Mostrar mensagens com a etiqueta Montaigne. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Montaigne. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Sobre o amor

"...uma mulher é virtuosa enquanto não tem uma boa oportunidade de deixar de o ser."
 Montaigne 


Este post é integralmente pro domo sua e a universalidade um disfarce retórico. Quase sempre é assim mesmo que finjamos não o ser. Toda a filosofia provém de um corpo: é a carne que filosofa.
---
Sou um homem que gosta muito de mulheres e a maioria das mulheres não suporta homens que gostem de mulheres. Uma mulher gosta de um homem que goste dela (diferente de gostar de mulheres) mas vai detestá-lo quando descobrir que ele gosta também da moça da padaria, da colega de trabalho dela - que ela detesta -, da irmã dela, da prima e da avó!
---
Se olharmos uma criança de leite retiramos os "ensinamentos" essenciais sobre o amor que temos. O amor da cria pela mãe é simples, egoísta, possessivo, exclusivista, chantagista, IMORAL e cruel até à náusea. É espantoso como possam ver beleza nesse amar. Se pudesse, ela apertaria o botão atómico e destruiria tudo à volta deles para defender seu amor. Que lindo, não é?
E o bebé aperta o botão, os seus meios é que são limitados! Perder a mãe deixa-o em pânico e os outros que disputam a atenção dela são esquartejados sem piedade na vontade e na fantasia, felizmente, quase impotente.
---
Vos dais conta do ridículo do nosso amar?
É que para a criança de leite esse amar infantil faz sentido, se perdesse a mãe MORRIA. Mas nós em adultos não evoluímos: amamos como crianças. O nosso amor adulto segue o modelo infantil do amor pela nossa mãe. Já não morremos se perdermos o/a amado/a mas nos comportamos como se ainda assim fosse! Ridículos e infantis...
Mesmo que esse amar infantil fosse a única forma de amar que a maioria das pessoas é capaz, isso não o faria menos animal, instintivo e IMORAL. A natureza não é moral, nós é que o podemos decidir sê-lo.
---
Essa imoralidade não precisa ser ensinada, o que tem de ser ensinado é o amar como adultos. Não o é. A pintura, a literatura, o cinema, TUDO e todos fazem a apologia do amor infantil. As personagens dos mitos e da arte todas amam como crianças.
Por favor cresçam e façam-se adultos.
Responsáveis.
Responsáveis pela vossa felicidade se forem felizes e pela vossa infelicidade se forem infelizes.
---
Quanto a mim sei que todos podemos ser poliamorosos. Só há, simultaneamente, respeito por nós mesmos e pelos outros no poliamor. Como é costume, Jeová pode esperar, porque ainda estamos vivos.

“Se me pressionarem para dizer por que o amava, sinto que isso só pode
 ser expresso respondendo: ‘Porque era ele; porque sou eu’”
Montaigne

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Não acrescentes negatividade à negatividade que já existe

Uma história, comum a quem foi encornado, mostra como Montaigne agia: ver, ouvir, não dizer nada, certamente, mas - método supremo... - mostrar que se sabe, depois não dizer nada.
Quando o seu irmão morre num acidente de jogo de péla , procuram por todo o lado a sua corrente de ouro para as partilhas da herança. Sem a encontrarem.
Como irmão mais velho, Montaigne preside à partilha. Pede que se procure no cofre da sua própria mulher.
De facto a jóia está lá!
Antoinette, mãe do filósofo, salva a honra da nora assumindo que foi ela que arrumou a jóia aí. Montaigne aceita a explicação, mas faz essa versão dos acontecimentos ser registada por um notário, tendo os 3 irmãos como testemunhas...
Nos Ensaios (...) Montaigne teoriza sobre a condição de corno, esclarecendo que toda a gente já foi, é ou será encornado. Ou então toda a gente encornou, encorna ou encornará. Não há por que se melindrar por tão pouco!
Em primeiro lugar a honestidade não é a coisa mais bem distribuída do mundo; em seguida, uma mulher é virtuosa enquanto não tem uma boa oportunidade de deixar de o ser. O mesmo vale para os homens.
O essencial, acrescenta o sábio bem informado - por ter sido encornado e por ter ele próprio encornado! - é a discrição. Não acrescentar mais negatividade à negatividade que já existe.

Tradução livre a partir da biografia de Montaine em:
 "Contra-história da filosofia", Vol II, de Michel Onfray

----- 
Outro sábio, escutem-o:

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Compor com o corpo

Leão
 
Sinto o sangue correr-me pela garganta,
menos um dia, já faltou pouco.

O trespasse oleado pela dor
não deixa atrás a alvorada.

Ficam na Terra os lugares amados,
de quem amou e deixou de amar um corpo.
Num navio doente, compomos
facilmente com a morte.
Michel de Montaigne