sua vida, é também a razão pela qual que você pode sentir-se tão infeliz quando termina uma relação.

Os Homens, por outro lado, em vez de obterem um aumento da hormona da empatia, recebem uma onda de prazer simples. "O problema é que, quando um homem tem um orgasmo, a principal hormona libertada é a dopamina (a hormona do prazer). E este aumento pode ser viciante," diz Ghosh. É por isso que muitos mais homens tendem a sofrer de dependência de sexo.

Livrarmo-nos da demência

todos nós temos a consciência de que nossas células cerebrais diminuem com a idade. A boa notícia, é que fazer sexo regularmente pode ajudar a crescer novas células cerebrais, de acordo com cientistas da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. E segundo parece, quando mais sexo se tem, mais células fazemos crescer. Estudos com animais, publicados na revista PloS ONE, demonstram que o sexo estimula o crescimento de células cerebrais no hipocampo, parte do cérebro responsável pela memória e aprendizagem. Factores como o stress e a depressão, diminuem o hipocampo, o exercício e o sexo neutralizam este efeito. Além disso, o sexo protege as nossas células cerebrais do declinio. "há indícios de que pessoas mais velhas que são sexualmente ativas são menos propensos a ter demência e isso pode acontecer por uma variedade de razões complexas" diz Ghosh. O sexo causa aumento do fluxo sanguíneo para o cérebro, o que melhora os níveis de oxigênio. "Exames de ressonância magnética mostraram que, durante o orgasmo, os neurônios no cérebro são mais ativos e usam mais oxigênio," explica Barry Komisaruk, professor de psicologia na Universidade de Rutgers e das maiores autoridades sobre sexo e neurociência. "Quanto mais ativos forem os neurónios, mais oxigénio eles retiram do sangue, e mais sangue oxigenado é enviado para a região, entregando assim um reforço de frescos nutrientes." Ao mesmo tempo que estimula as células do cérebro, sexo também pode aguçar a mente de uma mulher, diz Ghosh. Isso é devido ao aumento das hormonas sexuais, principalmente a testosterona, que pode ajudar a melhorar a concentração e tempos de reação.

Beijar significa melhor sexo

Os lábios estão repletos de terminações nervosas, 100 vezes mais do que as pontas dos dedos. É por isso que beijar faz disparar múltiplos mecanismos no cérebro, que libertam substâncias químicas que fazem baixar o stress e aumentar o humor. "Você vai ter muito melhor sexo se beijar antes da relação sexual", diz Ghosh. Ele aumenta os níveis de hormonas de prazer e você ficará muito mais receptivo ao que acontecer a seguir. "É por isso que o sexo amoroso pode ser mais gratificante do que uma rapidinha – e essa dose de endorfina e dopamina é especialmente importante para as mulheres."

Um analgésico natural

O Orgasmo (mais do que o sexo) pode bloquear os sinais de dor, diz Komisaruk. Na verdade, diz ele, pode elevar o limiar de dor, tanto como o equivalente na morfina que é três vezes a dose de analgésicos usuais.

Poder da mente

Muitas das pesquisas sobre saúde sexual concentram-se no que acontece fisicamente. Mas especialistas dizem que, para muitas pessoas (principalmente mulheres) a mente desempenha um papel fundamental para atingirem o orgasmo. Enquanto os cérebros masculinos tendem a focar a estimulação física envolvida no contato sexual, a chave para a excitação feminina parece ser um relaxamento profundo e ausência de ansiedade. Os scaners mostram que, durante o sexo, as partes do cérebro responsáveis pelo processamento do medo, ansiedade e emoção feminina começam a relaxar mais e mais, atingindo um pico no orgasmo, quando a ansiedade e emoção estão efetivamente desligados no cérebro feminino.

sábado, 18 de agosto de 2012

Violência no Jardim ( II )

Continua a minha eterna surpresa perante a alma feminina...

