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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Declaração de Cambridge


Declaração de Cambridge sobre Consciência


Neste dia de 07 de julho de 2012, um grupo proeminente de neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas e neurocientistas computacionais reuniram-se na Universidade de Cambridge para reavaliar os substratos neurobiológicos da experiência da consciência e comportamentos relacionados, em animais humanos e não-humanos. Ainda que a investigação comparativa neste área seja muito dificuldade pela incapacidade de animais não humanos - e frequentemente humanos - para clara e prontamente comunicarem seus estados internos, as seguintes observações podem ser feitas inequivocamente:

*O campo da investigação sobre a Consciência está evoluindo rapidamente. Novas técnicas e estratégias de investigação para animais humanos e não-humanos foram desenvolvidas em número abundante. Consequentemente, um maior número de dados é disponibilizado com mais facilidade, o que obriga a uma reavaliação periódica de preconcepções que persistem neste campo. Estudos de animais não-humanos mostraram circuitos cerebrais homólogos correlacionados com a experiência e a percepção da consciência podem ser seletivamente acessadas e manipuladas para compreender se são de fato necessários à referida experiência. Além disso, novas técnicas não invasivas estão já disponíveis para mapear os correlativos da consciência nos humanos. 




*Os substratos neuronais não parecem limitar-se às estruturas corticais. De fato, redes neuronais subcorticais que são estimuladas durante a vivência de estados afetivos em humanos, são também criticamente importantes enquanto geradoras de comportamentos emocionais em animais. A estimulação artificial das mesmas regiões do cérebro gera comportamentos e estados sentimentais correspondentes em ambos, animais humanos e não-humanos. Sempre que suscitamos comportamentos emocionais instintivos em cérebros de animais não-humanos, muitos dos comportamentos subsequentes são consistentes com a experiência de estados sentimentais, incluindo os estados internos compensatórios ou punitivos. Os sistemas associados ao afeto estão concentrados nas regiões subcorticais onde abundam as homologias neuronais. Ademais, os circuitos neuronais que suportam estados comportamentais/eletrofisiológicos de atenção, sono e tomada de decisão, parecem ter surgido tão cedo, no processo evolutivo, quanto a ramificação dos invertebrados, sendo evidentes em insetos e moluscos cefalópodes (e.g.: polvo). 

*As aves parecem oferecer, de forma surpreendente, através do seu comportamento, da sua neurofisiologia, e da sua neuroanatomia, um processo de evolução paralela da consciência. Evidências de níveis de consciência próximo dos humanos têm sido, da forma mais dramática, observadas em papagaios cinzentos africanos. As redes e microcircuitos emocionais e cognitivos de aves e mamíferos parecem ser bastante mais homólogos do que previamente se pensou. Além disso, certas espécies de aves, como foi demonstrado nos padrões neurofisiológicos dos mandarins, exibem padrões neuronais de sono idênticos aos dos mamíferos, incluindo o sono REM, que se pensava exigirem o neocórtex dos mamíferos. As magpies [uma espécie de pombo], em particular, exibiram impressionantes similaridades com humanos, grandes símios, golfinhos e elefantes em estudos de auto reconhecimento da sua imagem refletida num espelho. 

* Nos humanos, o efeito de certos alucinógenos parece estar associado com uma disrupção no processamento cortical de feedforward e feedback. Intervenções farmacológicas em animais não-humanos com compostos conhecidos por afetarem o comportamento humano, podem conduzir a perturbações similares no comportamento dos animais não-humanos. Nos humanos, existem evidências que sugerem que a consciência de algo, tal como na consciência visual, está correlacionada com a atividade cortical, o que não exclui possíveis contribuições do processamento subcortical ou cortical primitivo. Evidências de que sentimentos de animais humanos e não-humanos emergem de redes cerebrais subcorticais homólogas fornecem evidências de qualia afetivas fundamentais evolutivamente partilhados. 

