quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Não acrescentes negatividade à negatividade que já existe

Uma história, comum a quem foi encornado, mostra como Montaigne agia: ver, ouvir, não dizer nada, certamente, mas - método supremo... - mostrar que se sabe, depois não dizer nada.
Quando o seu irmão morre num acidente de jogo de péla , procuram por todo o lado a sua corrente de ouro para as partilhas da herança. Sem a encontrarem.
Como irmão mais velho, Montaigne preside à partilha. Pede que se procure no cofre da sua própria mulher.
De facto a jóia está lá!
Antoinette, mãe do filósofo, salva a honra da nora assumindo que foi ela que arrumou a jóia aí. Montaigne aceita a explicação, mas faz essa versão dos acontecimentos ser registada por um notário, tendo os 3 irmãos como testemunhas...
Nos Ensaios (...) Montaigne teoriza sobre a condição de corno, esclarecendo que toda a gente já foi, é ou será encornado. Ou então toda a gente encornou, encorna ou encornará. Não há por que se melindrar por tão pouco!
Em primeiro lugar a honestidade não é a coisa mais bem distribuída do mundo; em seguida, uma mulher é virtuosa enquanto não tem uma boa oportunidade de deixar de o ser. O mesmo vale para os homens.
O essencial, acrescenta o sábio bem informado - por ter sido encornado e por ter ele próprio encornado! - é a discrição. Não acrescentar mais negatividade à negatividade que já existe.

Tradução livre a partir da biografia de Montaine em:
 "Contra-história da filosofia", Vol II, de Michel Onfray

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Outro sábio, escutem-o:

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Quatro saetas

Na voz de um cigano:



A SAETA

Disse uma voz popular
Quem me empresta uma escada
Para subir ao altar
Para tirar os cravos
De jesus, o nazareno?

Oh! a saeta ao cantar
Ao cristo dos ciganos
Sempre com sangue nas mãos
Sempre por desencravar.

Canto do povo andaluz
Que todas as primaveras
Anda pedindo escadas
Para subir à cruz.

Canto da terra minha
Que lança flores
Ao Jesus da agonia
Que é a fé dos meus anciões*.

Oh! não és tu o meu canto
Não posso cantar nem quero
A esse Jesus da cruz de madeira
Mas sim ao que andou sobre o mar.

(*) Os ciganos vivem em clã e têm respeito reverencial pelos anciões



Num dueto do autor com um brasileiro (Fagner):




O original de Joan Manuel Serrat quando ainda tinha voz: 




E uma surpreendente de Miles Davis: