sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A arte do chamulho

À propensão das mulheres para se prostituirem, de forma não identificável como tal*, respondem os homens com o engano; fazem-se passar por mais saudaveis, mais generosos, mais poderosos ou mais ricos do que são.
Somos escravos da necessidade, sei-o bem. A reprodução reina no tempo da juventude, a busca do melhor macho reprodutor não se limita à floresta, veio até à cidade e quem não tem os atributos certos não tem de aceitar essa condição passivamente. Não deposito portanto nenhum juízo moral sobre estas duas faces da mesma moeda, a prostituição socialmente aceite e a manha dos homens...
A nobre arte de enganar mulheres que prometem copular em troca de algo mais do que a simples cópula tem nome em Buenos Aires, chama-se "El arte del chamuyo", uma velha palavra de origem castelhana: chamullo, "Palabrería que tiene el propósito de impresionar o convencer". Buenos Aires? Sim, pensem no que é o tango, o seu ritual, o seu propósito. E imaginem uma cultura de homens ensinados desde tenra idade que las minas têm de ser enganadas e levadas ao castigo com manha. Ao pé de um porteño todos somos uns amadores.
Uma busca rápida no google e logo nos primeiros dois resultados me saíram duas pérolas de sabedoria, aqui e aqui. Os porteños são o nec plus ultra de sedução planetária. E as mulheres, mesmo fingindo-se ofendidas, adoram-nos. Em Buenos aires até Agnes Gonxha Bojaxhiu teria perdido os 3, poupando-nos ao triste espetáculo da sua paixão triste pela renúncia ao próprio corpo, esse bem supremo e nossa única propriedade..




(*) A prostituição tem muitas formas e feitios e uma mulher saudável prostituiu-se alguma vez, prostitui-se ou vai prostituir-se. A mais velha profissão do mundo não é a prostituição porque a prostituição é mais velha do que o mundo, um chimpanzé do topo da hierarquia, se captura uma iguaria tem sempre duas escolhas: comê-la ou dá-la a uma fêmea em troca de sexo. As fêmeas primatas usam o sexo para fazer alianças de proteção, para conseguir alimento, para conseguir poder, etc... . Como dizia o meu velho pai, quem tem uma cona tem uma quinta, quem tem uma picha não tem um caralho.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Vinhas doidas

Videira (cepa)
As plantas têm uma alma simples, uma alma de planta (clicar em caso de dúvida!). Uma alma tropical, para sobreviver no frio das almas da Europa, tem de ficar "estranha", enlouquecer o bastante. Uma flor do sul que viaje para o Norte, uma flor vadia, em 6 meses murcha... tem de regressar ao solo do sul para reverdescer ou morre por dentro.
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Vou contar um pouco da história de uma planta enviada pelos Deuses, a videira. Uma viajante para o sul. Uma viajante que enlouqueceu.
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A videira é uma trepadeira da Europa, é nobre, antiga, vive vidas longas, mais de 100 anos, vê os homens vir e passar;
Parreira em Óbidos - foto Rafael Teixeira de Lima
forte e estóica gosta de maus solos, gosta de uma vida difícil, é estranha e diferente das demais plantas. Ao mesmo tempo tem uma vida bonita e se for bem tratada é feliz. A usamos para enfeitar as casas como se fosse uma hera. O meu pai plantou uma em frente da porta de casa, a minha mãe encarregou-se da destruir por maldade e ciume.
Diante da casa, saudando os visitantes e dando sombra, chama-se parreira, os amigos ficam debaixo dela. As parreiras são longevas e dão uvas doces e tardias. Temos carinho pelas vinhas e pelas parreiras....
Adicionar legenda


Em Outubro as videiras pressentem o Inverno, o frio, a neve, e lentamente perdem as folhas e adormecem, gostam até de ser cortadas, carinhosamente decepadas : "podadas".
Com a Primavera adiantada renascem para a vida, depois 6 meses de sono, ansiosas, brutais, dionisíacas (como devem ser sempre as almas nas suas Primaveras!).
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O meu pai contou-me a explicação para o longo canto nocturno do rouxinol. Um conto popular que fala da brutalidade da vida na videira.
 