Os resultados de 20 estudos publicados na revista Psychology Today mostram que entre 31% a 57% das mulheres fantasiam com serem forçadas a ter sexo. “Mulheres a sonharem com cenas de violação é um terreno onde se cruza desconfortavelmente o eros com a política”, diz Daniel Bergner, que está a trabalhar num livro sobre desejo feminino que vai ser publicado no próximo ano. “É um terreno onde a realidade não coincide com aquilo que dizemos.”

Os investigadores e psicólogos com quem falou para escrever o artigo O que querem as mulheres , que o New York Times publicou em 2009, pareceram-lhe relutantes em usar a expressão “fantasia de violação”. E, em ensaios académicos, a ideia deixa até nervosas e a desculparem-se as mulheres que a relatam.

Por definição, “fantasias” são algo que não se controla. Mas parecem estar a dizer-nos alguma coisa sobre as mulheres que todas preferiam esconder. Uma das fontes de Bergner preferiu chamar-lhes “fantasias da submissão”; outro disse “é o querer estar para além da vontade, para além do raciocínio”.

As feministas ficam perplexas com o nosso contínuo investimento nestas fantasias na esfera do romance, neste desejo residual de se ser controlada ou dominada. Têm vindo publicamente denunciar a quantidade de mulheres poderosas, bem sucedidas e independentes que se deixam enredar em fantasias (e realidade, claro, mas isso é outra história) de submissão. Estas mulheres “foram educadas a acreditar que sexo e dominação são sinónimos”, escreve Gloria Steinem, e que, de uma vez por todas, temos de “separar o que é sexo do que é agressão”. Mas talvez sexo e agressão não possam ou, melhor, não devam ser separados.

Também não têm sido poucas as opinadoras de esquerda que perguntam: “Foi para isto que lutámos?” Mas é claro que estas lutas sempre foram irrelevantes para a vida íntima. Quando perguntaram à brilhante pensadora feminista Simone de Beauvoir se a sua subjugação a Jean-Paul Sartre na sua vida pessoal contrariava as teorias feministas que professava, respondeu: “Bem, estou-me nas tintas. Lamento desapontar todas as feministas, mas posso dizer que é pena que muitas delas vivam só da teoria em vez da vida real.”
Também Daphne Merkin, jornalista da New Yorker, na sua controversa e reveladora meditação sobre a sua própria obsessão com o espancamento, especulou sobre a tensão entre a sua identidade como “mulher poderosa” e os seus desejos por punições sexuais infantilizadas. “Igualdade entre homens e mulheres, ou tão-somente o seu pretexto, dá imenso trabalho e pode nem ser o caminho mais seguro para a excitação sexual.”

Será talvez inconveniente para o feminismo que a imaginação erótica não se submeta à política, (...)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MS 13 - Conversão à misantropia