Declaramos o seguinte: “A ausência de neocórtex não parece excluir um organismo da possibilidade de experienciar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não-humanos possuem os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência em linha com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são únicos na posse dos substratos neurológicos que geram consciência. Animais não-humanos, abarcando todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, incluindo os polvos, também possuem estes substratos neurológicos”

Original em inglês:

The Cambridge Declaration on Consciousness ** 

On this day of July 7, 2012, a prominent international group of cognitive neuroscientists, neuropharmacologists, neurophysiologists, neuroanatomists and computational neuroscientists gathered at The University of Cambridge to reassess the neurobiological substrates of conscious experience and related behaviors in human and non-human animals. While comparative research on this topic is naturally hampered by the inability of non-human animals, and often humans, to clearly and readily communicate about their internal states, the following observations can be stated unequivocally:  

*The field of Consciousness research is rapidly evolving. Abundant new techniques and strategies for human and non-human animal research have been developed. Consequently, more data is becoming readily available, and this calls for a periodic reevaluation of previously held preconceptions in this field. Studies of non-human animals have shown that homologous brain circuits correlated with conscious experience and perception can be selectively facilitated and disrupted to assess whether they are in fact necessary for those experiences. Moreover, in humans, new non-invasive techniques are readily available to survey the correlates of consciousness.  

*The neural substrates of emotions do not appear to be confined to cortical structures. In fact, subcortical neural networks aroused during affective states in humans are also critically important for generating emotional behaviors in animals. Artificial arousal of the same brain regions generates corresponding behavior and feeling states in both humans and non-human animals. Wherever in the brain one evokes instinctual emotional behaviors in non-human animals, many of the ensuing behaviors are consistent with experienced feeling states, including those internal states that are rewarding and punishing. Deep brain stimulation of these systems in humans can also generate similar affective states. Systems associated with affect are concentrated in subcortical regions where neural homologies abound. Young human and nonhuman animals without neocortices retain these brain-mind functions. Furthermore, neural circuits supporting behavioral/electrophysiological states of attentiveness, sleep and decision making appear to have arisen in evolution as early as the invertebrate radiation, being evident in insects and cephalopod mollusks (e.g., octopus). 

* Birds appear to offer, in their behavior, neurophysiology, and neuroanatomy a striking case of parallel evolution of consciousness. Evidence of near human-like levels of consciousness has been most dramatically observed in African grey parrots. Mammalian and avian emotional networks and cognitive microcircuitries appear to be far more homologous than previously thought. Moreover, certain species of birds have been found to exhibit neural sleep patterns similar to those of mammals, including REM sleep and, as was demonstrated in zebra finches, neurophysiological patterns, previously thought to require a mammalian neocortex. Magpies in particular have been shown to exhibit striking similarities to humans, great apes, dolphins, and elephants in studies of mirror self-recognition.  

*In humans, the effect of certain hallucinogens appears to be associated with a disruption in cortical feedforward and feedback processing. Pharmacological interventions in non-human animals with compounds known to affect conscious behavior in humans can lead to similar perturbations in behavior in non-human animals. In humans, there is evidence to suggest that awareness is correlated with cortical activity, which does not exclude possible contributions by subcortical or early cortical processing, as in visual awareness. Evidence that human and nonhuman animal emotional feelings arise from homologous subcortical brain networks provide compelling evidence for evolutionarily shared primal affective qualia. 

We declare the following: “The absence of a neocortex does not appear to preclude an organism from experiencing affective states. Convergent evidence indicates that non-human animals have the neuroanatomical, neurochemical, and neurophysiological substrates of conscious states along with the capacity to exhibit intentional behaviors. Consequently, the weight of evidence indicates that humans are not unique in possessing the neurological substrates that generate consciousness. Nonhuman animals, including all mammals and birds, and many other creatures, including octopuses, also possess these neurological substrates.” 

** The Cambridge Declaration on Consciousness was written by Philip Low and edited by Jaak Panksepp, Diana Reiss, David Edelman, Bruno Van Swinderen, Philip Low and Christof Koch. The Declaration was publicly proclaimed in Cambridge, UK, on July 7, 2012, at the Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and non-Human Animals, at Churchill College, University of Cambridge, by Low, Edelman and Koch. The Declaration was signed by the conference participants that very evening, in the presence of Stephen Hawkin, in the Balfour Room at the Hotel du Vin in Cambridge, UK. The signing ceremony was memorialized by CBS 60 Minutes

sábado, 13 de outubro de 2012

Deus mandou matar Malala

Malala Yousufzai – foto Nighat Dad
Numa longa mensagem enviada há quase 1400 anos, Deus, mandou matar Malala.
Em vez de ser ele a fazer o trabalho sujo, por exemplo fazer explodir a cabeça da miúda, como uma melancia, em pleno vale de Swat. Não, Deus preferiu mandar a mensagem e deixar que os assassinos fossemos nós. Deixar que a nossa ridícula razão interpretasse as suas palavras e premisse o gatilho.
E se Deus não puder ser compreendido pelos humanos?
Se todos os textos sagrados não passarem de imposturas religiosas fruto da nossa incompreensão do Criador?
E se todos os homens de Deus fossem afinal homens do Diabo?