O canto do rouxinol

Certa noite quente de Maio, passou Nossa Senhora por um caminho estreito, ao lado de uma vinha. Estava luar, tudo era sereno e quieto; mas de repente a Virgem Maria ouviu perto dela piar um passarinho, em queixa triste e cheia de aflição.
Tomada de Pena, Nossa Senhora correu para o passarinho aflito e viu um rouxinol preso pela gavinha duma videira.
Tendo desenleado carinhosamente as patas da avezinha, a Virgem recomendou-lhe que não se deixasse adormecer assim, enquanto crescessem os braços da videira.
Ficou muito contente o rouxinol liberto, por já poder voar. E, desde então, canta sempre de noite, para não adormecer, e diz, agradecido, em seus trinados, estes lindos versos:
Nossa Senhora disse… disse… disse…
Que, enquanto o gavião da videira subisse, que não dormisse, que não dormisse… que não dormisse…
Quando ouvirdes cantar o rouxinol, vede se ele não parece repetir ainda:
Nossa Senhora disse… disse… disse…

Velhinhos assando castanhas para o magusto
Depois dessa explosão vital a cepa dá as uvas, amadurecem até Agosto,  em Setembro são colhidas, pelo São Martinho provamos o vinho novo  com castanhas assadas, fazemos um magusto e cantamos as nossas vinhas.
Em Outubro a videira volta a adormecer, um ciclo mágico, perfeito de 365 dias... ela sabe quando é tempo de dormir, acordar, amar, frutificar e  adormecer. Talvez até saiba quando é preciso morrer. Tem uma alma sã e sábia, como poucos homens têm.

Um dia uma videira foi levada para o Brasil, para Petrolina,  lá não há Inverno nem Primavera nem Verão nem Outono; como é uma planta forte sobreviveu à provação dos trópicos mas pagou o mais alto dos preços: a cepa enlouqueceu.

"Videiras em Petrolina não adormecem
uvas e mais uvas, sem cessar...
cepas doidas, cepas desamadas
sem poetas que as saibam cantar".

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O caminho do meio

Jesus, Judas e Pedro caminham pela Judeia e deparam com um rio caudaloso. Judas diz:
-É pá! Que rio! Como vamos atravessar, mestre?
- Caminhando sobre as águas, Judas.
- Oh Cristo, olha que eu não sei nadar, retorque Judas!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim e não te afogarás!
Avança Pedro e atravessa, quase caminhando sobre as águas, com a água apenas pelos tornozelos. A seguir vai Jesus e, como era seu costume, caminha calmamente sobre as águas.
Judas começa por sua vez a travessia. Desconfiado, como sempre. Com medo de se afogar. Dá um passo e já tem a água pelos joelhos... Diz, assustado:
- Oh Cristo, olha que eu não sei nadar!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim e não te afogarás!
Dá outro passo e já tem água pela cintura. Com a voz esganiçada diz:
- Oh Cristo, olha que eu já te disse que não sei nadar!
- Oh homem de pouca fé, confia em mim, não te afogarás!
Dá mais um passo e já só tem a cabeça fora de água. Com Judas quase a afogar-se diz Pedro para Jesus:
- Ó mestre, ensina-lhe o caminho pelas pedras ou ele afoga-se mesmo!

P.S.: O bom senso manda ir pelo caminho das pedras, o caminho do meio, o caminho do meio-dia de Albert Camus, mas sei que certas pessoas simplesmente não conseguem ir por aí...
Quanto a mim o faço o que me custar menos, o que maximizar a minha liberdade e autonomia. Em cada caso reservo-me o direito de decidir: umas vezes as pedras, outras aprender a nadar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Deus mandou matar Malala

Malala Yousufzai – foto Nighat Dad
Numa longa mensagem enviada há quase 1400 anos, Deus, mandou matar Malala.
Em vez de ser ele a fazer o trabalho sujo, por exemplo fazer explodir a cabeça da miúda, como uma melancia, em pleno vale de Swat. Não, Deus preferiu mandar a mensagem e deixar que os assassinos fossemos nós. Deixar que a nossa ridícula razão interpretasse as suas palavras e premisse o gatilho.
E se Deus não puder ser compreendido pelos humanos?
Se todos os textos sagrados não passarem de imposturas religiosas fruto da nossa incompreensão do Criador?
E se todos os homens de Deus fossem afinal homens do Diabo?

