domingo, 15 de julho de 2012

DEI

Se há uma razão para sermos homens, não a vislumbro
para lá da simples vontade do sermos;
uma força  que nos empurra como às ervas do jardim,
uma vontade infinita de sermos felizes.

Falam-me duma improbabilidade, Deus.
Há que dizer "sim, está bem", e seguir adiante. 
Mas rio-me como o homem adulto ri
das infantilidades duma criança feliz.

Não, não sou como tu, Søren.
Um Deus absurdo não serve,
o absurdo em nada precisa Dele
passa bem só com o acaso.

E também para quê acreditar
num Criador louco, mau ou vazio
que gera o frio e o caos
em vez da doçura da justiça?

Lisboa, 26 de Dezembro de 1996


terça-feira, 10 de julho de 2012

Dou a volta, caralho!

 

- Mas digo-te de caras, humm.
 Este ano, para ir a Portugal, eu não passo pela Espanha. Dou a volta, caralho! Ou passo por cima, já!

sábado, 7 de julho de 2012

Humanos

Ontem, a ler Charles Darwin, dei-me conta do profundo respeito e admiração que esse grande homem tinha pelos humanos. De uma forma um tanto condescendente comigo mesmo, nunca tinha lido este autor. Ao ponto de, pelas leituras de outros, o não ter em grande consideração.
Sou cínico por natureza, por isso sempre me resultou estranho que algumas pessoas (como Hobbes) achem que os homens são intrinsecamente maus e egoístas quando é evidente que somos (também) tão generosos e sociais. Tornados solitários somos profundamente infelizes. Quem leu Robinson Crusoe recorda certamente a alegria que sentiu (eu senti) quando finalmente deixou de estar só na ilha e apareceu 6ª Feira. Nunca entendi a irracionalidade dessa gente que apregoa que somos lobos uns para os outros. Finalmente, com o tempo, comecei a entender o seu ponto de vista*.

Darwin nada teve a ver com essa perversão que é o darwinismo social, de facto Darwin acreditava nos Homens e a sua filosofia testemunha a favor dos "instintos sociais" entre os animais, e portanto entre os humanos; estabelecendo que o amor e a simpatia, esses dois instintos naturais, jogaram um papel maior na construção da cultura contemporânea. Efectivamente, os animais têm prazer na companhia dos seus semelhantes, apercebem-se do perigo e combatem-no juntos, associando-se defendem-se.

É por demais evidente que "os homens têm mais a admirar que a desprezar" (A. Camus).
Assim, num relance, recordo 2 canções admiráveis, feitas por seres humanos, de uma beleza suprema, arrepiante, em português (e galego):

"Menina dos olhos tristes" "Pra Habana!" (canto V)
Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar
Este vaise i aquel vaise,
e todos, todos se van.
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.

Tés, en cambio,orfos e orfas
e campos de soledad,
e pais que non teñen fillos
e fillos que non tén pais.

E tés corazós que sufren
longas ausencias mortás,
viudas de vivos e mortos
que ninguén consolará.

















(*) O funcionamento do cérebro humano é irracional e cometemos dois erros irracionais típicos, ignoramos o que é esperado e desvalorizamos o que não vai ao encontro dos nossos preconceitos - princípio da confirmação.
Ora o que é esperado em sociedade é que as pessoas sejam educadas, que os outros carros não se cruzem na  frente do nosso, que as pessoas não se choquem nos passeios, que os nossos conhecidos nos cumprimentem, que as crianças perdidas sejam ajudadas a procurar os pais, que os cegos sejam ajudados a atravessar a rua, que os deficientes vejam as cadeiras de rodas empurradas, que sejamos excessivamente tolerantes com as chochices dos velhos e a estupidez das crianças, etc..., aquilo a que se chama civilidade, o nosso cérebro não regista estes momentos "normais".
Por outro lado há um grande grupo de pessoas que passaram a acreditar na maldade dos homens - e isso precisa ser explicado - e os media apoiam essa visão. Todos os dias se lançam dezenas de pessoas à água para salvar gente que se está a afogar, ou se evitam atropelamentos arriscando ser atropelado; milhares de pessoas ajudam cegos a atravessar a rua, outros milhares carregam compras de velhinhas, outros milhares facilitam a vida a deficientes e velhos, dezenas de adultos ajudam crianças perdidas, milhares de pessoas que têm fome e não têm dinheiro vêem a sua fome saciada, etc... e os telejornais abrem quase sempre com um assalto ou outra maldade qualquer. Pessoas que acreditam que o homem é o lobo do homem confirmam o seu preconceito, ignorando os episódios que o contrariam.