Desde 1986 que leio verdadeiramente o Mundo.
Ontem passei horas a ler e a ver vídeos sobre algo que desconhecia, o MS-13.
Vivendo em Portugal, tem sido a Europa Ocidental o meu pátio de leitura privilegiada. Desde os anos 80 que essa Europa vive um longo período de estagnação. Muitos países conseguiram maquilhar o aspecto económico com o recurso à dívida e o aspecto cultural com comportamentos e processos histriónicos como a publicidade agressiva a sucessos de somenos importância, jogos olímpicos por exemplo,  e a vanguarda na arte do cocó.
A crise actual vem pôr a nu, já não somente a não evolução como me parece também um retrocesso e impreparação para as dificuldades.
Em Julho de 1986 atravessei a fronteira de Vilar Formoso com a intenção de conhecer verdadeiramente a minha Europa. Com pouquíssimo dinheiro - recordo que tinha apenas 170 dólares dividido em notas de $10, uma para cada dia; como descobri rapidamente, com as comissões cambiais, seriam 17 dias de sol e fome - coloquei-me estrategicamente à boleia em Fuentes de Oñoro, diante do "Centro Comercial". Na mão uma placa de papelão que dizia em letras gordas: "SALAMANCA". Plano A, estudante em Coimbra, queria conhecer a universidade irmã.
Alfa Romeo Sprint Veloce de 1985
Não conheci Salamanca, era cedo para isso. Antes do meio-dia parou um carro desportivo, um Alfa Romeo Sprint Veloce de matrícula suíça. Às 5h30 da manhã do dia seguinte deitei-me, para descansar, debaixo de enormes cedros num parque público de Genebra. Pelo sistema de estradas da altura, estava a 2000 km de Coimbra. Nesse Verão passei uma semana a renovar os abrigos anti-nucleares de Genebra. Não gastei quase um tostão e ganhei mais $230. O pederasta argentino chefe da equipa com que trabalhei ainda me deu mais $40 do seu próprio bolso.
Bulldog Palace
Continuei o périplo com um tour por Lausane, Lucerne, Zurique e Lugano, ainda na Suíça, atravessei a Itália do norte até Trieste e daí, tranquilamente entrei a pé na Jugoslávia de Tito (morto há poucos anos), ainda unificada, optimista e esplendidamente comunista. O país fervilhava de vida mesmo se na fronteira só mostrando a minha fortuna de dólares me tivessem permitido passar. Após outra semana do outro lado do muro fiz uma longa viagem até Hamburgo, cruzando lentamente de sul a norte, a Áustria e a Alemanha. Deu tempo para visitar um amigo em Colónia, ver os dois primeiros homens a beijarem-se longamente num bar da cidade. Acelerar a 200 km/h numa auto-estrada de 4 faixas a caminho de Amsterdão; fumar uma ganza legal no Buldog Palace e surpreender-me com o tipo de mulheres que verdadeiramente entesam os homens, no Dam. Até o meu tipo lá estava.
Longos dias em Paris à cata de fantasmas no Café de Fiore e nos Deux Magots e regresso a casa com um par de dias de paragem no país basco francês, algo que se tornaria rotina nos anos seguintes. Madrid de passagem e um dia em Salamanca. Ao todo uns 10.000 km na Europa que seria a do euro.
Religiosamente, durante uma década, repeti viagens deste tipo, desde a Noruega à Grécia. Depois comecei a viajar de forma quase burguesa e perdi a ligação aos países que visitei e passou a ser impossível uma visão profunda - não cabe aqui contar as confissões espantosas que algumas pessoas fazem a um estrangeiro que levam entre duas cidades e a quem sabem nunca mais verão, recordo um homem que me passou 2 horas a dizer como ia matar a mulher e o amante se os surpreendesse ao chegar a casa;  era meia noite e regressava à sua cidade, de surpresa...