“Apesar de ela ser nova e uma menina e de os taliban não acreditarem em ataques a mulheres, qualquer um que faça campanha contra o islão e a sharia deve ser morto, segundo a sharia”, explicava há dias o porta-voz do grupo no comunicado em que o ataque foi reivindicado. “Não é apenas permitido matar uma pessoa assim, mas obrigatório.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Da riqueza e da pobreza material

O que é a propriedade?
Descobri que para que existam ricos é necessário que haja pobres a quem os primeiros possam comprar parte da vida (horas de trabalho).
Não tinha a certeza, no fundo talvez pudéssemos acabar com a pobreza sem acabar com os ricos. Mas não é possível porque a riqueza é essencialmente definida pela possibilidade da compra de pedaços baratos de vidas alheias (horas de trabalho) com custos baixos para que a riqueza não se delapide rapidamente.
A ideia nada tem de original mas ainda não tinha percebido a falácia da direita e da esquerda moderada quando dizem que "não queremos acabar com os ricos, queremos é acabar com os pobres". A riqueza é horas de trabalho dos outros, acumuladas por um.
Não quero dizer que seja injusto podermos comprar pedaços de servidão voluntária de outrem, pelo contrário; todos o fazemos quando vamos ao médico ou temos aulas.
Mas o que dizer das heranças, os teus filhos já nascerem com direito à servidão dos meus ainda por nascer?

A ler O que é a Propriedade de Proudhon

sábado, 8 de setembro de 2012

Un cañón en el culo

La primera operación que efectúa el terrorista económico sobre su víctima es la del terrorista convencional, el del tiro en la nuca