“Apesar de ela ser nova e uma menina e de os taliban não acreditarem em ataques a mulheres, qualquer um que faça campanha contra o islão e a sharia deve ser morto, segundo a sharia”, explicava há dias o porta-voz do grupo no comunicado em que o ataque foi reivindicado. “Não é apenas permitido matar uma pessoa assim, mas obrigatório.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Da riqueza e da pobreza material

O que é a propriedade?
Descobri que para que existam ricos é necessário que haja pobres a quem os primeiros possam comprar parte da vida (horas de trabalho).
Não tinha a certeza, no fundo talvez pudéssemos acabar com a pobreza sem acabar com os ricos. Mas não é possível porque a riqueza é essencialmente definida pela possibilidade da compra de pedaços baratos de vidas alheias (horas de trabalho) com custos baixos para que a riqueza não se delapide rapidamente.
A ideia nada tem de original mas ainda não tinha percebido a falácia da direita e da esquerda moderada quando dizem que "não queremos acabar com os ricos, queremos é acabar com os pobres". A riqueza é horas de trabalho dos outros, acumuladas por um.
Não quero dizer que seja injusto podermos comprar pedaços de servidão voluntária de outrem, pelo contrário; todos o fazemos quando vamos ao médico ou temos aulas.
Mas o que dizer das heranças, os teus filhos já nascerem com direito à servidão dos meus ainda por nascer?

A ler O que é a Propriedade de Proudhon

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As mulheres de Camus ( II )

Quando no futuro se falar em D. Juan vai-se falar em Albert Camus. Principalmente pela vida que viveu mas também pelo capítulo que dedica ao Burlador de Sevilha em O mito de Sísifo.
Camus não é um sedutor qualquer, ele é o que é perdoado facilmente pelas suas conquistas: o grande sedutor. As mulheres perdoam aos grandes sedutores e apenas se sentem usadas pelos medíocres.
Para quem não gosta de sedutores deixo o link do artigo do Guardian, aqui . Acho-o mal escrito e cheio de incorreções mas vai acalmar os corações das senhoras e senhores que acham que o amor é lindo se for um homem e uma mulher, somente.
Fica de seguida uma recente entrevista da filha, Catherine Camus, a um jornal catalão, Las mujeres de Camus e um texto sobre a biografia de Oliver Todd, “Camus and his Women”.

As mulheres de Camus

texto original de  Héctor Aguilar Camín

"Nos últimos dias de Dezembro de 1959 o escritor Albert Camus, que havia ganho o prémio Nobel dois anos antes, escreveu 4 cartas de urgência amorosa.
Preparava o seu regreso a Paris depois de umas férias com a sua esposa e os seus filhos na casa da família em Lourmarin, onde se havia refugiado para começar a escrita de um projecto tão ambicioso como Guerra e paz, de Tolstoi.
Em 29 de Dezembro escreveu: “Esta terrível separação fez-nos pelo menos sentir como nunca a constante necessidade que temos um do outro”.
Em 30 de Dezembro escreveu: “Só para dizer-te que chego Terça-Feira de carro. Faz-me tão feliz a ideia de ver-te outra vez que me rio enquanto escrevo”.
Em 31 de Dezembro escreveu: “Vejo-te na Terça-Feira, meu amor, e já te beijo antecipadamente e te bendigo desde o fundo do meu coração”.
Uma carta mais estabelecia as datas de um encontro prometido em Nova York.
O notável destas cartas de fervor extraconjugal é que estavam dirigidas não a uma mas sim a quatro mulheres diferentes.
A primeira, uma jovem pintora dinamarquesa, chamada Mi, a quem Camus havia seduzido no Café de Fiore. A segunda, uma actriz e directora de teatro de vanguarda, Catherine Sellers, cujo marido faria mais tarde para a BBC o papel masculino da adaptação cinematográfica de A queda [autor: Albert Camus]. A terceira, María Casares, a actriz espanhola consagrada em França, com quem Camus mantinha uma relação amorosa há já dezasseis anos.
A viagem planeada a Nova York era para encontrar Patricia Blake, uma editora da revista Vogue que Camus tinha conhecido e conquistado numa viajem aos Estados Unidos em 1946.
Camus não foi a nenhum destes encontros. No dia 2 de Janeiro de 1960 dirigia-se a eles rumo a París, a bordo do potente carro Facel Vega do seu amigo Michel Gallimard, que conduzia com Camus ao lado, e a sua esposa, sua filha e cão no banco traseiro.
Depois de jantar e dormir em Sens, no dia seguinte, no quilómetro 25 de estrada de Paris, o Facel Vega derrapou, saiu da estrada, bateu numa árvore, depois bateu noutra e terminou a sua deriva. As mulheres saíram ilesas, Michel ficou mortalmente ferido, Camus morreu imediatamente. O cão desapareceu.
Quando morreu, Camus tenía 46 anos, estava na plenitude do seu talento literário e da sua expansão vital, a vida entrava e saía em grandes avenidas por ele, quando o rostro do absurdo, ao que havia olhado sem titubear toda a sua vida, o surpreendeu no caminho."