Passaram 26 anos, uma geração, o que mudou?
Para começar mudei eu. Não tanto como é natural. A Jugoslávia desapareceu. Em muitos aspectos a Espanha e Portugal mudaram muito e assemelham-se hoje à França e Alemanha de então. A Itália mudou algo, a Holanda mudou pouco, Áustria, França, Alemanha Ocidental e Suíça, quase nada.
Esta Europa globalizou-se economicamente, é um facto. Mas as sociedades não mudaram de forma importante para lá da habitual "espuma dos dias" - modas e modos de consumo.
Sinto porém que houve um retrocesso preocupante. Todas as sociedades se tornaram mais incultas e as pulsões egoístas anti-solidárias esperam apenas uma oportunidade para se mostrarem em todo o seu esplendor de crueldade. Ao contrário de há 26 anos o TER é o único valor aglutinante, o SER perdeu o seu valor. De que vale hoje SER sério, SER culto, SER honesto, SER cientista, SER um Homem?
Ou pelo menos que vale isso comparado com o TER um ferrari, TER um bom trabalho na bolsa de valores, TER dinheiro, TER um cartão de crédito platina, TER um estúdio na zona chique da cidade, TER um iPhone 4, TER uma bolsa versacce e uns sapatos gucci, TER jeito para cantar, TER jeito para o futebol?
Se há área afectada por esta crise é certamente  a do TER. 
O fenómeno MS 13 mostrou-me que uma das fragilidades destas sociedades que substituíram completamente o SER pelo TER é a vasta massa de jovens funcionalmente analfabetos - sobretudo rapazes - que na ausência do TER julgam a sua vida sem um sentido e se dispõem a morrer e matar para manter o status que os filhos dos detentores de capital têm. O PISA aponta para que em Portugal sejam cerca de 25% o número de rapazes de 15 anos (ver aqui) que não sabe ler apesar de estarem a concluir o ensino básico (9ºano de escolaridade) - 21% nos EUA, 46% no México e 56% no Brasil. E a pergunta óbvia é: O que andaram estes rapazes a fazer na escola, durante estes 9 anos?
Enquanto o estado é forte e a sociedade generosa - penso aqui na educação grátis e de qualidade, assistência médica pública generalizada, e apoios sociais às "colectividades" e aos mais pobres - fenómenos como o Mara Salvatrucha são facilmente contidos em bolsas de exclusão social onde os afectados são quase exclusivamente os trabalhadores pobres que têm de viver nesses "bairros" de exclusão social de facto. Pergunto é o que acontecerá quando o estado estiver descredibilizado - pelo mau uso que faz dos nossos impostos - e a sociedade deixar de ser generosa como parece inevitável neste momento em que se corta despesas sociais a torto e a direito e parecemos condenados a passar 30 anos a pagar as dívidas que contraímos?
O nosso MS 13 espera-nos ao virar da esquina desta brutal crise económica mas também crise de cultura e inteligência.  



Vejam os exames de 1966 e de 2012

domingo, 12 de agosto de 2012

Exame da 4ª classe de 1966

Português (5) 


Matemática (5 e 12) 






domingo, 15 de julho de 2012

DEI

Se há uma razão para sermos homens, não a vislumbro
para lá da simples vontade do sermos;
uma força  que nos empurra como às ervas do jardim,
uma vontade infinita de sermos felizes.

Falam-me duma improbabilidade, Deus.
Há que dizer "sim, está bem", e seguir adiante. 
Mas rio-me como o homem adulto ri
das infantilidades duma criança feliz.

Não, não sou como tu, Søren.
Um Deus absurdo não serve,
o absurdo em nada precisa Dele
passa bem só com o acaso.

E também para quê acreditar
num Criador louco, mau ou vazio
que gera o frio e o caos
em vez da doçura da justiça?

Lisboa, 26 de Dezembro de 1996


terça-feira, 10 de julho de 2012

Dou a volta, caralho!

 

- Mas digo-te de caras, humm.
 Este ano, para ir a Portugal, eu não passo pela Espanha. Dou a volta, caralho! Ou passo por cima, já!

sábado, 7 de julho de 2012

Humanos

Ontem, a ler Charles Darwin, dei-me conta do profundo respeito e admiração que esse grande homem tinha pelos humanos. De uma forma um tanto condescendente comigo mesmo, nunca tinha lido este autor. Ao ponto de, pelas leituras de outros, o não ter em grande consideração.
Sou cínico por natureza, por isso sempre me resultou estranho que algumas pessoas (como Hobbes) achem que os homens são intrinsecamente maus e egoístas quando é evidente que somos (também) tão generosos e sociais. Tornados solitários somos profundamente infelizes. Quem leu Robinson Crusoe recorda certamente a alegria que sentiu (eu senti) quando finalmente deixou de estar só na ilha e apareceu 6ª Feira. Nunca entendi a irracionalidade dessa gente que apregoa que somos lobos uns para os outros. Finalmente, com o tempo, comecei a entender o seu ponto de vista*.