Si lo hemos entendido bien, y no era fácil porque somos un poco bobos, la economía financiera es a la economía real lo que el señor feudal al siervo, lo que el amo al esclavo, lo que la metrópoli a la colonia, lo que el capitalista manchesteriano al obrero sobreexplotado. La economía financiera es el enemigo de clase de la economía real, con la que juega como un cerdo occidental con el cuerpo de un niño en un burdel asiático. Ese cerdo hijo de puta puede hacer, por ejemplo, que tu producción de trigo se aprecie o se deprecie dos años antes de que la hayas sembrado. En efecto, puede comprarte, y sin que tú te enteres de la operación, una cosecha inexistente y vendérsela a un tercero que se la venderá a un cuarto y este a un quinto y puede conseguir, según sus intereses, que a lo largo de ese proceso delirante el precio de ese trigo quimérico se dispare o se hunda sin que tú ganes más si sube, aunque te irás a la mierda si baja. Si baja demasiado, quizá no te compense sembrarlo, pero habrás quedado endeudado sin comerlo ni beberlo para el resto de tu vida, quizá vayas a la cárcel o a la horca por ello, depende de la zona geográfica en la que hayas caído, aunque no hay ninguna segura. De eso trata la economía financiera.
Estamos hablando, para ejemplificar, de la cosecha de un individuo, pero lo que el cerdo hijo de puta compra por lo general es un país entero y a precio de risa, un país con todos sus ciudadanos dentro, digamos que con gente real que se levanta realmente a las seis de mañana y se acuesta de verdad a las doce de la noche. Un país que desde la perspectiva del terrorista financiero no es más que un tablero de juegos reunidos en el que un conjunto de Clicks de Famóbil se mueve de un lado a otro como se mueven las fichas por el juego de la Oca.
La primera operación que efectúa el terrorista financiero sobre su víctima es la del terrorista convencional, el del tiro en la nuca. Es decir, la desprovee del carácter de persona, la cosifica. Una vez convertida en cosa, importa poco si tiene hijos o padres, si se ha levantado con unas décimas de fiebre, si se encuentra en un proceso de divorcio o si no ha dormido porque está preparando unas oposiciones. Nada de eso cuenta para la economía financiera ni para el terrorista económico que acaba de colocar su dedo en el mapa, sobre un país, este, da lo mismo, y dice “compro” o dice “vendo” con la impunidad con la que el que juega al Monopoly compra o vende propiedades inmobiliarias de mentira.
Cuando el terrorista financiero compra o vende, convierte en irreal el trabajo genuino de miles o millones de personas que antes de ir al tajo han dejado en una guardería estatal, donde todavía las haya, a sus hijos, productos de consumo también, los hijos, de ese ejército de cabrones protegidos por los gobiernos de medio mundo, pero sobreprotegidos desde luego por esa cosa que venimos llamando Europa o Unión Europea o, en términos más simples, Alemania, a cuyas arcas se desvían hoy, ahora, en el momento mismo en el que usted lee estas líneas, miles de millones de euros que estaban en las nuestras.
Y se desvían no en un movimiento racional ni justo ni legítimo, se desvían en un movimiento especulativo alentado por Merkel con la complicidad de todos los gobiernos de la llamada zona euro. Usted y yo, con nuestras décimas de fiebre, con nuestros hijos sin guardería o sin trabajo, con nuestro padre enfermo y sin ayudas para la dependencia, con nuestros sufrimientos morales o nuestros gozos sentimentales, usted y yo ya hemos sido cosificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, ya no poseemos las cualidades humanas que nos hacen dignos de la empatía de nuestros congéneres. Ya somos mera mercancía a la que se puede expulsar de la residencia de ancianos, del hospital, de la escuela pública, hemos devenido en algo despreciable, como ese pobre tipo al que el terrorista por antonomasia está a punto de dar un tiro en la nuca en nombre de Dios o de la patria.
A usted y a mí nos están colocando en los bajos del tren una bomba diaria llamada prima de riesgo, por ejemplo, o intereses a siete años, en el nombre de la economía financiera. Vamos a reventón diario, a masacre diaria y hay autores materiales de esa colocación y responsables intelectuales de esas acciones terroristas que quedan impunes entre otras cosas porque los terroristas se presentan a las elecciones y hasta las ganan y porque hay detrás de ellos importantes grupos mediáticos que dan legitimidad a los movimientos especulativos de los que somos víctimas.
La economía financiera, si vamos entendiéndolo, significa que el que te compró aquella cosecha inexistente era un cabrón con los papeles en regla. ¿Tenías tú libertad para no vendérsela? De ninguna manera. Se la habría comprado a tu vecino o al vecino de tu vecino. La actividad principal de la economía financiera consiste en alterar el precio de las cosas, delito prohibido cuando se da a pequeña escala, pero alentado por las autoridades cuando sus magnitudes se salen de los gráficos.
Aquí están alterando el precio de nuestras vidas cada día sin que nadie le ponga remedio, es más, enviando a las fuerzas del orden contra quienes tratan de hacerlo. Y vive Dios que las fuerzas del orden se emplean a fondo en la protección de ese hijo de puta que le vendió a usted, por medio de una estafa autorizada, un producto financiero, es decir, un objeto irreal en el que usted invirtió a lo mejor los ahorros reales de toda su vida. Le vendió humo el muy cerdo amparado por las leyes del Estado que son ya las leyes de la economía financiera, puesto que están a su servicio.
En la economía real, para que una lechuga nazca hay que sembrarla y cuidarla y darle el tiempo preciso para que se desarrolle. Luego hay que recolectarla, claro, y envasarla y distribuirla y facturarla a 30, 60 o 90 días. Una cantidad enorme de tiempo y de energías para obtener unos céntimos, que dividirás con el Estado, a través de los impuestos, para costear los servicios comunes que ahora nos están reduciendo porque la economía financiera ha dado un traspié y hay que sacarla del bache. La economía financiera no se conforma con la plusvalía del capitalismo clásico, necesita también de nuestra sangre y en ello está, por eso juega con nuestra sanidad pública y con nuestra enseñanza y con nuestra justicia al modo en que un terrorista enfermo, valga la redundancia, juega metiendo el cañón de su pistola por el culo de su secuestrado.
Llevan ya cuatro años metiéndonos por el culo ese cañón. Y con la complicidad de los nuestros.

texto original publicado no El País em 14-Agosto-2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MS 13 - Conversão à misantropia

Desde 1986 que leio verdadeiramente o Mundo.
Ontem passei horas a ler e a ver vídeos sobre algo que desconhecia, o MS-13.
Vivendo em Portugal, tem sido a Europa Ocidental o meu pátio de leitura privilegiada. Desde os anos 80 que essa Europa vive um longo período de estagnação. Muitos países conseguiram maquilhar o aspecto económico com o recurso à dívida e o aspecto cultural com comportamentos e processos histriónicos como a publicidade agressiva a sucessos de somenos importância, jogos olímpicos por exemplo,  e a vanguarda na arte do cocó.
A crise actual vem pôr a nu, já não somente a não evolução como me parece também um retrocesso e impreparação para as dificuldades.
Em Julho de 1986 atravessei a fronteira de Vilar Formoso com a intenção de conhecer verdadeiramente a minha Europa. Com pouquíssimo dinheiro - recordo que tinha apenas 170 dólares dividido em notas de $10, uma para cada dia; como descobri rapidamente, com as comissões cambiais, seriam 17 dias de sol e fome - coloquei-me estrategicamente à boleia em Fuentes de Oñoro, diante do "Centro Comercial". Na mão uma placa de papelão que dizia em letras gordas: "SALAMANCA". Plano A, estudante em Coimbra, queria conhecer a universidade irmã.
Alfa Romeo Sprint Veloce de 1985
Não conheci Salamanca, era cedo para isso. Antes do meio-dia parou um carro desportivo, um Alfa Romeo Sprint Veloce de matrícula suíça. Às 5h30 da manhã do dia seguinte deitei-me, para descansar, debaixo de enormes cedros num parque público de Genebra. Pelo sistema de estradas da altura, estava a 2000 km de Coimbra. Nesse Verão passei uma semana a renovar os abrigos anti-nucleares de Genebra. Não gastei quase um tostão e ganhei mais $230. O pederasta argentino chefe da equipa com que trabalhei ainda me deu mais $40 do seu próprio bolso.
Bulldog Palace
Continuei o périplo com um tour por Lausane, Lucerne, Zurique e Lugano, ainda na Suíça, atravessei a Itália do norte até Trieste e daí, tranquilamente entrei a pé na Jugoslávia de Tito (morto há poucos anos), ainda unificada, optimista e esplendidamente comunista. O país fervilhava de vida mesmo se na fronteira só mostrando a minha fortuna de dólares me tivessem permitido passar. Após outra semana do outro lado do muro fiz uma longa viagem até Hamburgo, cruzando lentamente de sul a norte, a Áustria e a Alemanha. Deu tempo para visitar um amigo em Colónia, ver os dois primeiros homens a beijarem-se longamente num bar da cidade. Acelerar a 200 km/h numa auto-estrada de 4 faixas a caminho de Amsterdão; fumar uma ganza legal no Buldog Palace e surpreender-me com o tipo de mulheres que verdadeiramente entesam os homens, no Dam. Até o meu tipo lá estava.
Longos dias em Paris à cata de fantasmas no Café de Fiore e nos Deux Magots e regresso a casa com um par de dias de paragem no país basco francês, algo que se tornaria rotina nos anos seguintes. Madrid de passagem e um dia em Salamanca. Ao todo uns 10.000 km na Europa que seria a do euro.
Religiosamente, durante uma década, repeti viagens deste tipo, desde a Noruega à Grécia. Depois comecei a viajar de forma quase burguesa e perdi a ligação aos países que visitei e passou a ser impossível uma visão profunda - não cabe aqui contar as confissões espantosas que algumas pessoas fazem a um estrangeiro que levam entre duas cidades e a quem sabem nunca mais verão, recordo um homem que me passou 2 horas a dizer como ia matar a mulher e o amante se os surpreendesse ao chegar a casa;  era meia noite e regressava à sua cidade, de surpresa...