Darwin nada teve a ver com essa perversão que é o darwinismo social, de facto Darwin acreditava nos Homens e a sua filosofia testemunha a favor dos "instintos sociais" entre os animais, e portanto entre os humanos; estabelecendo que o amor e a simpatia, esses dois instintos naturais, jogaram um papel maior na construção da cultura contemporânea. Efectivamente, os animais têm prazer na companhia dos seus semelhantes, apercebem-se do perigo e combatem-no juntos, associando-se defendem-se.

É por demais evidente que "os homens têm mais a admirar que a desprezar" (A. Camus).
Assim, num relance, recordo 2 canções admiráveis, feitas por seres humanos, de uma beleza suprema, arrepiante, em português (e galego):

"Menina dos olhos tristes" "Pra Habana!" (canto V)
Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar
Este vaise i aquel vaise,
e todos, todos se van.
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.

Tés, en cambio,orfos e orfas
e campos de soledad,
e pais que non teñen fillos
e fillos que non tén pais.

E tés corazós que sufren
longas ausencias mortás,
viudas de vivos e mortos
que ninguén consolará.

















(*) O funcionamento do cérebro humano é irracional e cometemos dois erros irracionais típicos, ignoramos o que é esperado e desvalorizamos o que não vai ao encontro dos nossos preconceitos - princípio da confirmação.
Ora o que é esperado em sociedade é que as pessoas sejam educadas, que os outros carros não se cruzem na  frente do nosso, que as pessoas não se choquem nos passeios, que os nossos conhecidos nos cumprimentem, que as crianças perdidas sejam ajudadas a procurar os pais, que os cegos sejam ajudados a atravessar a rua, que os deficientes vejam as cadeiras de rodas empurradas, que sejamos excessivamente tolerantes com as chochices dos velhos e a estupidez das crianças, etc..., aquilo a que se chama civilidade, o nosso cérebro não regista estes momentos "normais".
Por outro lado há um grande grupo de pessoas que passaram a acreditar na maldade dos homens - e isso precisa ser explicado - e os media apoiam essa visão. Todos os dias se lançam dezenas de pessoas à água para salvar gente que se está a afogar, ou se evitam atropelamentos arriscando ser atropelado; milhares de pessoas ajudam cegos a atravessar a rua, outros milhares carregam compras de velhinhas, outros milhares facilitam a vida a deficientes e velhos, dezenas de adultos ajudam crianças perdidas, milhares de pessoas que têm fome e não têm dinheiro vêem a sua fome saciada, etc... e os telejornais abrem quase sempre com um assalto ou outra maldade qualquer. Pessoas que acreditam que o homem é o lobo do homem confirmam o seu preconceito, ignorando os episódios que o contrariam.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os homens são as novas mulheres


Original no blog "Nada Importa"
 
"Não entendo nada.
Não sei se saben - e se não, aquí estou eu para recordá-lo - mas giro um - muito prescindível - Formspring donde tinem respostas a perguntas vitais: banalidades sobre mulheres, vinhos, cabelos, restaurantes e problemas. Problemas com mulheres, claro.
Pois bem, estas últimas semanas ando aterrorizado. Com cada nova pergunta sobre como pentear a uma dama - aham - um escalafrío percorre a minha espinha. Vejo-os: “- Eu (outra vez) disse-lhe que ficássemos alguma vez sem estarmos bêbados… que realmente tinha interesse em ver se podíamos ter algo mais. Quando lhe mandei um sms para que confirmássemos o dia para nos encontrarmos não me respondeu. Estou muito triste”.

Que caralho se está a passar?
Sinto-me um pouco como (continuar a ler)."
Original no blog "Nada Importa"

E se os homens e a as mulheres trocassem de papel?

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pirão de peixe

Pergunta:
- E se no Mundo, para aplacarmos a fome,  apenas houvesse pirão de peixe, o que seria um sábio?
Resposta:
- Simples, o sábio iria "conhecer o Pirão, querer o Pirão, amar o Pirão, contentar-se com ele, nunca recriminar contra ele, desejá-lo tal como é, e, consequência destas práticas teóricas e existenciais, desfrutar do Pirão, encontrar-se [com ele] como peixe na água, sem jamais se questionar das suas relações com o pirão, eis por palavras toda a sabedoria" num Mundo só com pirão de peixe.
Pergunta:
- E se no Mundo apenas houvesse pirão de peixe, o que fariam as pessoas vulgares?
Resposta:
- Simples, o que fazemos [eu incluído!] de costume, sofrer e ser infelizes porque desconheceríamos o Pirão, não quereríamos o Pirão, não gostaríamos de Pirão, não nos contentaríamos com ele, imaginaríamos as mais diversas iguarias neste e no outro Mundo, recriminaríamos contra ele, desejaríamos outro pirão, e, consequência destas práticas teóricas e existenciais, detestaríamos o Pirão, encontrar-nos-íamos [com ele] como peixe fora de água, sempre a questionar a nossa infeliz presença neste pirão de peixe e seriamos profundamente insatisfeitos e incapazes de desfrutar, eis por palavras a raiz da miséria dos homens.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Estado de Sítio