Passaram 26 anos, uma geração, o que mudou?
Para começar mudei eu. Não tanto como é natural. A Jugoslávia desapareceu. Em muitos aspectos a Espanha e Portugal mudaram muito e assemelham-se hoje à França e Alemanha de então. A Itália mudou algo, a Holanda mudou pouco, Áustria, França, Alemanha Ocidental e Suíça, quase nada.
Esta Europa globalizou-se economicamente, é um facto. Mas as sociedades não mudaram de forma importante para lá da habitual "espuma dos dias" - modas e modos de consumo.
Sinto porém que houve um retrocesso preocupante. Todas as sociedades se tornaram mais incultas e as pulsões egoístas anti-solidárias esperam apenas uma oportunidade para se mostrarem em todo o seu esplendor de crueldade. Ao contrário de há 26 anos o TER é o único valor aglutinante, o SER perdeu o seu valor. De que vale hoje SER sério, SER culto, SER honesto, SER cientista, SER um Homem?
Ou pelo menos que vale isso comparado com o TER um ferrari, TER um bom trabalho na bolsa de valores, TER dinheiro, TER um cartão de crédito platina, TER um estúdio na zona chique da cidade, TER um iPhone 4, TER uma bolsa versacce e uns sapatos gucci, TER jeito para cantar, TER jeito para o futebol?
Se há área afectada por esta crise é certamente  a do TER. 
O fenómeno MS 13 mostrou-me que uma das fragilidades destas sociedades que substituíram completamente o SER pelo TER é a vasta massa de jovens funcionalmente analfabetos - sobretudo rapazes - que na ausência do TER julgam a sua vida sem um sentido e se dispõem a morrer e matar para manter o status que os filhos dos detentores de capital têm. O PISA aponta para que em Portugal sejam cerca de 25% o número de rapazes de 15 anos (ver aqui) que não sabe ler apesar de estarem a concluir o ensino básico (9ºano de escolaridade) - 21% nos EUA, 46% no México e 56% no Brasil. E a pergunta óbvia é: O que andaram estes rapazes a fazer na escola, durante estes 9 anos?
Enquanto o estado é forte e a sociedade generosa - penso aqui na educação grátis e de qualidade, assistência médica pública generalizada, e apoios sociais às "colectividades" e aos mais pobres - fenómenos como o Mara Salvatrucha são facilmente contidos em bolsas de exclusão social onde os afectados são quase exclusivamente os trabalhadores pobres que têm de viver nesses "bairros" de exclusão social de facto. Pergunto é o que acontecerá quando o estado estiver descredibilizado - pelo mau uso que faz dos nossos impostos - e a sociedade deixar de ser generosa como parece inevitável neste momento em que se corta despesas sociais a torto e a direito e parecemos condenados a passar 30 anos a pagar as dívidas que contraímos?
O nosso MS 13 espera-nos ao virar da esquina desta brutal crise económica mas também crise de cultura e inteligência.  



Vejam os exames de 1966 e de 2012

domingo, 12 de agosto de 2012

Exame da 4ª classe de 1966

Português (5) 


Matemática (5 e 12) 