Página
13 Homens falando: "A Espanha não, homem, a Espanha não!"
17 Nada: "Eu, Nada (...) bêbado por desdém de todas as coisas."
17 Nada: "a vida vale a morte, o homem é feito de madeira de que se fazem as fogueiras."
18 Nada: "Não vocês não estão na ordem, vocês estão na fila. bem alinhados, de ar tranquilo, vocês estão maduros para a calamidade."
18 Nada: "Li nos livros que vale mais ser cúmplice do céu que sua vítima."
21 Nada: "E nada desta Terra, nem rei, nem cometa, nem moral, estarão nunca acima de mim!"
Página
31
Diego:
"Cem anos depois de eu morrer
Poodia a Terra perguntar-me
Se eu já te tinha esquecido
Que eu responderia ainda não!"
67 O Coro: "O nosso coração não era inocente mas amávamos o Mundo e os seus Verões." 
81 Nada: "Estou farto de dizer que não estou morto!"
86 A Morte: "A nossa convicção é que vocês são culpados"
98 Mulher: "A justiça é as crianças comerem o que têm na vontade e não terem frio. A justiça é os meus meninos viverem. Deitei-os ao Mundo numa Terra de alegria. O mar deu-lhes a água do baptismo. Eles não têm precisão de outras riquezas. Não peço para eles senão o pão de cada dia e o sono dos pobres. Não é pedir muito, mas é isso que vocês me recusam. E se recusarem aos infelizes o pão, não haverá luxo, nem lindas falas, nem promessas misteriosas que façam perdoar uma coisa tal."
Nada: "Deveis preferir viver de joelhos a morrerem de pé, para que o universo encontre a sua ordem..."
104 O Juiz: "Se o crime se torna lei, deixa de ser crime"
110 A mulher do juiz: "... o direito (...) está do lado dos que sofrem, gemem e esperam. Não está, não pode estar, com os que calculam e amontoam."
111 A mulher do juiz, adúltera, para o juiz:
"... sei, na minha miséria, que a carne tem as suas faltas, enquanto o coração tem os seus crimes."
117 Diego, marcado pela peste, para a sua amada Vitória: "Morre ao menos comigo."
129 A Morte: "É o meu rol de lavadeira! Eis tudo!"
133 Diego: "Cada um de nós está só por causa da cobardia dos outros."
135 A Morte: "... bastou sempre que um Homem dominasse o seu medo e se revoltasse para que a máquina começasse a ranger. Não digo que ela chegue a parar, não é caso para isso. Mas , enfim, a máquina range e, algumas vezes, acaba mesmo por se avariar."
143 O Coro: "Nós temos sempre pago tudo com a moeda da miséria. É na verdade necessário pagar com a moeda do nosso sangue? "
154 Diego: "Nem medo nem ódio. Silêncio. é essa a nossa vitória.
154 A Peste: "Eu sou aquele que azeda o vinho e seca os frutos. Eu mato o ramo de vinha se ele quer dar uvas, reverdeço-o se o querem utilizar para o lume. Tenho horror às vossas alegrias simples. Tenho horror a este país [Espanha] onde se pretende ser livre sem ser rico. Tenho as prisões, os carrascos, a força, o sangue! A cidade será arrasada e, sobre os seus escombros, a história agonizará enfim no belo silêncio das sociedades perfeitas. Solêncio, pois, ou esmago tudo."
162 A Peste: "Ninguém pode ser feliz sem fazer mal aos outros. É a justiça deste Mundo. "
162 Diego: "Não. Conheço a receita. É preciso matar para suprimir o assassínio, ser violento para curar a injustiça. Há séculos que isso dura! Há séculos que os senhores da tua raça apodrecem a chaga do Mundo sob pretexto de curá-la, e continuam a gabar a sua receita, porque ninguém lhes ri na cara."
164 Diego: "Os escravos estão nos tronos."
165 Diego: "É a sua mediocridade  que me irmana a eles [os Homens]. E se eu não for fiel à pobre verdade que com eles compartilho, como o seria ao que tenho de mais solitário?"
165 Diego: "Desprezo apenas os carrascos."
167 A Peste para Diego: "Vá! Sofre um pouco antes de morrer. "
168 A Morte para a Peste: "Antes de ti eu era livre e associada ao acaso. Ninguém me detestava então. "
169 A Morte: "Eu amo aqueles que marcam encontro. "
171 A Peste: "O ideal é obter uma maioria de escravos com o auxílio de uma minoria de mortos bem escolhidos. "
171 A Morte: "Triunfaremos de tudo, excepto do orgulho "
171 A peste: "Honra aos estúpidos porque eles preparam os meus caminhos"
173 Vitória: "Ninguém tem o direito de estar contente e morrer. "
173 Vitória para Diego por este não ter trocado a Terra por ela: "Não. Era preciso escolher-me contra o próprio céu. Era preciso preferir-me à Terra inteira."
174 Diego: "Nós, os homens, nunca fomos capazes senão de morrer. "
175 A Morte: "A Terra é meiga para aqueles que muito a amaram."
176 Nada: "Atenção, vêm aí os que escrevem a história" "
177 Nada: "... aprendereis um dia que não se pode viver bem quando se sabe que o homem não é nada e que a face de Deus é hedionda."
177 O Pescador: "A vaga enorme, das profundidades, alimentada no amargor das águas, há-de arrasar as vossa cidades horríveis. "

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Um bom resumo da peça pode ser lido aqui

O Mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo

Albert Camus


UM RACIOCÍNIO ABSURDO

As páginas que se seguem tratam de uma sensibilidade absurda que se pode encontrar esparsa em nosso século — e não de uma filosofia absurda que o nosso tempo, para sermos claros, não conheceu. É, portanto, de uma honestidade primordial assinalar, logo de início, o que elas devem a certos espíritos contemporâneos. Minha intenção de ocultá-los é tão pequena, que eles se verão todos citados e comentados ao longo da obra. Mas é proveitoso observar, ao mesmo tempo, que o absurdo, tomado até aqui como conclusão, é considerado neste ensaio como um ponto de partida. Nesse sentido, pode-se dizer o quanto há de provisório na minha ponderação: nada se saberia conjeturar na posição a que ela obriga. Aqui somente se encontrará a descrição, em estado puro, de uma doença do espírito. [1] Nenhuma metafísica, nenhuma crença estão misturadas com isso, no momento. São os limites e o compromisso único deste livro.

O absurdo e o suicídio

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.
Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que