segunda-feira, 25 de junho de 2012

Estado de Sítio



Página
13 Homens falando: "A Espanha não, homem, a Espanha não!"
17 Nada: "Eu, Nada (...) bêbado por desdém de todas as coisas."
17 Nada: "a vida vale a morte, o homem é feito de madeira de que se fazem as fogueiras."
18 Nada: "Não vocês não estão na ordem, vocês estão na fila. bem alinhados, de ar tranquilo, vocês estão maduros para a calamidade."
18 Nada: "Li nos livros que vale mais ser cúmplice do céu que sua vítima."
21 Nada: "E nada desta Terra, nem rei, nem cometa, nem moral, estarão nunca acima de mim!"
Página
31
Diego:
"Cem anos depois de eu morrer
Poodia a Terra perguntar-me
Se eu já te tinha esquecido
Que eu responderia ainda não!"
67 O Coro: "O nosso coração não era inocente mas amávamos o Mundo e os seus Verões." 
81 Nada: "Estou farto de dizer que não estou morto!"
86 A Morte: "A nossa convicção é que vocês são culpados"
98 Mulher: "A justiça é as crianças comerem o que têm na vontade e não terem frio. A justiça é os meus meninos viverem. Deitei-os ao Mundo numa Terra de alegria. O mar deu-lhes a água do baptismo. Eles não têm precisão de outras riquezas. Não peço para eles senão o pão de cada dia e o sono dos pobres. Não é pedir muito, mas é isso que vocês me recusam. E se recusarem aos infelizes o pão, não haverá luxo, nem lindas falas, nem promessas misteriosas que façam perdoar uma coisa tal."
Nada: "Deveis preferir viver de joelhos a morrerem de pé, para que o universo encontre a sua ordem..."
104 O Juiz: "Se o crime se torna lei, deixa de ser crime"
110 A mulher do juiz: "... o direito (...) está do lado dos que sofrem, gemem e esperam. Não está, não pode estar, com os que calculam e amontoam."
111 A mulher do juiz, adúltera, para o juiz:
"... sei, na minha miséria, que a carne tem as suas faltas, enquanto o coração tem os seus crimes."
117 Diego, marcado pela peste, para a sua amada Vitória: "Morre ao menos comigo."
129 A Morte: "É o meu rol de lavadeira! Eis tudo!"
133 Diego: "Cada um de nós está só por causa da cobardia dos outros."
135 A Morte: "... bastou sempre que um Homem dominasse o seu medo e se revoltasse para que a máquina começasse a ranger. Não digo que ela chegue a parar, não é caso para isso. Mas , enfim, a máquina range e, algumas vezes, acaba mesmo por se avariar."
143 O Coro: "Nós temos sempre pago tudo com a moeda da miséria. É na verdade necessário pagar com a moeda do nosso sangue? "
154 Diego: "Nem medo nem ódio. Silêncio. é essa a nossa vitória.
154 A Peste: "Eu sou aquele que azeda o vinho e seca os frutos. Eu mato o ramo de vinha se ele quer dar uvas, reverdeço-o se o querem utilizar para o lume. Tenho horror às vossas alegrias simples. Tenho horror a este país [Espanha] onde se pretende ser livre sem ser rico. Tenho as prisões, os carrascos, a força, o sangue! A cidade será arrasada e, sobre os seus escombros, a história agonizará enfim no belo silêncio das sociedades perfeitas. Solêncio, pois, ou esmago tudo."
162 A Peste: "Ninguém pode ser feliz sem fazer mal aos outros. É a justiça deste Mundo. "
162 Diego: "Não. Conheço a receita. É preciso matar para suprimir o assassínio, ser violento para curar a injustiça. Há séculos que isso dura! Há séculos que os senhores da tua raça apodrecem a chaga do Mundo sob pretexto de curá-la, e continuam a gabar a sua receita, porque ninguém lhes ri na cara."
164 Diego: "Os escravos estão nos tronos."
165 Diego: "É a sua mediocridade  que me irmana a eles [os Homens]. E se eu não for fiel à pobre verdade que com eles compartilho, como o seria ao que tenho de mais solitário?"
165 Diego: "Desprezo apenas os carrascos."
167 A Peste para Diego: "Vá! Sofre um pouco antes de morrer. "
168 A Morte para a Peste: "Antes de ti eu era livre e associada ao acaso. Ninguém me detestava então. "
169 A Morte: "Eu amo aqueles que marcam encontro. "
171 A Peste: "O ideal é obter uma maioria de escravos com o auxílio de uma minoria de mortos bem escolhidos. "
171 A Morte: "Triunfaremos de tudo, excepto do orgulho "
171 A peste: "Honra aos estúpidos porque eles preparam os meus caminhos"
173 Vitória: "Ninguém tem o direito de estar contente e morrer. "
173 Vitória para Diego por este não ter trocado a Terra por ela: "Não. Era preciso escolher-me contra o próprio céu. Era preciso preferir-me à Terra inteira."
174 Diego: "Nós, os homens, nunca fomos capazes senão de morrer. "
175 A Morte: "A Terra é meiga para aqueles que muito a amaram."
176 Nada: "Atenção, vêm aí os que escrevem a história" "
177 Nada: "... aprendereis um dia que não se pode viver bem quando se sabe que o homem não é nada e que a face de Deus é hedionda."
177 O Pescador: "A vaga enorme, das profundidades, alimentada no amargor das águas, há-de arrasar as vossa cidades horríveis. "

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Um bom resumo da peça pode ser lido aqui

domingo, 24 de junho de 2012

Pornochacha


A coisa foi-me apresentada assim:

- Todos los trintañeros quieren una pornochacha, disse-me a minha pornochacha*.
- O que é uma pornochacha, perguntei eu?



Após alguma investigação aqui fica uma foto e uma reportagem da TV4. Para finalizar um registo histórico.



Antes uma puta era uma puta. Tinham dignidade.



(*) Chacha em castelhano é "empregada doméstica" em português,

sábado, 2 de junho de 2012

Dá-lhes Crato!

Nuno Crato, ministro da educação de Portugal (Ver foto)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Foda-se!

Sandra Laing* com os pais

Anda um gajo na rua a dizer:
- Foda-se! Foda-se! É preciso ter azar, Foda-se!
E murmura:
- Refoda-se!
Passa por ele um padre e diz:
- Desculpa, mas não é bonito dizer isso assim na rua! Que te aconteceu meu filho?
- Desculpe padre mas é que nasceu hoje um filho meu.
- Ah, parabéns meu filho, parabéns, mais uma alma do Senhor. E porque dizes esses palavrões, devias dizer "aleluia, aleluia"?
- Não é isso padre, é que eu sou branco a minha mulher é branca e bebé é mulato!
E diz o padre:
- Foda-se!


(*) Sandra nasceu em Piet Retief, uma pequena cidade conservadora da África do Sul dos tempos do  apartheid. Ambos os pais de Sandra e todos os seus avós eram brancos. O seu irmão mais velho era também branco mas Sandra e o seu irmão mais novo tinham traços africanos. Os pais de Sandra eram ambos membros do National Party e apoiantes do Apartheid. Durante o apartheid, as escolas eram segregadas; contudo, como ambos os pais eram brancos, ela foi enviada para uma escola de completamente-brancos. Os seus pais esperavam que ela clareasse ao crescer; contudo, em vez disso, ela escureceu e o seu cabelo encarapinhou ainda mais.

Fonte: Wikipedia

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ser pobre é uma merda


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Viva España (Cara al Sol!)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A crise em 17-Nov-2011: Médicos a mais


Este post nasce a propósito de uma notícia do público: Ministro da Saúde diz que hospitais têm mil médicos a mais .
Há médicos a mais para o nosso nível de PIB, é claro que há, é um escândalo até sermos dos paises da OCDE com mais médicos, vejam os dados  da OCDE , temos 40% mais médicos que nos EUA ou na Inglaterra, 60% mais que no Canadá. Por curiosidade vejam quem tem 140% de médicos a mais que o Canadá.
Neste momento este governo está a fazer experiências num doente em estado terminal porque as terapias contrastadas não existem.
Sou anarquista e não me sinto com credibilidade para criticar estas medidas.

Desde os anos 80 que tem aumentado o diferencial de rendimentos* DO TRABALHO entre os 20% mais bem pagos e os 20% pior pagos (uma das consequências dos cortes salariais pode bem ser uma "melhoria" deste rácio de desigualdade- S80/S20 - mas isso não é claro porque a elite laboral tem meios para se defender; médicos, gestores , advogados, alguns funcionário públicos, sempre encontram forma de explorar os outros trabalhadores: os dominados dos dominados).
O aumento da desigualdade poderia ter sido combatido pelas próprias vítimas da desigualdade, pelo voto, ou pela sociedade como um todo mas não, a desigualdade aumentou mas a paz social também aumentou (um paradoxo aparente!!!), os anos 90 e 00 assistiram a uma diminuição severa da criminalidade na Tugalândia.
O milagre Tuga?
Nem por isso... assistimos, isso sim, à barbaridade de se conceder rios de crédito a gente de alto risco de "impago" enquanto as transferências para os mais pobres também aumentavam - RMI, Complemento Solidário para Idosos, etc. e tal... - sem o necessário aumento dos impostos. O melhor dos mundos: mais transferências sem um ajuste fiscal suficiente e crédito aos pobres em vez de dignos rendimentos do trabalho que, repito, foi sendo cada vez pior pago em termos relativos porque o S80/S20 continuou a aumentar, era de 3,9 em 1985 e de 4,8 em 2008*.

EU, e mais meio mundo estivemos tranquilamente instalados no poleirinho S20 sem nada fazermos, nada, nadinha, nicles, nem um reles postezito indignado pelo absurdo de ganharmos mais de 80% dos portugueses fazendo um trabalho meritório, sim, mas apenas tão útil como o das senhoras que limpam as escadas da escola onde dou aulas. Agora, alguns de nós escrevem posts no facebook a precisar de correcção urgente quando 25% dos portugueses ganha menos de 550 euros **.
Não temos dinheiro para pagar ao mesmo tempo: a educação que temos, a saúde que temos e O SILÊNCIO DOS POBRES que fizemos. Agora temos de escolher e este governo já escolheu.

* Ver slide 21 do estudo http://ffms.pt/upload/docs/a7bda47e-13e3-4432-9f88-e0055934d934.pdf .

** Ver slide 9 do mesmo estudo.

P.S.: Em último recurso antes de pensar, seja o que for, ler o estudo TODO em http://www.ffms.pt/upload/docs/e7256dbe-1ee6-4e94-a834-fda6ed9d9bf5.pdf .

sábado, 17 de setembro de 2011

O futuro é uma merda. Divertamo-nos.

Neste vídeo, sobre o aquecimento global, diz ela ao canalizador:
-A onda de calor de 2003 matou mais de 20.000 pessoas. E as coisas só vão piorar.
Fodemos?


sexta-feira, 22 de julho de 2011

I'm a poor lonesome cowboy...


José Sócrates é derrotado e abandona a política.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Pisa 2009

Resultados do PISA 2009